Eu acredito, logo existo

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Durante séculos, a máxima cartesiana “cogito, ergo sum” (penso, logo existo) funcionou como um dos pilares simbólicos da modernidade. Pensar significava duvidar, questionar, suspender certezas e submeter o mundo à prova da razão. A existência ancorava-se, assim, na capacidade de refletir criticamente. Hoje, porém, parece emergir uma nova máxima social, menos exigente e mais imediata: “Eu acredito, logo existo”.

Esta mutação não é apenas retórica, é profundamente cultural, política e tecnológica. Num ecossistema marcado pela hipertecnologização do quotidiano, pela aceleração da informação e pela centralidade das plataformas digitais, a crença ganha um novo estatuto. Já não se resume a uma convicção do nosso foro íntimo, ela torna-se um modo de afirmação pública, uma forma de pertença e, sobretudo, um critério de validação do real.

A lógica é simples e sedutora: se algo ressoa comigo, se confirma a minha intuição ou se se alinha com a minha visão do mundo, então deve ser verdadeiro. A exigência da prova, da verificação ou da argumentação tende a ser substituída por um reconhecimento imediato. Não se trata de demonstrar, trata-se de aderir a algo que me provoca conforto e não confronto. E essa adesão, amplificada pelas redes sociais, encontra rapidamente eco em comunidades que reforçam e legitimam a crença inicial.

Aqui, as plataformas digitais desempenham um papel central. Os algoritmos que organizam a informação privilegiam aquilo que gera mais envolvimento, mais emoção, mais viralidade e nada mobiliza mais do que aquilo em que já acreditamos. A crença circula mais rapidamente do que o argumento porque exige menos tempo, menos esforço, menos complexidade e nesse cenário a emoção ganha terreno sobre a razão. O resultado é a formação de ambientes informacionais fechados, onde a repetição e reprodução substituem o questionamento, a dúvida, a verificação e onde a familiaridade se confunde com verdade. A crença deixa de ser apenas individual e passa a assumir uma dimensão coletiva, performativa e continuamente reforçada transformando-se numa certeza que, embora frágil, traz conforto, visibilidade e sentido de pertença.

Mas há um deslocamento ainda mais subtil e talvez mais inquietante. A crença deixa de ser algo que temos para passar a ser algo que somos. As nossas posições, opiniões e convicções tornaram-se extensões da nossa identidade. Questionar a crença de outrem deixa de ser um exercício intelectual legítimo e passa a ser interpretado como uma ameaça pessoal. O espaço para o desacordo construtivo estreita-se, substituído por dinâmicas de polarização e reafirmação.

As consequências políticas desta transformação são significativas. A democracia, entendida como espaço de debate e deliberação informada, pressupõe cidadãos capazes de estabelecer um diálogo horizontal feito de distanciamento crítico, ponderação, argumentação e revisão de posições e ideias. Quando a esfera pública se organiza em torno de crenças estabilizadas e profundamente enraizadas, o debate tende a transformar-se num confronto hierárquico entre certezas inabaláveis. Não se procura compreender o outro, mas reafirmar-se perante ele. Não se procura estabelecer pontes de entendimento, erguem-se, antes, torres cada vez mais altas de isolamento e auto-confirmação.

Importa sublinhar: não se trata de negar a importância das crenças na vida humana. Elas são inevitáveis, estruturantes e, muitas vezes, necessárias. O problema surge quando a crença deixa de ser atravessada pela crítica e pela dúvida, tornando-se impermeável à revisão. Quando acreditar passa a ser o suficiente e a determinar a forma como lemos e nos relacionamos com o mundo. Talvez o verdadeiro desafio do nosso tempo resida precisamente aqui: resgatar o valor do pensamento crítico num mundo governado por um pensamento fast food que privilegia a adesão imediata. Não para regressar ingenuamente a um ideal racionalista puro e exclusivo, mas para reequilibrar a relação entre crença e reflexão, entre emoção e razão, para reintroduzir a pausa, a complexidade e o contraditório num espaço público cada vez mais acelerado e atomizado.

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