A visão finlandesa para a escola de 2045

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Numa visão projetada para 2045, a escola do ensino básico (organizada em dois ciclos: do 1.º ao 6.º ano e do 7.º ao 9.º) é a instituição mais importante para o futuro da Finlândia, preparando os jovens para as mudanças em curso e dotando-os da capacidade de transformar o mundo e moldar a sociedade. Para esse efeito, é concebida como escola para a vida, inserida numa forte comunidade educativa que repensa as novas competências humanas e a profunda alteração provocada pela Inteligência Artificial (IA).

É neste enquadramento que se inscreve o relatório Educação Básica 2045: Para a Vida — Uma visão para a escola compreensiva finlandesa, publicado em 2026, que apresenta uma visão construída a partir da participação de mais de 5000 crianças, jovens e adultos de todo o país, sob a coordenação de um grupo de trabalho nomeado pelo ministério, em articulação com a Agência Nacional Finlandesa para a Educação.

Como ideia matriz, o relatório sustenta que as crises contemporâneas não podem ser resolvidas apenas pela inovação tecnológica, exigindo, de igual modo, um sólido desenvolvimento humano. É, por isso, crucial encontrar caminhos para atenuar a polarização social, fortalecer a democracia, fazer um uso sensato das tecnologias e viver dentro dos limites planetários, num cenário de transformações globais aceleradas.

Mais do que olhar para o que é preciso mudar, opta-se, de forma clara, por preservar as forças que têm sustentado as competências e o bem-estar social, dado que a Finlândia é reconhecida internacionalmente pela qualidade do seu sistema educativo e por figurar entre os países mais felizes do mundo. Salvaguardam-se, assim, a equidade, o desenvolvimento estável e cientificamente fundamentado da educação e a forte confiança depositada nas escolas e nos seus professores.

E de que modo a escola será afetada pelas transformações em curso, sobretudo pela alteração da própria educação, no pressuposto de que os alunos, cidadãos do futuro, terão um papel central na construção de uma sociedade democrática, no fomento da inovação e na promoção de um modo de vida ecologicamente sustentável?

Relativamente a esta questão, e conquanto a finalidade da educação não seja a de prever o futuro, mas a de funcionar como uma bússola que oriente numa direção clara e equilibrada, o relatório afasta-se de alterações radicais e fragmentadas, insistindo na necessidade de manter o que funciona bem no sistema educativo e, simultaneamente, de identificar as forças motrizes que configuram as mudanças ao nível das escolas e da sociedade.

Numa breve síntese, são identificadas várias forças globais que exigem uma redefinição deliberada da finalidade da educação e do papel da escola: o avanço acelerado da tecnologia e a transformação do trabalho, com destaque para o impacto disruptivo da IA; a crise da sustentabilidade ecológica e económica, resultante das alterações climáticas, da perda de biodiversidade e da pressão sobre os recursos; a crise da democracia e da participação, com a perda de confiança nas instituições, a desinformação e o avanço de movimentos autoritários; a crise do bem-estar e da saúde mental, em especial entre crianças e jovens, associada à solidão e ao enfraquecimento das comunidades; a polarização social e a erosão da coesão e da confiança, face às desigualdades regionais e à segregação social; a fragmentação dos valores e da orientação para o futuro; a segurança, a transformação da globalização e a incerteza geopolítica; o declínio dos resultados de aprendizagem e a crescente desigualdade educativa; a estrutura demográfica e os desafios associados ao envelhecimento e à diminuição da população ativa; e a importância crescente da mudança imprevisível.

É deste cenário que, com toda a probabilidade, emerge a escola do amanhã como uma instituição central, com o objetivo de promover uma formação ampla, uma vida que tenha sentido, a autonomia, o bem comum e a esperança, focada ainda em três dimensões fundamentais.

A primeira é a vida com sentido: uma perspetiva da aprendizagem que serve o propósito do desenvolvimento humano integral e em que o bem-estar surge em relação recíproca com a aprendizagem, sendo ora condição para aprender, ora consequência do próprio aprender.

A segunda é a vida em comum: promover a participação, a inclusão, a diferença e a convivência democrática. Nesta nova cultura escolar, os professores e os demais intervenientes são particularmente valorizados, tal como a relação pedagógica entre professor e aluno, que constitui o núcleo do processo educativo. Reforça-se, de igual modo, a colaboração com as famílias, indispensável numa sociedade cada vez mais diversificada, bem como o conceito-chave de ecossistema de aprendizagem, o qual engloba uma rede de atores e repensa as escolas como pontos de encontro abertos à comunidade, prolongando atividades, hábitos e oportunidades de participação das crianças e dos jovens para além do tempo letivo.

Por último, a dimensão da vida no planeta, que integra a sustentabilidade ecológica como fundamento ético transversal, projetado nos conteúdos curriculares e nas práticas pedagógicas quotidianas. Mais do que ensinar conteúdos ambientais, propõe-se desenvolver o pensamento sistémico, a capacidade de agir coletivamente e uma relação afetiva e experiencial com a natureza.

