96 Decibéis ou como o amor e a empatia podem resgatar a esperança perdida

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Imaginemos alguém a afogar-se. Intuitivamente, irá esbracejar com toda a força, a respiração crescentemente ofegante, a racionalidade perdida. E o corpo? Irá afundar-se cada vez mais, inevitavelmente. Marco Paiva propõe esta imagem para explicar o que lhe parece fazer cada vez mais falta ao quotidiano corrido da modernidade: “Tranquilidade para, no meio do turbilhão, deixar o corpo flutuar e encontrar alguma racionalidade.” 96 Decibéis, espectáculo que junta o Teatrão e a Terra Amarela e está na Sala Laborinho Lúcio da Oficina Municipal do Teatro, em Coimbra, até 26 de Abril, é sobre este corpo em busca de um território onde repousar – e, reconhecendo-se, encontrar o seu lugar, na partilha com os outros.

Tudo começou há dois anos. As companhias Teatrão e Terra Amarela nunca tinham criado juntas, mas partilhavam uma “ética” capaz de antecipar casamento feliz: a busca da diversidade artística, a acessibilidade para artistas e público, uma democracia cultural, conta Marco Paiva, encenador do espectáculo e fundador da Terra Amarela. Entre trocas sobre experiências metodológicas — e o que poderia nascer de novo do cruzamento delas , puseram-se a pensar sobre nós atados e como os desatar: “Como é que num tempo caótico, de ruína, conflito e muita entropia ainda encontramos lugares onde a empatia, o amor e o pensamento criativo se conseguem instalar e prevalecer?” Estava encontrado o pontapé de saída do espectáculo, entregue à escrita de Alex Cassal, com interpretação de Eva Tiago, Margarida Sousa, Paulo Azevedo e Vasco Seromenho.

Num cenário “pós-apocalíptico” onde a cenografia é uma grande ruína (os protagonistas sobreviveram a algum tipo de acontecimento trágico), quatro amigos resistem e questionam-se de que forma podem manter-se juntos: é possível o amor em tempos de cólera? O espectáculo, em língua gestual portuguesa e língua oralizada, com artistas com mobilidade reduzida e surdez, tem música ao vivo dos Punkada, banda gestada há mais de 30 anos na Associação de Paralisia Cerebral de Coimbra.

96 Decibéis é, no fundo, sobre o que nos pode resgatar do lugar onde estamos, diz Marco Paiva: “Esta ideia de amor com a qual o espectáculo dialoga é, infelizmente, das poucas bolsas de esperança que temos para pensar com algum cuidado sobre o que está a nossa volta. É este lugar de cuidado com o que nos rodeia, uma réstia de esperança de que, se nos mantivermos atentos ao que está à volta, conseguiremos construir um futuro melhor.”

Não é sobre romantização ou um vazio “vai ficar tudo bem”, mas sobre a “consciência do outro”. Um “amor-cuidado”. Sem ignorar que “tudo é cíclico”, mas acreditando que “se conseguirmos guiar-nos dentro dos monstros que somos por este lugar mais cuidado sobre o outro, vamos conseguindo, pouco a pouco, construir sítios melhores para viver”.

A velocidade do quotidiano impele o contrário, é certo. Mas o teatro, arte mestra do abrandamento, “das poucas que ainda convocam um estar olhos nos olhos”, pode algo contra isso: “O espectáculo propõe essa suspensão, de alguma maneira. Durante esta hora e pouco, vamos pensar quem somos nós no meio de tudo isto.”

O 96 Decibéis, que integra o Projeto MAIS, um programa de formação artística para a profissionalização, está em cena até 26 de Abril, às 19h de quartas e quintas, 21h30 de sextas e sábados e 17h de domingo. Em 2027 deverá estar em digressão nacional. Mariana Correia Pinto

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