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Cariocas radicados em Portugal há sete anos, Glauber Lopes e Roberta Leôncio transformaram a experiência da imigração em um projeto multicultural em Braga, no Norte do país, cidade conhecida carinhosamente como Brasil, dado o grande número de brasileiros que residem no local.
Ele, tatuador desde os tempos em que vivia no Rio de Janeiro, e ela, esteticista no Brasil e, atualmente, barbeira em Portugal, decidiram empreender após enfrentar obstáculos no mercado de trabalho. O casal criou o Sr. Lopes Tattoo Barber, espaço que reúne estúdio de tatuagem, barbearia, bar e espaço para manifestações artísticas, tornando-se referência entre portugueses e imigrantes que buscam integração e oportunidades na cidade.
O casal chegou a Portugal em 2019 e se estabeleceu em Braga, com uma breve passagem pela cidade de Barcelos, durante o período da pandemia de Covid-19. Segundo Glauber, a atuação profissional permitiu, após quase dez anos, que ambos conhecessem de perto os hábitos e a rotina dos portugueses, facilitando uma adaptação gradual à nova realidade.
De acordo com o empresário, o espaço acabou se tornando também um ponto de identificação para muitos brasileiros e outros imigrantes recém-chegados ao país. A trajetória do casal, marcada por dificuldades e superação, desperta identificação em outras pessoas que procuram recomeçar a vida em Portugal.
“Em geral, nossa clientela sempre foi mista, com muitas nacionalidades. A maioria dos clientes é formada por brasileiros e portugueses, mas atendemos muitas pessoas de outros países europeus, já que estamos localizados em uma das principais cidades turísticas de Portugal e oferecemos serviços e produtos de consumo bastante desejados por todo mundo”, diz Glauber.
Primeiras curiosidades
Entre as lembranças curiosas do período de adaptação, duas situações permanecem marcantes para o casal. A primeira foi descobrir que, em muitas casas portuguesas, o interruptor do banheiro fica do lado de fora do cômodo. Até se acostumarem ao detalhe, episódios de brincadeiras involuntárias ao apagar a luz enquanto alguém ainda estava no banheiro renderam risadas. A segunda surpresa surgiu nos convites para irem à praia.
“E depois descobrir que no norte de Portugal as praias, na realidade, são faixas de areia às margens dos rios, ‘praia fluvial’. Para quem vem de uma cidade litorânea no Brasil, isso causa certa confusão”, comenta o empreendedor, entre risadas.
Hoje, o Sr. Lopes conta com dois colaboradores portugueses fixos. Glauber afirma, no entanto, que as mudanças recentes nas leis de imigração dificultaram a contratação de brasileiros. “Isso é algo que nos entristece muito, tendo em vista nosso conceito voltado a dar oportunidade a imigrantes que chegam e não conseguem um emprego tão rápido quanto desejavam. Ao chegar, passamos por isso: promessas vazias e dificuldade em conseguir um espaço no mercado de trabalho por sermos imigrantes. Daí nossa vontade em ter um espaço que não dependa de contratação, e sim do seu próprio esforço e vontade de trabalhar”, detalha Glauber.
Ambiente aberto
A proposta do Sr. Lopes Tattoo Barber & Lounge surgiu justamente a partir dessa experiência. O espaço foi concebido como um ambiente aberto a parcerias, baseado no aluguel para profissionais independentes das áreas de tatuagem, barbearia, arte e cultura. A ideia, segundo o empresário, é fomentar uma rede de relacionamentos que permita o crescimento profissional e a criação de novas oportunidades.
Glauber diz que pretendem criar novas unidades do Sr. Lopes, em parceria com outros empresários que se identifiquem com esse conceito e queiram investir em talentos, além de ampliar a loja em Braga, futuramente.
“O projeto cultural, parte importante do conceito, é incluir a cultura local no contexto social através de apresentações curtas em período laboral. Durante a semana, em qualquer momento o cliente que vier utilizar um dos nossos serviços, seja ele tatuagem, barbearia, bar, ou mesmo visitar nossa galeria de arte, poderá se surpreender com uma apresentação musical ou exposição artística que esteja naquele momento acontecendo”.
Embora o projeto exista há cinco anos, a inauguração oficial ocorreu apenas há dois. “O período de construção foi marcado por muito esforço”, diz ainda Glauber. Ele conta que o casal alugou uma loja que estava abandonada há duas décadas e que em seguida, literalmente, botaram “a mão na massa”: durante quatro meses reformaram o espaço enquanto aprendiam coisas novas a cada dia, de acordo com a necessidade.
“Era uma loja que sequer tinha fiação elétrica e onde conseguimos criar algo lindo, que floresce de acordo com o esforço que empreendemos juntos, para construir cada pedacinho que nos orgulha tanto. Agarramos nosso sonho e acreditamos que era possível”, diz o empreendedor carioca, com emoção na voz.
Atividades culturais
O resultado foi a transformação da loja em um ambiente de 150 metros quadrados voltado não apenas aos serviços de tatuagem e barbearia, mas também à realização de atividades culturais abertas ao público. Atualmente, o Sr. Lopes recebe apresentações musicais nos finais de semana, sempre com entrada gratuita. Artistas locais e independentes utilizam o ambiente como vitrine para divulgar seus trabalhos e ampliar o contato com o público.
“O projeto cultural do Sr. Lopes Tattoo Barber & Lounge vem sendo construído através de artistas que acreditaram na ideia desde o começo e ajudaram a transformar o espaço em algo vivo. A cantora Mafalda Martins, por exemplo, foi a primeira artista a se apresentar oficialmente no espaço, marcando o início da nossa programação cultural”.
Arquivo Pessoal
Segundo Glauber, Mafalda também foi responsável pela realização da primeira Noite de Fado promovida lá, iniciativa que consolidou a vertente cultural do empreendimento. Recentemente, a cantora Camila Lima também participou da programação, reforçando a proposta de valorização de novos talentos.
Na cena musical alternativa, o espaço ainda mantém parceria com o coletivo Massive, ligado à cultura Drum and Bass, ampliando a diversidade artística do projeto e atraindo públicos distintos. Para Glauber, a proposta vai além do comércio: trata-se de criar um ambiente de convivência, integração cultural e incentivo a artistas e trabalhadores independentes que buscam oportunidades em Portugal.
Arquivo Pessoal
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