Giulia nasceu em 2000, 58 anos depois de o avô de Pedro Silva Reis, Manuel da Silva Reis, ter feito o Porto Vintage de 1962 que a jovem brasileira acabou de provar numa prova dirigida pelo Master of Wine Dirceu Vianna Junior, no Vinhos de Portugal no Brasil. Este ano, já na sua 13.ª edição, o evento arrancou em São Paulo (de 28 a 30 de Maio), e chega na sexta-feira, dia 5 de Junho, ao Jockey Club do Rio de Janeiro, onde fica até domingo, dia 7.
A prova de Dirceu Vianna Junior — que se repete no Rio, com pequenas mudanças nos vinhos escolhidos — chama-se Grandes Safras da História do Mundial de Futebol e apresenta vinhos de anos que coincidem com edições passadas do Mundial, que este ano está prestes a começar, deixando já os brasileiros naquele clima de entusiasmo que a Copa sempre provoca.
“Fiz esta prova há quatro anos e foi um sucesso”, recorda Dirceu. “As pessoas gostam muito. É uma maneira de celebrar o futebol e conectá-lo com bons vinhos e de safras muito velhas.” Os dois vinhos mais antigos na prova de São Paulo, o Vintage de 1962 da Real Companhia Velha e o Kopke Colheita de 1974, “são mais velhos do que a maioria das pessoas na sala”.
E se havia na prova conhecedores de vinho e entusiastas de Copas do Mundo (um em particular sabia tudo sobre todos os anos de Mundial e deu uma ajuda a Dirceu para recordar momentos marcantes), havia também jovens como Giulia e a amiga que a acompanhava, Mariana, de 29 anos, que são quase estreantes nestas coisas do vinho. Os namorados de ambas estão ligados ao projecto de lançamento de um vinho do jogador brasileiro Neymar e, por causa disso, elas têm vindo a provar cada vez mais.
Cortesia O Globo
Mas confessam ter sido a primeira vez que provaram vinho do Porto e quando a Fugas pergunta quais foram os vinhos preferidos nesta prova, não hesitam: foram mesmo os dois fortificados apresentados no final. “É uma explosão de sabores”, comenta Giulia. “Gostei quando o Dirceu disse para colocarmos só duas gotas na boca e deixar explodir. Achei que lembra várias coisas, tem amêndoas, mas também frutas cítricas. [O Vinho do Porto] é muito diferente.”
No ano de 1962, o Brasil venceu o Mundial. Mas a história não é tão simples. Dirceu recorda que Pelé, na altura o grande jogador do país, “não pôde jogar porque estava machucado”. A grande esperança dos brasileiros era, portanto, Garrincha, “só que ele teve um cartão vermelho e foi expulso do jogo na semi-final”. Na final, em que o Brasil ia enfrentar a Checoslováquia, sem Garrincha as coisas podiam tornar-se mais complicadas.
Por isso – e numa altura em que, diz o Master of Wine, “as regras não eram tão estritas como hoje” – uma série de movimentações de bastidores foram postas em marcha para que o juiz que deveria justificar ao Comité as razões para o cartão vermelho de Garrincha recebesse um inesperado convite, com um bilhete de avião para Paris. O resultado foi que “não teve tempo de escrever” o relatório pedido. Conclusão: Garrincha foi autorizado a jogar e o Brasil venceu. Um detalhe que não é irrelevante é o facto de a Checoslováquia fazer parte do bloco comunista e muita gente querer evitar que o vencedor do Mundial fosse um país “vermelho”.
Cortesia O Globo
Esta história foi um excelente pretexto para abrir o Vintage da Real Companhia Velha, apesar de, como explicou o produtor Pedro Silva Reis, 1962 não ser habitualmente considerado um ano excepcional, ao contrário de 1963. “Quem conhece bem os Vintage percebe que este tem pouca cor, pouca estrutura, taninos suaves.” Mas há outra explicação para isso. “O meu avô fez este vinho com base nas vinhas velhas da Quinta das Carvalhas, situadas em quotas baixas mas viradas a Norte, uvas com mais frescura, acidez e menos concentração de cor do que nas vinhas viradas a Sul. A Norte temos menos 1,5 horas de sol por dia do que a Sul. Ao fim de uma semana são 10,5 horas, isso preserva muito a frescura.”
