Vivo num país onde uma câmara municipal abre um concurso para escolher um director artístico para um dos seus equipamentos culturais, demora 11 meses a lançar os resultados e, dois dias após a sua divulgação, anula o concurso, alegando “alocação de meios a situações de necessidade e urgência em resultado da situação de calamidade declarada no concelho”. Leio a notícia sobre o Convento São Francisco, em Coimbra, e paro para pensar. Entendendo que os meios alocados a uma nova necessidade de urgência são o ordenado anual de 36.000 euros do director escolhido para o cargo, falamos de um aproveitamento equivalente a sete subsídios de cinco mil euros? Podemos reconstruir, vá, cinco telhados?
Ou será que falamos do orçamento para a programação integral de 2026 e a Câmara Municipal de Coimbra considera cancelar todos os espectáculos programados para este ano, votando o sector cultural a uma situação ainda mais precária, e transformar um equipamento que custou aos contribuintes 42 milhões de euros em mais um mausoléu, assumindo como prioridade máxima a “manutenção do edifício” como, aliás, afirmou Ana Abrunhosa, presidente da Câmara de Coimbra, no Diário das Beiras, em 2025, assim que tomou posse?
Ah, esperem, se calhar conta com o orçamento dos dois anos e meio de programação (um milhão e meio), e, nesse caso, considera também despedir toda a equipa que já trabalha para este projecto, ou talvez mantenha assalariados e lhes peça para fazerem algo de útil com o seu tempo, como ajudar à reconstrução da região (como tantos artistas e comunidades fizeram tão empenhadamente neste mês e meio, muito antes de o Governo abrir os olhos para a realidade que o país atravessava). Ou se calhar esta decisão é apenas temporária, como também já afirmou a autarca, e este orçamento para o Convento de São Francisco vai ser gasto na sua totalidade em actividades culturais como previsto e para contratar um director artístico, só não agora, e nesse caso não percebemos qual terá sido a razão que levou a presidente da câmara a tomar esta decisão, pois não? Enfim…
Vivo num país onde a 96.ª edição da Feira do Livro de Lisboa decidiu excluir associados históricos e dezenas de editoras independentes sob o argumento de “falta de espaço”, incluindo, curiosamente, a editora DNL Convergência, de Ansião, responsável por “10% de toda a programação cultural da Feira do Livro de Lisboa” (afirma a DNL) e com um papel fundamental na distribuição e promoção do livro e da leitura na região centro — a tal fustigada pelas recentes tempestades e que se vê agora afectada por um outro tipo de calamidade: uma visão míope da cultura que privilegia os grandes grupos e retira impunemente diversidade e pluralidade aos leitores, aos espectadores e aos cidadãos do seu país em nome da “falta de espaço”, ou da “alocação de meios”.
Vivo num país onde estas notícias são fresquinhas, desta semana, mas infelizmente não são excepção nem exemplo de delírios incompreensíveis da classe dirigente (seja ela a política ou a dos grandes grupos económicos).
Há muito que o meu país anda à deriva em termos de política cultural. Ministros como Adão e Silva injectaram dinheiro em parte de concursos de artes do espectáculo após o seu fecho e durante o período de avaliação, pensando contribuir para o tecido cultural. O resultado foi um apoio bojudo para quatro anos a poucas companhias com um percurso sólido (e naturalmente reconhecido), com a possibilidade de ver esse apoio renovado automaticamente, deixando à míngua cerca de 80% de todos os outros apoios elegíveis, correspondentes a um sem número de estruturas mais pequenas que representam as gerações novas, a inovação, a experimentação, o trabalho comunitário, algumas com décadas de experiência e milhares de espectadores, muitas que não voltarão a erguer-se — quem consegue esperar uma década pela mudança e, entretanto, pagar as contas?
Eu própria, e após dois anos tão magníficos quanto duros de reinvenção permanente à frente do Teatro Viriato, em Viseu, em tempos de covid-19, fui afastada da direcção artística de um dia para o outro e minutos após a conferência de imprensa sobre a nova temporada de 2022 — pela então directora do Centro de Artes do Espectáculo de Viseu (CAEV) Paula Mota Garcia (simultaneamente coordenadora da candidatura de Évora a Capital Europeia da Cultura 27, porque não controlar duas regiões quando já se tem uma?) —, alegando que alguns trabalhadores (não podia dizer quais) tinham pedido o meu afastamento (não podia partilhar as razões por respeito aos envolvidos, e estou a citar). A decisão foi tomada à revelia da grande maioria dos membros do CAEV, que dela tomaram conhecimento pelos jornais.
E poderia continuar a citar exemplos, uns mais amadores, outros mais institucionais, todos com o mesmo carácter arbitrário.
E o que fazemos enquanto sector? Primeiro, ficamos escandalizados; depois, apoiamos quem dá o corpo às balas, uns dão palmadinhas nas costas de outros e dizem “tu tens energia, arranjas outra coisa num instante”; outros ainda, concluem que é sempre assim, não vale a pena; e aqueles que avaliam a situação e sabem que uma injustiça é uma espécie de erva daninha que prolifera se não se cuida bem do terreno atiram-se para a luta, sacrificando muitas vezes o próprio funcionamento dos teatros e companhias que amam, destruindo a família e desafiando a sua sanidade mental e a dos envolvidos. E enquanto isso… Aqueles que tomam as decisões irascíveis que originam esta permanente instabilidade continuam a cirandar pelos corredores do poder, incólumes. Para quem se envolve e acredita no que faz, a tragédia termina quando se atiram a novas causas de corpo e alma até o dia em que…
E nesta roda vamos. Mas hoje, ao ler as notícias sobre o Convento são Francisco em Coimbra e da Feira do Livro de Lisboa, enquanto ouvia na rádio o Presidente de França, Emmanuel Macron, afirmar que “Só somos livres se formos temidos!”, senti a velocidade estonteante com que assistimos à destruição de tudo aquilo em que acreditamos sem piscar os olhos e pensei: quando vamos de facto sentar-nos a discutir a política cultural que desejamos para o país e para a Europa? Quando vamos defender o nosso património e futuro morais apoiando projectos, sonhos e criações que reflictam as mais profundas ansiedades deste país sempre adiado? Quando um partido de extrema-direita passar a governar o país? Quando invadirem as Lajes como retaliação às posições que temos por não tomarmos nenhuma? Quando vivermos num lugar que cospe em quem pensa e aplaude discursos autocráticos e xenófobos? Quando nos esquecermos todos do que é ter qualidades? Quando já não fizer diferença se somos ou não felizes?
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