A nossa geração pode travar o pacote laboral

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O Governo tem um conjunto de alterações à lei laboral que vai ao Parlamento em breve. É uma pasta densa, cheia de linguagem técnica e é fácil perder o fio à meada. Mas algumas das medidas afectam directamente coisas muito concretas: quanto custa despedir-nos, quanto podemos trabalhar sem receber horas extras, e com que tipo de contrato a empresa pode contratar alguém para fazer o nosso trabalho.

Uma das alterações tem a ver com os custos de despedimento. Actualmente, despedir um trabalhador implica encargos para a empresa, e esses encargos funcionam, na prática, como um desincentivo. A proposta reduz esses custos. O efeito não é só financeiro. Afinal, quando sair é mais barato, o equilíbrio numa negociação salarial muda. Temos menos argumentos, mesmo que não estejamos a negociar nada formalmente. Aceitamos mais facilmente horários, funções ou salários que de outra forma questionaríamos, porque a sensação de substituibilidade é maior. Não é uma mudança que se sente de um dia para o outro, mas é o tipo de coisa que vai alterando o que achamos normal pedir ou esperar de um emprego.

Outra medida facilita o chamado banco de horas. É o sistema em que trabalhamos mais em determinados períodos e recuperamos esse tempo em folgas, sem recebermos hora extra. Existia antes, mas havia fricção: a empresa precisava de negociar com os trabalhadores para o implementar. O que a proposta muda é que esse acordo deixa de ser obrigatório. As empresas passam a poder aplicar o mecanismo de forma unilateral, dentro de certos limites. Para quem já tem a sensação de trabalhar mais do que aquilo pelo qual é pago, esta alteração não resolve nada. Torna apenas mais difícil contestar essa situação.

Há ainda alterações que tornam mais simples subcontratar funções que hoje são desempenhadas por pessoas com contrato directo. Na prática, o mesmo trabalho pode passar a ser feito por alguém numa empresa mais pequena, sem as mesmas protecções legais e com menos capacidade de negociar colectivamente. Quem está em tecnologia, comunicação ou serviços já conhece bem esta lógica. A proposta dá-lhe mais margem legal, o que significa menos ambiguidade para as empresas e menos espaço para questionar o modelo.

O que une estas medidas não é uma conspiração nem uma agenda particularmente oculta. É uma direcção. E a direcção é a de tornar o mercado de trabalho mais flexível para quem contrata, o que tende a significar menos estável para quem é contratado. O argumento do Governo é que isso gera mais emprego. O contra-argumento é que gera emprego em piores condições e que essa troca já está a ser feita há anos sem que as condições tenham melhorado para a maior parte das pessoas. Para uma geração que conheceu de perto os contratos a prazo, os recibos verdes e os estágios não remunerados, a pergunta que fica é: flexível em relação a quê, exactamente, e para quem?

A greve de 3 de Junho foi convocada pelos sindicatos, mas participar não exige nenhuma filiação. É um direito individual, está na Constituição, e represálias por exercê-lo são ilegais. Há quem ache que greves já não funcionam, que o mundo mudou e que estas formas de pressão perderam eficácia. É um argumento legítimo. Mas uma greve continua a fazer uma coisa que outras formas de protesto não fazem da mesma maneira: torna visível, de forma agregada e num único dia, quantas pessoas consideram que determinada situação passou de um problema a resolver para uma linha que não deve ser cruzada. Não é uma garantia de resultado. É uma forma de medir e de mostrar o nosso descontentamento.

Se o pacote avançar tal como está, algumas coisas que hoje são práticas contestáveis passam a ser simplesmente a norma. E há uma diferença real entre uma situação que pode ser impugnada e uma que deixou de o poder ser porque passou a estar enquadrada na lei. É essa a diferença que está em jogo nas próximas semanas e está nas nossas mãos fazer valer os nossos direitos.

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