O Coração Ainda Bate. O quarto dos filhos

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Revi ontem um filme chamado “Postcards from the Edge”, realizado por Mike Nichols. As estrelas do filme são duas mulheres: Shirley MacLaine e Meryl Streep, mãe e filha no filme, ambas produtos de Hollywood, com tudo o que isso pode implicar: saudosismo, frustração e rancor, álcool e outras drogas. É muito engraçado quando a mãe sistematicamente acusa a filha de estar presa às drogas, enquanto faz batidos de fruta matinais, carregados de vodka. Assumir o vício do álcool, quando ele está permanentemente a rodar entre nós, não é fácil.

O filme é um bom retrato da indústria cinematográfica norte-americana, a partir de um argumento autobiográfico de Carrie Fisher. Hollywood assemelha-se às redes sociais: tudo que vemos e que nos parece perfeito tem uma dose muito duvidosa de sacrifício. Os que se atrevem a denunciar abusos e penalizações em tempo real são normalmente castigados no presente. Às vezes, é preciso morrer ou desaparecer do activo para que se conheça a verdadeira vida destas estrelas endeusadas pelo nosso desconhecimento. Mas isto não é a parte importante do filme que, em português, se chama “Recordações de Hollywood”. O que me interessou verdadeiramente nesta história é a relação asfixiante entre mãe e filha. Entre uma mulher mais velha, Shirley MacLaine (Doris), que viu os seus tempos gloriosos de estrela ficarem para trás, e a sua filha, Meryl Streep (Suzanne), uma actriz com algum potencial, que dribla os seus problemas emocionais no plateau.

As drogas mantêm-na funcional. O álcool, para a sua mãe, em casa, é o tradicional refúgio do vazio. Nenhuma das duas é feliz. E a infelicidade é coisa que se perpetua. A infelicidade prospera entre gerações e é um cocktail fácil que junta frustração, desilusão, desamor e sobretudo muitas acusações. Analisando o filme, que podia muito bem ser o retrato de muitas famílias, mesmo sem Hollywood no meio, o que retive é a facilidade com que as acusações se tornam no combustível de eleição de muitas dinâmicas familiares.

É mais fácil acusar do que tentar fazer diferente. E assim se adiam sonhos e planos, com a desculpa de que alguém antes de nós falhou e, portanto, agora somos o resultado do que ficou por conseguir.

Ninguém nasceu ensinado para ser pai ou filho. Todos nós vamos tentando, com dias melhores e outros mais tristes, a possibilidade do amor e ele também nos escapa muitas vezes das mãos, sem percebermos porquê. Muitas vezes, na incompreensão do que vivemos, arranjamos na acusação a forma de nos explicarmos aos outros. Só que as acusações raramente nos levam a um lado melhor. São pouco férteis. Tolhem em vez de nos engrandecer.

A família tanto pode revelar-se um grande estorvo como pode ser o lugar de onde nos erguemos e aonde voltamos para ficar em lugar seguro. Muitos de nós ainda têm o seu quarto de solteiro em casa dos pais. É uma forma de nos dizerem: se tudo falhar, ainda estamos aqui.

A vida de Doris e Suzanne assemelha-se ao quotidiano de muita gente. Pais inaptos para resolver a sua frustração, empurrando-a, sem perceberem, para os filhos. Filhos que crescem equivocados com a comunicação feita de cobrança e culpa.

A família é o lugar mais complexo de todos e, no entanto, até quando se revela um território adverso, é ali que queremos voltar. A pátria. Os pais. E o país. Temos dores diversas que coabitam entre nós e eles, mas não conseguimos explicar estes laços. O filme vai acabar por nos mostrar isso também: sobra o amor quando parecia só haver amargura.

Vêm aí dias de descanso e de fuga ao quotidiano repetitivo. Aproveitem e vejam o filme. Em 1990, quando foi realizado, Meryl Streep já tinha feito África Minha, O Caçador ou Kramer contra Kramer. Não há outra actriz como ela.

O coração ainda bate.

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