Provas em casal
As histórias do futebol e do vinho vão voltar (dia 7 às 14h30) ao palco agora que o Vinhos de Portugal no Brasil — evento organizado pelos jornais PÚBLICO de Portugal, O Globo e Valor Económico do Brasil, em parceria com a ViniPortugal e curadoria da Out of Paper — chega ao Rio de Janeiro.
Ricardo Valarini/Cortesia O Globo
Outro momento aguardado com expectativa é o da prova (Adega do Casal, a arte de escolher vinhos a dois, dia 5 às 17h30 e já esgotada) em que os críticos e divulgadores Jorge Lucki e Bianca Veratti vão partilhar alguns dos vinhos especiais de entre os quase dois mil rótulos da sua adega. “A ideia é a gente mostrar a diversidade que compõe a nossa adega, onde os vinhos portugueses têm vindo a crescer muito”, explica Bianca. “É mostrar como é que a gente escolhe, se tem discussão…”, complementa Jorge, com uma gargalhada.
“Temos muito essa ligação com o que vamos comer junto com aquele vinho”, prossegue Bianca. “Gostamos muito de cozinhar, por vezes decidimos a comida em função daquilo que queremos beber. Vamos abrir um certo vinho e decidimos o que vamos preparar. Outras vezes é ao contrário.” Alguns dos vinhos que vão apresentar na prova – entre os quais o mítico Barca Velha – foram escolhidos para esta conversa “por razões emocionais”. “O nosso começo foi com o Barca Velha”, confidenciam.
O Tapada do Chaves Branco está presente na selecção porque o casal tem uma relação de amizade, que se foi consolidando ao longo dos anos, com Pedro Baptista, o enólogo da Adega da Cartuxa. Já o Quinta do Cardo, da Beira Interior, “foi uma descoberta recente”, que apaixonou Jorge e Bianca. E, no final, haverá um Porto, num momento que “será uma surpresa”.
Em São Paulo, Jorge Lucki e Bianca Veratti dirigiram uma prova com outro casal, Jorge Serôdio e Sandra Tavares da Wine & Soul, que falaram sobre outro tipo de cumplicidade: a arte de criar vinhos a dois. A disponibilidade dos dois produtores para partilharem o seu amor pelos vinhos e pelo trabalho que fazem em conjunto tornou esta prova um dos momentos mais emotivos do evento em São Paulo – de tal forma que no final Jorge Lucki não conteve a emoção, e chegou mesmo a contagiar quem estava a assistir.
Paulo Guimaraes / Pinguim Pictures/Cortesia O Globo
A prova de Dirceu sobre as safras da Copa e as de Jorge e Bianca serão duas entre as muitas que vão decorrer ao longo dos três dias, sempre dirigidas por críticos portugueses (Manuel Carvalho, e a jornalista de gastronomia Alexandra Prado Coelho, ambos do PÚBLICO) e brasileiros (Cecília Aldaz, sommelière do restaurante Oro, no Rio, com duas estrelas Michelin, Jorge Lucki, Dirceu Vianna Junior e Thomas Sampaio, conhecido como O Jovem do Vinho).
A par delas, e do Salão de Degustação, onde estão presentes 80 produtores, há uma programação aberta na Área de Convivência, no já habitual espaço Tomar um Copo (conversas descontraídas com dois vinhos à prova) e naquele que é a grande novidade deste ano, o Portugal à Prova, espaço do Turismo de Portugal com uma programação muito variada, que traz grandes figuras da cultura brasileira, como a escritora Rosiska Darcy de Oliveira, o poeta Eucanãa Ferraz e o arquitecto Guilherme Wisnik, além de música com uma roda de fado e choro dos Água de Moringa, e uma mini edição do festival português de comida de fogo Chefs on Fire, com os chefs Nelson Soares (Sult, Rio e Cascais), Ana Moura (Lamelas), Gil Fernandes (Fortaleza do Guincho) e André Cruz (Feitoria).
O Vinhos de Portugal tem a participação do Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto, o apoio do Turismo de Portugal, das Comissões dos Vinhos de Lisboa, Dão, Alentejo, Vinhos Verdes, das Agências Regionais de Promoção Turística Centro de Portugal, do Porto e Norte e do Alentejo — co-financiados pela União Europeia através do programa COMPETE 2030, Quinta do Paral e queijos Président. A companhia aérea oficial é a TAP Air Portugal.
Disclaimer : This story is auto aggregated by a computer programme and has not been created or edited by DOWNTHENEWS. Publisher: feeds.feedburner.com





