Uma questão de expectativas: ausência de mulheres e minorias passa despercebida tanto no trabalho como na escola

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Se estivéssemos numa reunião de trabalho só com homens, será que daríamos conta de que não há nenhuma mulher presente na sala? Ou, numa conferência, será que daríamos conta de que não há nenhuma minoria étnica representada nos oradores? Um estudo publicado esta segunda-feira na revista científica PNAS mostra que a resposta mais provável é “não”: a maior parte das centenas de participantes neste estudo não reparava quando certas minorias estavam ausentes de cenários específicos, como universidades, jardins-de-infância ou conferências académicas. E, segundo os investigadores, esta “cegueira” acontece mesmo em pessoas que querem promover a diversidade.

Os inquiridos tinham mais propensão a notar a presença de uma mulher ou pessoa de um grupo étnico do que quando estavam completamente ausentes do cenário. Além disso, os participantes do estudo notavam logo a ausência de grupos maioritários. Um exemplo: os participantes tinham mais probabilidade de reparar na ausência de mulheres educadoras de infância – que correspondem à maioria – do que na ausência de homens educadores de infância, que são uma minoria na profissão.

“Os nossos processos cognitivos são em grande parte moldados pelo que está presente no nosso ambiente, enquanto as ausências são muitas vezes ignoradas”, lê-se no estudo feito por investigadores da Universidade de Nova Iorque (NYU), da Universidade Reichman e da Universidade Hebraica de Jerusalém (ambas em Israel).

Como estas ausências não eram notadas por pessoas que pertenciam à minoria em questão e independentemente das suas posições políticas, os investigadores acreditam que não se trata de estigma, mas sim de uma “expectativa partilhada” sobre quem esperam encontrar num determinado contexto social.

“Estes resultados mostram que a falta de representação pode ser difícil de perceber — independentemente de quem sejamos”, afirmou Rasha Kardosh, investigadora e principal autora do estudo, citada em comunicado. “As pessoas tendem a reparar em quem se destaca, mas não naqueles que estão completamente ausentes, e estes ângulos mortos acontecem em cenários do dia-a-dia.”

Esta falha na percepção “pode mascarar a desigualdade e fazer com que os nossos ambientes pareçam mais diversificados do que realmente são”, considera a investigadora do Departamento de Psicologia da NYU. Incentivar as pessoas a perguntarem “Quem está a faltar?” pode fazer toda a diferença, defende Rasha Kardosh.

A ausência é mais difícil de notar do que a realidade que está diante dos nossos olhos. “Uma pessoa pode participar numa conferência, ler um artigo ou circular pelo local de trabalho sem se aperceber de que um grupo inteiro está ausente”, refere também o professor Ran Hassin, outro dos autores do estudo.

Como foi feito o estudo?

Numa das experiências feitas pelos investigadores, os participantes liam um artigo assinado por neurocirurgiões (uma área da Medicina em que há menos mulheres do que homens): num deles, todos os autores eram homens; no outro, cinco eram homens e uma era mulher. Quando questionados sobre a autoria do artigo e sobre as citações de especialistas ao longo do texto, a maioria não se apercebeu quando nenhuma mulher era citada, mas tinham mais probabilidade de se recordar quando uma mulher era incluída nos autores. No artigo sem mulheres, 81% dos inquiridos disse não ter reparado na ausência de mulheres especialistas.

Noutra experiência, os inquiridos viam imagens com caras da população norte-americana. Só que uma das imagens não mostrava pessoas brancas e a outra não mostrava pessoas negras. “Os participantes tinham 14 vezes mais probabilidade de repararem quando as caras brancas estavam ausentes do que quando as caras negras estavam ausentes”, refere o comunicado do estudo. Quando não havia pessoas negras, só 42% dos participantes reparavam, segundo o artigo científico. Quando não havia pessoas brancas, 87% dos inquiridos notavam a sua ausência.

Além destas experiências, os investigadores fizeram ainda três inquéritos numa conferência em Nova Iorque e a estudantes da Universidade Hebraica de Jerusalém para perceber se os inquiridos reconheciam a ausência de certos grupos minoritários em contextos profissionais e educativos. Dos inquiridos, 86% disseram que não tinham assistido a nenhuma conferência com um orador negro durante uma série de palestras, mas 52,9% só se aperceberam disso quando questionados pelos investigadores. Ao mesmo tempo, 90% dos inquiridos na Universidade Hebraica disseram não ter notado a ausência de colegas palestinianos até serem questionados sobre isso.

Os cientistas notam que este viés “pode constituir um obstáculo significativo à promoção de ambientes sociais inclusivos”. “Este tipo de cegueira pode persistir durante anos, mesmo em pessoas que são defensoras inequívocas da diversidade”, lê-se no estudo. Assim que a ausência é notada, muitos inquiridos reconhecem a importância da presença destas minorias e a necessidade de dar resposta a esta invisibilidade.

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