Puxa a vida

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Quando o meu avô não conseguia compreender qualquer coisa, quando a realidade parecia demasiado confusa e difícil de decifrar, o meu avô puxava para trás a boina que lhe cobria a careca, coçava a testa e dizia: “Puxa a vida…” Como se com estas palavras pudesse de alguma forma agarrar, ou antes puxar, um cordel que ainda o segurasse a uma lógica para a realidade.

Quando eu era adolescente e o meu avô caminhava aparentemente pacificado diante da confusão do mundo, era ele quem me levava muitas vezes ao liceu, na sua velha carrinha cor de mostarda, com que avançava aos solavancos, diante das buzinadelas dos outros condutores furiosos e apressados.

O meu avô morreu, há muito tempo, e nem por isso a realidade deixou de avançar, furiosa e apressada — e presumindo que o verbo “avançar” indicie sempre um movimento para diante, há no entanto coisas do tempo que parecem querer recuar, teimosas. O mundo aos solavancos como a carrinha mostarda.

Há uns dias voltei ao liceu. Fui convidada a fazer um ciclo de Encontros com Jovens Adolescentes de Escolas Secundárias, para os ouvir falar sobre o Amor Romântico e as Relações Amorosas, enquanto pesquisa para escrever uma peça de teatro a este respeito.

As visitas às escolas enchem-me sempre profundamente de esperança. Como se pudesse senti-la nos pulmões, quando inspiro: as conversas que tenho com os jovens excedem sempre as minhas expectativas pela forma tocante com que eles se envolvem, como se expressam e interrogam, como abordam áreas tão sensíveis de formas por vezes altamente sofisticadas, articuladas e profundas. Supor que esta é uma geração distraída ou alheada, é não escutar verdadeiramente as vozes que dela emergem. No entanto, escutá-la, ainda que sob um carácter informal, é também ao espaço onde questões verdadeiramente inquietantes assomam.

O último encontro em particular, aguçou a minha curiosidade.

Quando cheguei à porta do bloco de salas, a professora que me acompanhava advertiu-me: “Estes são difíceis. São muito irrequietos. Vão ser difíceis de agarrar!”

“Bingo!”, pensei para mim, que contraí cedo uma teimosa crónica. “Difíceis de agarrar” são (analogias românticas à parte) os meus favoritos! Quando entrei na sala sem mesas nem cadeiras — a meu pedido — e me deparei com o grupo com quem ia estar, vi que eram tudo o que os adolescentes devem ser: barulhentos, destemidos, provocadores, tinham cores nos cabelos, calças que escorregam pela cintura e bonés que cobriam estrategicamente o rosto diante de uma aproximação invasiva, mas que permitiam espiar movimentos por detrás da cortina da timidez. Alguns enfrentavam-me com a franqueza escancarada de um quadro nu renascentista que ostenta a pele sem temer o olhar do espetador… Outros sorriam com os ombros, encolhidos no seu corpo em test-drive.

Em poucos minutos estávamos em roda, a fazer um desses jogos de movimentos que uso para relembrar (sobretudo a mim mesma) de que não interessa a nossa idade, nunca iremos esquecer o prazer de brincar que guardamos nas pontas das mãos e dos pés. A puxarmos uns pelos outros. Fizemos improvisações, criámos cenas de teatro e levantámos perguntas (para mim uma pesquisa artística tem tanto mais sucesso quantas mais perguntas levantar).

Depois espalhei pela sala palavras escritas em papéis soltos: confiança, amizade, criatividade, sexo, sonho, desencontro, amparo, ciúmes …. Havia papéis sem palavras, prontos a serem preenchidos por eles. Fiquei à escuta do que teriam para contar, que palavras iriam escrever.

No amplo território das relações virtuais e do presente tecnológico, há palavras novas que aparecem, como colonos a ocupar o território vasto do vocabulário amoroso: red flags, bloquear, orbiting, benching, catfishing, stalkear, ghosting. Palavras forasteiras, que se infiltram no terreno permeável do amor, não tanto para o ampliar, mas muitas vezes para lhe introduzir estreitamentos, isolamento, solidão, temor, fuga.

