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Alguns movimentos ou projetos começam com coisas pequenas, quase banais, enquanto nos acostumamos com a sutileza das transformações. Por exemplo, as palavras que nos são dadas a ouvir e conduzem nossa assimilação de conceitos, ideias e, por fim, a compreensão do mundo. Nas últimas décadas, acostumamo-nos a ler a palavra economia agrupada em múltiplos contextos. Economia da atenção, economia verde, economia circular, economia digital, economia solidária, economia da cultura, economia do conhecimento, economia dos afetos, economia do cuidado, economia da felicidade. Surgem novas variações a cada dia, e a lista acaba por se revelar interminável.
O sentido nessas combinações é agregar valor pelo termo associado. Não qualquer valor. Serve para demonstrar como comportamentos e escolhas podem contribuir para o desenvolvimento social. Obviamente, a ideia de sociedade é específica: o ambiente comum disponível ao crescimento contínuo ditado pelo neoliberalismo, em que apenas o seguir adiante ininterrupto é justificável e importa.
O problema nesse raciocínio é o crescimento só ser viável pela acumulação. Pois somente com mais recursos e poder em mãos, o indivíduo pode desenvolver meios de se relacionar e participar de forma responsável com a comunidade. Bom, poucos argumentos conseguem ser menos coerentes do que esse. Mas, ao ser repetido à exaustão, consolidou a economia “qualquer coisa” como inquestionável.
Quando olhamos com cuidado, vemos esse recurso retórico, essa valoração de tudo, não ser o início. Trata-se de uma estratégia reativa ao modo como o vocábulo economia foi associado no início do século passado, a partir de sentidos nada positivos. Economia da guerra, economia do medo, economia da vigilância, economia da exclusão, entre outros. Desde então, tornou-se polissêmico aos dois propósitos e, por conseguinte, aberto às disputas semânticas.
Diferente do valor neoliberal desenvolvimentista, em que o sujeito tem maior ou menor importância pela sua capacidade de contribuir com e mobilizar a economia, o uso negativo busca refletir a condição humana em que, submetido a certas atitudes e emoções, o sujeito passa a fortalecer e servir ainda mais aos sistemas de opressão e exploração.
Por isso, quando à economia se cola um adjetivo, precisamos, antes, de duas perguntas: quem os aproxima e o que busca ao aproximar? Afinal, nada é isento de interesse político, moral e, sobretudo, monetário. O capitalismo, em sua forma canibal, sempre lutará pelo lucro, até mesmo nas suas menores derrotas.
Outra palavra que me inquieta quando usada associada dessa maneira é teatro: o teatro político, o teatro de operações, o teatro da guerra, o teatro midiático. Já escrevi, em alguma crônica por aqui, sobre como, ao ser usada de forma negativa, gera consequências no convívio com a linguagem da arte. O que interessa, agora, não é voltarmos a essa reflexão, mas expandi-la.
Entre economia e teatro habita uma diferença de propósitos. Quando se fala em teatro de algo, agrega-se à informação uma perspectiva de espetacularização, de inverdade, de falsa verossimilhança, de como a narrativa e a informação são manipuladas, de como os acontecimentos nada mais são que exercícios de estetização dos interesses escusos.
Por exemplo: o que se diz com a expressão teatro da guerra? A forma como a guerra é conduzida e concretizada possuir uma estrutura narrativa e operacional que não é exatamente a percebida. Ou seja, na guerra, nem tudo é o que parece ser. Quando se diz economia da guerra, direciona-se o argumento às consequências diretas na economia, e em como atua sobre os preços e produtos. Fala-se, também, sobre o imenso capital movimentado pelas múltiplas indústrias que a sustentam. Ou seja, o quanto de riqueza e desenvolvimento, portanto valor, a guerra é capaz de provocar para alguns setores e países.
