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A história das migrações entre Brasil e Portugal tem um capítulo surpreendente. Na segunda metade do século XIX, o fluxo de migrantes era muito maior no sentido oposto ao que testemunhamos hoje. Centenas de milhares de portugueses sonharam e buscaram uma vida melhor no Brasil.
Tanto em documentos históricos, quanto na literatura portuguesa daquele século, um personagem mereceu destaque. Os chamados brasileiros de torna-viagem, ou simplesmente brasileiros, eram portugueses humildes que deixavam o país, construíam fortuna no Brasil e voltavam para a terra natal, onde realizavam benfeitorias em troca de prestígio social.
O Norte de Portugal, de onde saiu a grande onda migratória desse período, está cheio de escolas e igrejas erguidas pelos tais brasileiros, e de praças e ruas que prestam homenagem aos seus nomes. As obras contribuíam para melhorar a qualidade de vida em pequenas cidades, onde havia muita pobreza e baixos índices de alfabetização.
Paradoxalmente, porém, na mesma medida em que eram apreciados, os brasileiros também eram malditos. Eram apreciados pela população que ajudavam, e malditos pela elite tradicional, que desconfiava da lisura dos novos ricos e desprezava os seus modos abrasileirados.
Essa elite, em decadência financeira após a guerra civil dos anos 1830, torcia o nariz para os casamentos que se via forçada a incentivar entre as suas filhas e os brasileiros. O pacto vinha bem a calhar para os regressados: eles entravam com a grana, e as noivas com o status social.
Para quem quiser conhecer melhor esses brasileiros malditos e apreciados, e achar monótona a missão de explorar arquivos históricos, basta ler meia dúzia de obras literárias.
As caricaturas mais mordazes são de Camilo Castelo Branco, em romances como Os Brilhantes do Brasileiro (1869) e A Brasileira de Prazins (1882). Convém lembrar que o autor foi amante de Ana Plácido, casada com um brasileiro, num célebre caso de adultério que levou o escritor à prisão.
Embora o fato explique, em parte, o horror de Castelo Branco aos brasileiros, retratos pejorativos do personagem também são encontrados em obras de outros romancistas, como Júlio Dinis, e mencionados criticamente em textos de Eça de Queiroz.
O que me interessou nessa história é a coincidência de que, no século XXI, um paradoxo similar parece marcar a relação ambivalente que se mantém em Portugal com esse significante brasileiro, agora associado a um novo significado.
O brasileiro não é mais o de torna-viagem, o português emigrante. É o imigrante do Brasil, feito da mesma carne humana que atravessa o Atlântico, sonhando e buscando uma vida melhor.
Não financia diretamente a construção de escolas e igrejas, mas colabora fortemente com a Segurança Social, que garante serviços públicos fundamentais para toda a sociedade portuguesa.
Aqui e ali, há quem aprecie o valor dessa contribuição. Mas também há quem reduza o brasileiro a nada mais do que uma caricatura maldita.
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