A leitura (de novo) e a importância de não deixar ninguém para trás

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Caro leitor, cara leitora, 

“Se quiser saber como será o futuro de um país, não comece pelas suas universidades. Comece pelos seus jardins-de-infância, creches e infantários.” A frase não é minha; é de Andreas Schleicher, director do departamento de Educação e Competências da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), na introdução de um novo relatório que analisa o desenvolvimento das crianças na primeira infância.

Portugal não participou neste estudo, mas ficámos esta semana a conhecer os resultados de uma investigação que mostra como as desigualdades entre alunos começam a formar-se cedo, ainda antes da entrada no 1.º ano, e como a escola continua a ter dificuldades em compensá-las.

O estudo foi apresentado esta semana, na Fundação de Serralves, no âmbito da conferência “Preparar o Futuro”, do Edulog, o think-tank para a Educação da Fundação Belmiro de Azevedo. Tem por base uma amostra representativa de mais de seis mil crianças, que frequentavam o último ano do pré-escolar e os 1.º e 2.º anos. A investigação acompanhou-as ao longo do ano lectivo 2024/25, com avaliações em diferentes momentos, analisando competências e a sua evolução no reconhecimento de letras, na consciência fonémica, na leitura, escrita e ortografia. 

Os resultados mostram progressos ao longo do tempo, mas revelam também dificuldades significativas na aprendizagem da leitura logo nos primeiros anos de escolaridade: no final do 1.º ano, metade das crianças lê menos de 37 palavras por minuto e um quarto não ultrapassa as 21 palavras. Apesar de os investigadores não fixarem um valor de referência, sublinham que estes resultados ficam abaixo do esperado para esta etapa. A ideia é que continuem a acompanhar estes alunos nos próximos anos e que avaliem a sua evolução. 

Para que serve, afinal, contar quantas palavras os alunos conseguem ler por minuto? Pode parecer uma obsessão estatística, mas medir a fluência leitora é uma forma de perceber se as crianças estão realmente a compreender o que lêem. A velocidade da leitura influencia directamente a compreensão do texto. 

“Quando a criança lê muito devagarinho, significa que está a fazer um grande esforço para conseguir identificar a palavra e chega ao final da frase ou do parágrafo e já não se consegue lembrar do que leu, porque a atenção dela está concentrada no mecanismo de descodificar, de tentar identificar que palavra é”, explicou Isabel Leite, uma das autoras deste estudo, numa entrevista ao PÚBLICO há uns meses, depois de serem conhecidos os resultados do diagnóstico da fluência leitora que foi feito com alunos do 2.º ano. E que revelaram também dificuldades: 25% dos alunos ficaram-se, no máximo, pelas 51 palavras num minuto, o que os deixa em risco de dificuldades futuras de compreensão leitora” .

Voltando ao estudo agora apresentado, a evolução é mais rápida durante o 1.º ano, quando começam a aprender a ler e a escrever, mas abranda no 2.º, mantendo-se diferenças significativas entre alunos. No final do 2.º ano, embora a mediana de leitura atinja as 82 palavras por minuto, 25% dos alunos permanecem abaixo das 69 palavras por minuto. 

Também na escrita se observam disparidades relevantes: no final do 1.º ano, um quarto dos alunos não consegue escrever correctamente mais de 12 das 37 palavras ditadas, ao passo que outro quarto ultrapassa as 27 palavras correctas.

Um dos factores mais determinantes é o contexto familiar, em particular o nível de escolaridade dos pais. Crianças com pais com ensino superior apresentam vantagens claras em várias competências, sobretudo na leitura: no final do 1.º ano, os alunos com pelo menos um dos pais com ensino superior apresentam, em média, uma vantagem de cerca de 14 palavras por minuto na leitura face aos colegas cujos pais não têm um curso superior.

Quando se comparam os resultados dos alunos de escolas públicas e privadas que têm pais com a mesma formação académica, as diferenças entre escolas praticamente desaparecem, o que sugere que o contexto familiar pesa mais do que o tipo de escola. 

Em reacção a estes resultados, o ministro da Educação, Fernando Alexandre, admitiu que algumas das conclusões são preocupantes, mas considerou que os resultados globais são positivos. E que há medidas em curso para as resolver

Perante este cenário, os investigadores defendem uma intervenção precoce e estruturada, com foco na relação entre letras e sons, prática diária da leitura e da escrita e avaliação contínua, logo nos primeiros anos de formação. O envolvimento das famílias e o estímulo à leitura em casa é também considerado fundamental. 

A leitura continua a ser a porta de entrada para todas as outras aprendizagens — e quem fica para trás logo no início terá mais dificuldades em recuperar. É por isso que estes resultados não podem ser lidos apenas como um retrato das dificuldades de algumas crianças. São também um sinal sobre a capacidade de a escola garantir igualdade de oportunidades desde o início do percurso escolar.

Outros temas da semana: 

Até quinta-feira!

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