Novo vocábulo
O mesmo uso se aplica ao vocábulo arquitetura. Arquitetura social, arquitetura política, arquitetura da escolha, arquitetura do medo, arquitetura simbólica, arquitetura da desinformação. Basta folhearmos os jornais ou rolarmos as páginas que logo essas e outras combinações surgem. Nesse caso, a ligação de um adjetivo à arquitetura propõe revelar o sentido de elaboração, esquematização, construção. Assim, a arquitetura da guerra conduz para a percepção de como o conflito é organizado e sistematizado, de forma a estruturar sua eficácia.
E por que escrevo sobre isso agora? Por ver surgir, gradativamente, na imprensa internacional e nas falas de comentaristas, um novo vocábulo em disputa semântica: ecologia. Ecologia da atenção, ecologia do mercado, ecologia dos saberes, ecologia das redes, ecologia do medo, ecologia da linguagem, ecologia do crime, ecologia da guerra… E é esse o ponto mais preocupante a ser percebido.
Quando substituído o valor da economia, a manipulação do teatro ou organização da arquitetura pela ecologia, retiram-se os sujeitos que operam as decisões. O leitor deverá assimilar que, por ser uma ecologia, trata-se de algo horizontal, sem hierarquias, de o contexto ser o único responsável pelas consequências.
Portanto, se é algo inerente ao fluxo da realidade como a temos, não há responsáveis a serem questionados ou culpabilizados. As coisas passam a ser apenas como são, quase que por inércia, em uma cadeia de encontros e desencontros naturais e inevitáveis. A ecologia, esse contexto diverso e plural, nada mais é do que cada um de nós quer ser.
Trump e o Irã
Donald Trump resolve atacar o Irã, não por ser um imperialista, o faz por representar os interesses dos estadunidenses. Se estes precisam que outro país seja destruído, não é por interesses econômicos, mas pela antecipação do dia em que serão confrontados. Se o país quer controlar o petróleo para frear os poderios concorrentes, não é pela riqueza e dominação do mercado, mas pela necessidade vital que o consumo generalizado criou nas sociedades civilizadas.
E de quem é a culpa dessa necessidade, afinal? Do carro na garagem, do plástico na garrafa, do gás no aquecedor, de como os alimentos chegam a nós. Então, de todos, minha e sua. De uma ecologia extremamente mais complexa do que as banais disputas entre ditadores.
Quando o uso de ecologia passa a compor as falas e escritos com novas expressões, há um projeto de des-subjetivação nossa e de des-sujeitificação e de desistorização das decisões. Some o alguém, o responsável, os porquês, para esconder o interesse por trás de um jogo semântico nada casual. Ou, como chamei essa construção, antes, do oportunismo léxico. As coisas são como são? Talvez, no macrocosmo, possa parecer, inevitavelmente, que sim. Contudo, o mundo não é como é; ele está como está.
A atualização dos vocábulos, das palavras, de como formular sensações e ideias falseia a aparente universalidade da informação manipulada. Enquanto personalidades, jornalistas e mídias se rendem, pouco a pouco, a uma inocente mera troca de palavras, achando-se, talvez, modernos, cabe ao leitor ou ouvinte estar atento, e não deixar que sua subjetividade seja tão facilmente impregnada e conduzida pela normalização da repetição dessas expressões. Não, ao menos, sem uma reflexão crítica. Sempre há alguém por trás de tudo, não podemos nos esquecer disso.
As palavras servem a jogos de poder e de distorções calculadas, assumindo contextos diferentes a partir de quem as utiliza e como são entregues. Por isso, algumas precisam sobreviver por insistência. Então, desde logo, nesse final de mês e início do próximo, acreditemos no que de verdadeiro as palavras ainda podem nos dizer: fascismo nunca mais, 25 de Abril sempre!
Sugestões de leituras:
> Captura: Como a Elite Sequestrou as Políticas de Identidade, de Olúfẹ́mi Táíwò. Zahar, 2025.
> The Politics of Fear: The Shameless Normalization of Far-Right Discourse, de Ruth Wodak. SAGE Publications Ltd, 2020.
> A Billion Black Anthropocenes or None, de Kathryn Yussof. Univ of Minessota Press, 2018.
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