A cegueira do scroll

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Não existo nas redes sociais. Estive apenas por um instante quase ridículo, como quem se engana numa porta e sai logo a seguir, assustada com o que vê lá dentro. Já lá estive, sim, mas aquilo era um grito contínuo, uma espécie de feira permanente. Fugi daquela cacofonia sonora e visual, e jurei a mim mesma não voltar.

Nessa minha breve existência virtual — uma semana talvez, nem isso, com a conta activa — vi coisas que não sei bem onde colocar na cabeça. Mães a falar com filhos pequenos enquanto conduziam e filmavam ao mesmo tempo, e ainda a explicar, com uma ternura fingida para o ecrã, os perigos de falar com desconhecidos, como se o absurdo não estivesse já ali, ao volante. Pessoas a chorar, mas a chorar para dentro de um ecrã, a anunciar derrotas ou vitórias, a pedir licença a uma plateia invisível. Outras a ensinar como se maquilha, como se veste, como se existe. Outras a mostrar o que comem, com quem estão, com quem estiveram, quem morreu, entretanto — tudo misturado, tudo ao mesmo nível, como se nada tivesse hierarquia possível.

Depois havia as que vendem coisas, qualquer coisa, livros, meias, cuecas adelgaçantes, promessas em forma de objecto. Outras ainda a prometerem milagres: “Vinte quilos perdidos num segundo de scroll“, como se o corpo fosse um erro corrigível com o deslizar do dedo. Vale tudo, tudo, desde que prenda o olhar, desde que capture a atenção.

Fiquei tonta, agoniada, digo isto com toda a seriedade. Um scroll de segundos equivale a uma viagem circular de carrossel depois de um cozido à portuguesa, dá ideia de vermos o cérebro a atrasar em relação ao corpo. Aquilo não faz bem a ninguém, tenho a certeza, estamos todos mais embrutecidos desde que existem estas redes, e ao mesmo tempo com a ilusão de que sabemos mais, precisamente porque nos atiram uma quantidade obscena de informação à cara, uma espécie de avalanche boçal onde quase tudo é ruído, só ruído, ruído para os olhos, para os ouvidos, lixo para o pensamento.

E depois a questão, sempre a mesma, não podemos voltar atrás, mas talvez pudéssemos ir mais à frente de outra maneira, inventar qualquer coisa que substituísse este viver hipnótico. Sei lá, talvez deslizarmos nós próprios pela casa, de quarto para a sala, da sala para a cozinha, da cozinha para a casa de banho, e daí para a rua, quem sabe, um movimento com corpo, com peso, com mundo.

Porque estar assim, colados aos ecrãs, fechados nestes espaços, perturba-nos mais do que admitimos. Há uma transformação que não controlamos, invisível e contínua, mas que está a mexer connosco. Devíamos sair de casa e ir para a rua, de preferência sem levar a prótese dos aparelhos. É que “os demónios não gostam de ar fresco”, disse Ingmar Bergman e escreveu a poeta e dramaturga Maria Quintans, e acreditem que é verdade.

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