O Engenho Novo da Madeira é uma viagem ao passado e ao futuro da cana-de-açúcar

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O Engenho Novo da Madeira pode ser (relativamente) recente, mas tem uma história secular, que anda de mãos dadas com a história da cana-de-açúcar na ilha e que remonta aos tempos em que William Hinton criou, no Funchal, um engenho que empregava umas 250 pessoas e que em 15 dias moía o equivalente à produção actual de toda a cana-de-açúcar na região. Essa história é contada nas visitas que o produtor do rum William Hinton promove, sempre por marcação, ao engenho que nesta altura do ano está ao rubro. Em dois meses, o Engenho Novo, na zona Oeste da Madeira, conta conseguir moer 2000 toneladas de cana-de-açúcar.

O outro engenho, aquele que lhe está na origem, criado por William Hinton em 1845, era avançadíssimo para a época e produzia açúcar e rum não agrícola. Funcionou até 1976 e viria a ser desmantelado uma década depois. Já no início dos anos 2000, os seus herdeiros foram expropriados, num processo truculento que fez correr muita tinta nos jornais, e os terrenos da fábrica deram lugar ao Jardim de Santa Luzia — ainda lá estão uma enorme chaminé e algumas rodas dentadas da velhinha Fábrica do Torreão.

Um dos herdeiros daquele que ficou popularmente conhecido como Engenho do Hinton juntou-se a outros accionistas e fundou há 20 anos o Engenho Novo (EN). Quem visita a produção nas zonas altas da Calheta — a uns 650 metros de altitude — fica por exemplo a saber que a velhinha coluna de destilação contínua “Leonor” veio do Hinton e já se chamou “João”.

São hoje três as unidades de produção de rum agrícola da Madeira — produto com Indicação Geográfica Protegida — no EN a centenária “Leonor”, ainda em funcionamento; as duas “Marias”, dois alambiques de destilação descontínua (os anglo-saxónicos chamam a este processo pot still) e de patente portuguesa; e uma nova coluna de destilação, mais eficiente do ponto de vista energético. Feita à medida, foi projectada para entregar o mesmo perfil de rum que a “Leonor”. A ideia é que as duas gigantes — a nova ainda não foi baptizada e faz parte de um investimento mais abrangente, de cerca de dois milhões de euros, feito ao abrigo do apoio do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) português para a Descarbonização da Indústria — funcionem de forma complementar.

Foco: rum agrícola

A visita começa antes, ainda na rua, onde nesta altura, e até inícios de Junho, se acumulam os molhos de cana-de-açúcar. Como na vinha ou na cultura da bananeira, também na cana-de-açúcar escasseia a mão-de-obra na directa razão em que envelhece o produtor. Vai daí, a matéria-prima chega sobretudo ao fim-de-semana, razão pela qual se reveste de especial importância a outra parte do recente investimento. “O rum agrícola é feito a partir do sumo fresco da cana-de-açúcar. Se calhar, 95% dos runs mundiais são feitos a partir do melaço, mel de cana, que é um subproduto da indústria açucareira. Aqui, o nosso foco é o rum agrícola”, começou por explicar à Fugas Celso Olim, director-geral do EN.

Uma nova unidade de extracção permitiu ao engenho passar a processar dez toneladas de cana-de-açúcar por hora, o dobro do que transformava antes. “Os outros engenhos trabalham com cana inteira e moendas fixas”, ao passo que no EN a cana é desfibrada, sobrando no final uma ‘palha’ mais miudinha. “Antes de entrar no moinho de marmelos, partimos a cana para reduzir o volume, apertar mais as moendas e aumentar a extracção”, explica. De uma tonelada de cana, são normalmente extraídos “700 litros de caldo”, com o novo sistema a fábrica conseguirá extrair mais cem litros de sumo da mesma cana.

Há outra vantagem, tanto aqui como na nova caldeira, a biomassa que aproveita o resíduo sólido da transformação da cana de açúcar — o terceiro pilar da recente reestruturação: com máquinas novas, os consumos energéticos são mais eficientes.

Os “anjos” também bebem

“Estou cá desde 2007 e há quase 20 anos o fluxo de chegada da nossa matéria-prima era mais constante, a cana ia chegando ao longo da semana e estava sempre fresca, o que melhorava os processos de extracção e de fermentação. O ideal é nós termos o produto pronto 48 horas após o corte.”

