Jovens cariocas transformam desafio pessoal em inovação e trazem projeto a Portugal

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“Um ano atrás, a minha avó, com um problema cardíaco, não tinha forças para se deitar. Ela se sentava na cama e eu segurava as costas dela para ajudá-la a se deitar e levantar. Todos os dias era assim”, relata o estudante João Marcelo Moura, cuja experiência pessoal foi a semente de um projeto que agora vai representar o Brasil em Portugal, entre os dias 28 e 30 de maio, durante a Mostra Nacional de Ciência, no Museu do Carro Elétrico, na cidade do Porto, patrocinada pela Fundação da Juventude com apoio da Câmara Municipal do Porto.

João tem 18 anos e, junto com o colega Cauã da Cal, também de 18, transformou a dificuldade cotidiana em inovação tecnológica. Eles desenvolveram, a partir de uma reunião em um grupo de estudos, um protótipo de maca hospitalar mecânica acionada por comando de voz, com o objetivo de ampliar a autonomia de pacientes e reduzir a dependência de cuidadores em ambientes hospitalares. Ambos concluíram o curso técnico de eletrônica na Escola Técnica Estadual Henrique Lage (ETEHL), unidade da Fundação de Apoio à Escola Técnica (Faetec), localizada no bairro Barreto, em Niterói, fazem estágio e planejam cursar engenharia eletrônica no ensino superior.

A ideia começou a ganhar forma quando João Marcelo ingressou, junto com Cauã, em um programa de incentivo a jovens talentos. Ele, naquele momento, estudava tecnologias de comando de voz e já cogitava criar um mecanismo automatizado que pudesse levantar e abaixar uma estrutura com o acionamento de botões. A lembrança das dificuldades enfrentadas pela avó, no entanto, os levaram, a buscar uma solução mais acessível e intuitiva. Assim surgiu o conceito de uma maca hospitalar controlada por voz.

“Um dos meus maiores sonhos era poder apresentar um projeto para o máximo de pessoas possível e estou conseguindo fazer com que isso aconteça. A sensação é muito gratificante. Agradeço muito a influência dentro de casa: meu pai e toda a minha família sempre me apoiaram muito”, afirma João Marcelo.

Os inventores João Marcelo Moura e Cauã da Cal com o orientador do projeto, Altair Martins
Divulgação

Já Cauã da Cal conta que a motivação surgiu de forma natural, quando juntaram o caso particular de João com os estudos que realizavam. “Mostramos a ideia para o nosso orientador e, a partir daí, seguimos com o projeto. Depois disso, fizemos nossa primeira visita técnica, que foi ao Hospital Universitário Antônio Pedro, em Niterói, no Rio, para ver o funcionamento de uma maca, os comandos e tudo”, relata.

Autonomia dos pacientes

Durante a visita, os estudantes identificaram um dos principais entraves ao uso das macas hospitalares tradicionais: a complexidade dos comandos. Segundo Cauã, alguns equipamentos possuem até 11 botões, o que dificulta a operação por pacientes debilitados. “Enquanto está debilitada, essa pessoa não vai aprender o comando de 11 botões diferentes. A pessoa fica com autonomia reduzida e com a autoestima em baixa”, destaca.

A partir dessa constatação, os alunos aprofundaram a pesquisa teórica e de mercado. A surpresa veio ao perceberem, segundo Cauã, a ausência de soluções semelhantes disponíveis comercialmente. Estudos científicos consultados por eles reforçaram a importância da autonomia na recuperação de pacientes, apontando que o aumento da autoestima pode impactar diretamente na melhora clínica.

Com base nessas referências, João e Cauã iniciaram a fase prática do projeto, selecionando componentes eletrônicos e desenvolvendo o protótipo com o uso de plataformas e módulos de reconhecimento de voz, inclusive com possibilidade de integração com assistentes virtuais. Chegaram então a um equipamento que permite ajustar a inclinação e a altura da maca por comandos simples, como levantar ou abaixar partes específicas do corpo, garantindo maior segurança e acessibilidade. Essa tecnologia permite ajustar inclinação e altura por voz, o que facilita seu uso por tetraplégicos e idosos.