Com tantas novas expressões para tantas novas hipóteses por mapear no terreno tecnológico do amor, não é estranho que se possam sentir perdidos. Não significa que esta seja a única teia de vocabulário das relações online. Mas se calhar vale a pena dedicar-lhe algum tempo. Talvez possamos perceber que a rede que nos liga, também pode ser uma teia com muitas armadilhas.

Outra questão que surgiu, e que era comum de resto a todos os grupos anteriores, foi a do cansaço que os jovens acusam em relação a um excesso de discurso nas redes sobre o que deve ser o amor ou uma relação amorosa bem-sucedida. Um discurso que prospera na esfera digital onde mergulham durante longas horas e que os acompanha sempre.

Tiktokers, influencers e instagramers disseminam toda uma série formatos e conteúdos acerca do que o amor romântico deve ser, e sobre quem eles mesmos devem ser, com padrões que lhes parecem irreais e difíceis de atingir. A arquitetura do mundo digital — uma segunda realidade e uma segunda pele — parece altamente acolhedora e, ao mesmo tempo, inteiramente hostil.

Constatei que muitos desses conteúdos que determinam e sacerdotizam as regras do amor, uma espécie de dogmatismo amoroso cheio de regras, são produzidos muitas vezes por adolescentes. São conteúdos de jovens para jovens. No entanto há uma economia, de adultos, uma economia de gigantes que alimenta e se alimenta precisamente destes vídeos. A capitalização dos afetos. Se na economia da atenção e da visibilidade o amor é um produto, então as emoções e atenção dos nossos jovens e adolescentes, são a moeda de troca?

Encontrei também um curioso saudosismo sobre as relações amorosas de tempos não vividos: “No tempo dos nossos avós era mais fácil, porque amavam de verdade.” “Para os meus avós era mais fácil namorar porque não pensavam apenas no corpo — os casais namoravam de verdade”…

Refletimos sobre o facto de na altura dos avós (dos meus, dos deles) o Código Civil impor a submissão da mulher ao marido, e por isso as mulheres estarem impedidas de se divorciar, viajar para o estrangeiro, trabalhar sem autorização do “chefe de família”. De onde viria esta idealização simplista de um passado onde a verdade do amor estaria mais preservada? Seria este o reflexo de uma sensação de estado fluido que escapa entre as mãos debaixo do ecrã cristalino e aquoso que trazem sempre com eles?

Questões e mais questões… A última sessão parecia não querer terminar… Quando chegou a hora de acabar, “os difíceis” sugeriram que ficássemos “o tempo que fosse preciso”. Acabámos por nos estender por mais uma hora do previsto. No final da sessão pedi-lhes cartas escritas à mão. E pedi-lhes que, como um brinde, me escrevessem a sugestão de um tema musical que para eles representasse o amor.

Só quando regressei a casa, li as respostas. No breve intervalo de tempo entre o encontro e a minha leitura privada das cartas, conseguia ainda ligar com um fio invisível os rostos de cada um aos nomes e assinaturas no papel. Uma das cartas era de um rapaz que esteve o tempo todo perto de mim, e que me arrebatou com o olhar franco, despojado, com que enfrentava as questões, com a delicadeza com que manobrava as palavras, e atendia às diferenças entre opiniões de colegas. A minha curiosidade palpitava feliz.

Liguei os phones para escutar a melodia que propusera. Lá estava o videoclip no YouTube, um grupo de rappers: Força Suprema, rimava num rap suave e agradável com piano de fundo para começar… “Há relações que duram para sempre… mentiu quem disse que não” e assim continuava, eles na praia, elas sorridentes a dançar com eles… e perto do refrão:

“Eu sei que tu és mulher à altura
Não reclama, tu escolheste mulher, atura!
Eu mando em ti e tu mandas na house
Não te estiques, baby!”

O rap segue, mas coloquei no pause. Retrocedi dez segundos. Fiquei entalada neste verso: “Eu mando em ti e tu mandas na house. Eu mando em ti e tu mandas na house. Eu mando em ti e tu mandas na house…”

Ficou ali a repetir. Aos solavancos. Como no tempo do meu avô. Puxa… a vida!


A autora escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990

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