Esse produto, percebe-se durante a visita, começa por ser um fermentado de sumo de cana-de-açúcar com teor alcoólico a rondar os 5%. É esse líquido que, depois, e consoante o seu grau Brix (a sua doçura), vai ora para a produção de rum, ora para a produção de mel de cana. “Aí, é basicamente evaporar a água que está no sumo de forma a concentrar e a termos um teor de açúcar à volta dos 78%”, refere o gestor.

O líquido que vira rum pode passar por diferentes tipos de fermentação, mas “99% dessas fermentações são feitas a temperatura controlada, entre 28ºC e 30ºC, e com leveduras seleccionadas, duram 24 horas”. Isso tudo é-nos explicado antes de chegarmos ao mezanino onde ficam os cascos de envelhecimento. É lá que ouvimos dizer que a “quota dos anjos”, a evaporação, leva 15% do rum em três anos! É obra.

Direitos Reservados
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Ana Isabel Pereira

O envelhecimento de runs está no centro da aposta da marca William Hinton, que em 2015, à boleia da sua estratégia de internacionalização, pôs toda a ilha a chamar rum à tradicional aguardente de cana-de-açúcar — sim, são a mesma bebida e, já agora, na tradicional poncha madeirense é utilizado rum agrícola branco.

Não é despiciendo o facto de a bebida se chamar agora rum. Com a mudança, a aguardente de cana da Madeira ganhou notoriedade e outro elã, lá fora, mas também cá dentro, por exemplo com o Madeira Rum Festival, evento anual cuja 8.ª edição se realizou há dias, no Funchal.

Três provas

No EN, o visitante não paga a visita, mas sim a prova. E há três opções. A prova “bronze” (20€) inclui os três runs da gama de entrada da William Hinton (branco, 9 meses e 3 anos), o 6 anos da marca e um rum fumado, o William Hinton Smoked Rum. A prova “prata” (35€) inclui o mesmo trio e três runs envelhecidos que terminam o seu estágio em cascos previamente usados noutras bebidas alcoólicas.

São os chamados single cask e são “terminados” em cascos de vinho Madeira, Porto, Whisky, Jerez ou Cognac — isso nem sempre vem nos rótulos, dependendo das denominações de origem desses outros vinhos e do proteccionismo das mesmas. São edições limitadas e, para lá das subtilezas que adquirem nesse “finish”, conta-nos Eugénio Rodrigues, gestor comercial e de produto, permitem a um consumidor mais conhecedor perceber de forma individual “o contributo de cada tipo de barrica para o envelhecimento do rum”.

“E quando beber o nosso 6 anos, poderá ir à procura das notas que encontrou no single cask Madeira ou no single cask Whisky, por exemplo, já que esse rum é um blend de vários tipos de barricas, feito pelo nosso master blender Emanuel Camacho”, acrescenta.

A prova “ouro” (50€) começa com esse rum envelhecido, e inclui cinco dos tais single casks e duas edições especiais, que também as há no portefólio da William Hinton, cujo projecto de runs envelhecidos começou em 2009 com 90 barricas e já ultrapassou os 1400 cascos, quase tudo carvalho francês. Nas principais garrafeiras nacionais, os runs William Hinton custam entre 20 e 100 euros, mas quem visita o EN tem desconto na compra das bebidas da casa, que também faz licores, poncha e um vermute.

A cana-de-açúcar chegou à Madeira no século XV e a menção mais antiga à produção de aguardente de cana na ilha surgiu num documento de meados do século XVII. A cultura está no ADN da região, que chegou a ter dezenas de engenhos, mas tem vindo a perder expressão. Há meia dúzia de anos, a produção anual de cana-de-açúcar chegou a ser de 11.500 toneladas. Em 2025, ficou-se pelas 8500.

Tem vindo sempre a diminuir, apesar de o valor pago ao agricultor ter aumentado — segundo Celso Olim, esse valor, por tonelada, mais do que duplicou desde 2021, de 280 para 620 euros. Os produtores de rum agrícola são apenas quatro: para além do EN, os Engenhos do Norte — o principal produtor, no Porto da Cruz, Machico —, a Sociedade dos Engenhos da Calheta e O Reizinho — empresa familiar de Santa Cruz, que transforma umas 300 toneladas por ano.

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