Além da inovação tecnológica

O orientador do projeto, Altair Martins, destaca que a proposta vai além da inovação tecnológica. “Sabemos que as macas automatizadas que existem no mercado são caras e necessitam que o paciente opere. Quem não consegue se mexer, por exemplo, precisa de uma outra pessoa que acione os comandos. Caso haja um acompanhante, ótimo, mas se esse acompanhante está realizando uma outra tarefa, o comando de voz é o ideal para garantir o bem-estar desse paciente. Ele fala a parte do corpo que deseja elevar ou abaixar e aciona o comando da maca, por exemplo: cabeça — levantar”, explica.

Altair, que tem curso técnico em eletrônica e também é graduado em história, ressalta o impacto educacional da iniciativa. “Isso é bom para o aluno, para a Fundação e para a escola pública em geral, por mostrar que a gente realmente consegue fazer ciência de qualidade desde o ensino médio”, enfatiza. Segundo ele, a participação em eventos internacionais contribui para ampliar horizontes e estimular outros estudantes. “Eles ficam empolgados quando veem os colegas que comem o bandejão com eles, andam nos mesmos corredores, fazendo um projeto que vai ser exposto na Europa. É um efeito-avalanche”, ressalta.

Para o presidente da Faetec, Alexandre Valle, o trabalho dos alunos representa o potencial transformador da educação pública
Divulgação

Profissionais da área participaram do processo de pesquisa que gerou o protótipo. As informações fornecidas por outro professor, da Escola Técnica de Saúde, foram fundamentais, ainda segundo Altair. “Fizemos uma visita técnica guiada por um outro docente da rede, Victor Hugo, da escola de saúde, que nos levou até o Hospital Antônio Pedro, em Niterói, a fim de verificar o funcionamento das macas elétricas. A partir de então, os estudantes desenvolveram a maquete do artefato, que levou um ano entre planejamento, desenvolvimento, execução e testes, para alcançar os resultados desejados”, diz o professor.

A iniciativa foi apresentada na Rio Innovation Week e também premiada em feiras científicas, como a Mostratech, no Rio Grande do Sul, considerada uma das maiores da América Latina. A primeira colocação obtida, no Sul do Brasil, diz Altair, proporcionou a viagem para Portugal. Para o presidente da Faetec, Alexandre Valle, o trabalho dos alunos representa o potencial transformador da educação pública.

“Aqui no Rio chamamos a Faetec de fábrica de sonhos, porque temos projetos maravilhosos feitos pelos nossos alunos”, diz ele. Valle acrescenta que, quando a história nasce de um problema vivido pelo aluno, dentro da própria família, sendo que ele leva o assunto para dentro da escola e transforma isso em um projeto, e que já ganhou vários prêmios no Brasil, isso é motivo de orgulho.

“Não é só um projeto de tecnologia, é um projeto de vida”, afirma. Valle destaca ainda que a instituição apoia dezenas de iniciativas semelhantes e vê na participação internacional uma oportunidade de projeção para os estudantes. “Cabe a nós dar todo o apoio que eles precisarem”, acrescenta.

Reconhecimento e impacto social

Mais do que reconhecimento acadêmico, João Marcelo e Cauã da Cal reforçam que o principal objetivo é gerar impacto social. “Eu e o João já conversamos muito sobre isso e o nosso maior objetivo é realmente ajudar pessoas. A partir do momento que a gente conseguir implementar esse projeto e uma pessoa chegar para nós e falar: ‘eu me recuperei mais rápido por causa do projeto de vocês’, isso já vai ser nossa sensação de dever cumprido”, afirma Cauã.

Na expectativa pela viagem, ele reforça o propósito da iniciativa. “A gente está a caminho de Portugal para mostrar nosso trabalho e nossa ânsia de ajudar pessoas. Que nosso projeto seja implementado, que a gente consiga espalhar cada vez mais essa ideia e que a gente consiga um financiamento para colocar isso em prática. A gente quer muito que o projeto vá para a frente para que ajude o maior número de pessoas”, complementa Cauã.

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