O cancro do pulmão permanece uma das principais causas de morte por cancro em Portugal, em grande parte devido ao diagnóstico tardio. Em primeiro lugar, mais de 80% dos casos estão associados diretamente ao tabaco/fumo do cigarro o que nos dá uma ferramenta de prevenção bastante simples: evitar o hábito de fumar e também os efeitos do fumo passivo. Nos riscos do uso do tabaco, além do cancro do pulmão e outros tumores, temos que incluir as doenças cardiovasculares, as doenças respiratórias, e outros impactos como um envelhecimento acelerado em cerca de dez anos.
Estima‑se que mais de 75% dos casos sejam identificados em fases avançadas, quando as opções terapêuticas são limitadas e a sobrevivência reduzida. É neste contexto que o rastreio do cancro do pulmão, surge como uma ferramenta decisiva. A premissa do rastreio é simples: detetar a doença em indivíduos assintomáticos, mas de alto risco (geralmente fumadores ou ex-fumadores), através de Tomografia Computadorizada de Baixa Dose (TCBD). A evidência científica, consolidada por estudos internacionais como o NELSON e o NLST, demonstra de forma inequívoca que o rastreio sistemático pode reduzir a mortalidade por cancro do pulmão em cerca de 20%.
Um dos pilares que sustenta a implementação do rastreio é a análise de custo-efetividade. Embora o investimento inicial em tecnologia e recursos humanos seja significativo, os custos associados ao tratamento de cancros em estádios IV — que envolvem imunoterapia e cuidados paliativos prolongados — são exponencialmente superiores. Estudos europeus indicam que o rácio de custo-efetividade do rastreio do pulmão é comparável, ou até superior, ao dos rastreios do cancro da mama ou colorretal, já plenamente estabelecidos.
Em Portugal, um estudo recentemente publicado avaliou, pela primeira vez, a custo‑efetividade da implementação de um programa nacional de rastreio do cancro do pulmão. Os resultados são claros: o rastreio anual com TCBD em indivíduos de alto risco permitiria evitar milhares de mortes prematuras, gerando ganhos relevantes em anos de vida ajustados à qualidade (QALY). O custo incremental foi estimado sendo o valor claramente abaixo do limiar de custo‑efetividade geralmente aceite no nosso país, definido em função do PIB per capita nacional. Estes dados confirmam que o rastreio não é apenas clinicamente eficaz, mas também economicamente sustentável.
No âmbito do Plano Europeu de Luta Contra o Cancro, a operacionalização de um programa estruturado continua dependente de decisões organizacionais, financiamento e articulação entre cuidados de saúde primários e hospitalares. Os desafios são múltiplos: garantir uma adequada identificação e adesão da população elegível, assegurar capacidade técnica para a realização e leitura de exames, minimizar resultados falso‑positivos e integrar o rastreio com estratégias de cessação tabágica. A experiência demonstra que programas bem desenhados são exequíveis e geram benefícios substanciais em saúde pública. A experiência também demonstra que o recurso a entidades independentes e credíveis pode ser um sucesso como acontece no rastreio do cancro da mama com a Liga Portuguesa Contra o Cancro.
Perante uma doença letal, mas potencialmente detetável numa fase curável, adiar a implementação do rastreio do cancro do pulmão é, cada vez mais, uma decisão difícil de justificar. Por outro lado, o rastreio deverá estar enquadrado numa estratégia global de prevenção que inclui a cessação tabágica e a educação para a saúde em particular dos mais novos.
A ciência fez a sua parte; cabe agora aos decisores transformar evidência em ação ou seja investir para salvar vidas.
O autor escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990
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