Quando, em 2025, a Compassio decidiu dedicar um dia completo a quem está a lidar com as dores da perda, não hesitou em dar-lhe um nome que habitualmente se associa a momentos de festa e descontracção. À imagem de iniciativas congéneres noutros países europeus, chamou-lhe Festival do Luto e Mariana Abranches Pinto, presidente da associação com sede no Porto, entende que não podia ter outra designação. “É uma ousadia juntar estas duas palavras. É também uma provocação, mas uma provocação necessária, porque há um grande tabu e uma grande iliteracia à volta do luto”, diz ao PÚBLICO.
Este ano, a 16 de Maio, um sábado, o Festival do Luto regressa ao Porto, numa versão revista e aumentada que passará por cinco locais da cidade – a Praça do Marquês, a Escola Superior de Educação de Paula Frassinetti, a Fundação Marques da Silva, o Centro de Cultura Politécnico do Porto e a Paróquia da Senhora da Conceição –, onde se falará “abertamente sobre a perda, sem tabus, sem frases feitas e sem pressa para seguir em frente”, adianta um comunicado da organização.
Entre workshops, conversas, testemunhos, actividades de expressão artística, pontos de escuta, apresentação de livros ou momentos de autocuidado, o Festival do Luto tem entrada livre e foi estruturado para um público abrangente, “não apenas para quem atravessa um processo de luto, mas também para quem quer aprender a estar presente nos momentos de dor dos outros, a saber o que dizer, como agir e de que forma acompanhar quem sofre com mais proximidade e empatia”, refere a Compassio.
“O luto não deve ser vivido em solidão. No ano passado fomos surpreendidos pela adesão e o envolvimento espontâneo das pessoas. Ficaram muito espantadas por haver um Festival do Luto e criou-se um ambiente muito especial. A dada altura, começaram a falar-nos na edição de 2026, quando nós próprios ainda não tínhamos a certeza se haveria outra edição. Mas tinha de haver, o luto faz parte da nossa vida, temos de falar sobre ele de forma descontraída”, sublinha Mariana Abranches Pinto. Em 2025, passaram pelo festival 850 pessoas, este ano a Compassio espera que os participantes dupliquem. “Queremos chegar a mais pessoas e continuar a construir uma cultura em que cuidar de quem sofre é uma responsabilidade de todos.”
O programa é muito vasto – pode ser consultado nas redes sociais da Compassio –, mas Mariana Abranches Pinto permite-se destacar duas actividades: os pontos de escuta – pessoas com formação específica que estão disponíveis para ouvir “quem queira partilhar o que vive e o que sente” – e a oficina de perguntas vitais sobre assuntos fatais, destinada a famílias. E não estranhe se vir um corvo amarelo a distribuir abraços: a ave que normalmente se associa à morte é a mascote do festival, assumindo aqui “a cor da empatia”. Estão já confirmadas as presenças de vários psicólogos, terapeutas do luto, escritores, artistas e muitos voluntários, que vão orientar e dinamizar as dezenas de actividades que vão decorrer entre as 10h30 e as 20h30.
A Compassio é uma organização sem fins lucrativos “que se dedica a construir comunidades mais compassivas em torno de momentos desafiantes da vida – como a doença, o envelhecimento, a solidão, a morte e o luto” – e trabalha em várias frentes, como o apoio à população sénior ou a pessoas em situação de isolamento. “As pessoas estão cada vez mais sozinhas. Isto chama-se abandono e eu não quero viver numa sociedade assim. Convém falarmos destas coisas abertamente e que nos tornemos, de facto, uma sociedade mais compassiva”, defende Mariana Abranches Pinto.
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