Por isso, a escola não tem por missão resolver as crises provocadas pela mudança, nem assumir uma atitude passiva, cabendo-lhe antecipar as competências, os conhecimentos e as visões do mundo que a mudança exige aos alunos, fortalecendo a confiança social e os saberes fundamentais. O relatório elaborado pretende inspirar a sociedade finlandesa a apoiar as escolas na construção de um futuro positivo, interpelando-a a refletir sobre que competências e que futuro deseja ver edificados pela escola do amanhã, tendo em conta a coesão social, a sustentabilidade ecológica, a democracia, o pensamento crítico e uma formação baseada em sólidas competências humanas de pensamento, no contexto dos desafios da IA.

Significa isto que a IA obriga a redefinir o que os seres humanos precisam de saber e de saber fazer, num momento em que as máquinas dominam já capacidades antes consideradas exclusivamente humanas, suscitando a interrogação sobre o objetivo da competência humana e o papel do próprio ser humano. Nesta perspetiva, o avanço tecnológico e a entrada de novos atores globais, com interesses distintos na educação, favorecem uma aprendizagem cada vez mais individualizada, descontextualizada e orientada por tutores de IA, à margem dos sistemas educativos nacionais, como se fosse imperioso adotar um currículo universal. Perante a possibilidade de uma escola radicalmente diferente da atual, impõe-se a pergunta essencial: que escola queremos verdadeiramente?

Neste ponto, e no que respeita à sua função metacognitiva, pessoal e social, competirá à escola dotar cada aluno de pontos de partida e de instrumentos para construir respostas às questões sobre quem somos e sobre como devemos agir, enquanto seres humanos, ao longo da vida. A transformação mais profunda da escola compreensiva projetada no relatório consiste em prolongar o percurso de aprendizagem para além dos conhecimentos e das competências individuais.

Significativamente original é o modo como o relatório aborda a IA, colocando o crescimento humano no centro e tratando a tecnologia como complemento ou apoio. A premissa é clara: “não é o ser humano que acrescenta valor à tecnologia, mas a tecnologia que pode acrescentar valor ao ser humano.” Embora seja uma ferramenta poderosa, a IA deve aprofundar, e jamais substituir, a interação humana, apoiar a diferenciação pedagógica e melhorar o uso de dados em benefício da aprendizagem. Por isso, a formação prévia em competências básicas é apresentada como condição para um uso crítico e ético da IA, porquanto quem não domine a leitura, a escrita ou o raciocínio matemático dificilmente poderá avaliar o que a tecnologia produz. Daí a centralidade do pensamento, da ética, da literacia, da informação e do critério para discernir o que, sendo tecnologicamente possível, não deve ser feito.

A visão proposta associa, com efeito, transformação a continuidade, identificando, entre os elementos a conservar: a escola pública, comum e gratuita para todos, enquanto motor de equidade; o financiamento público; a autonomia e a alta qualificação dos professores; a autonomia pedagógica no âmbito do currículo; a base científica da formação docente e do projeto escolar; a relação pedagógica como núcleo da aprendizagem; a rede de escolas de proximidade; e os serviços que asseguram a igualdade de oportunidades (refeições escolares gratuitas, ação social escolar, apoio à saúde e cuidados afins).

Decorre ainda desta cultura escolar associada à educação básica uma visão do percurso de aprendizagem como caminho, numa aceção lata de currículo, que incorpora a legitimação de um conhecimento geral sólido, de competências de pensamento (das mais básicas às metacognitivas), de competências socioemocionais e éticas, de competências de ação para o bem comum e de competências transformadoras, assim como a autoeficácia e a motivação para a aprendizagem ao longo da vida. Deste modo, a equidade não representa qualquer renúncia à exigência da aprendizagem, antes garante que cada aluno recebe os meios necessários para alcançar as metas formativas.

Perguntando-se, pois, de que modo a escola finlandesa poderá ser diferente e melhor no futuro, a resposta é clara: a partir do currículo nacional de base, que define o objetivo da educação escolar integral, a escola forma os alunos no sentido da humanidade, da responsabilidade ética e da cidadania ativa, proporcionando-lhes as competências e os conhecimentos necessários para a vida.

Em suma, estamos perante uma visão que traduz o desafio, não de uma simples adaptação da escola à mudança, mas do reconhecimento de que ela própria é motor de mudança, e cuja tessitura conceptual define a escola como lugar onde se aprende a viver através de uma formação humana ampla, do reforço da comunidade, da centralidade do bem-estar, da integração da sustentabilidade e da esperança.

Além disso, as ideias expressas neste pertinente relatório finlandês constituem um exercício coletivo de imaginação institucional, que assume os desafios contemporâneos, recusando respostas técnicas e fortalecendo a escola enquanto espaço comum onde se constrói uma resposta humana e ética às incertezas do nosso tempo. Como nele se afirma, “a aprendizagem é a oportunidade que a espécie humana tem de evoluir”.


O autor escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990

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