A língua afro-luso-brasileira-e-arredores

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Em português existe o termo despautério, vindo de despauterius, forma latinizada do antropónimo flamengo Van Pauteren, um gramático cuja obra (Comentarii gramatici) seria, segundo o Houaiss, “confusa e rica de dislates”. Escrevo com a noção de que é necessário fazê-lo, antes que o despautério – no caso, o semi-neologismo “Língua Geral” –, sugestivo e provocatório, mas pouco convincente, ganhe velocidade e proselitismo. Até porque a ideia, nascida do espírito picaresco de José Eduardo Agualusa, parece desprovida de argumentação pertinente.

Em princípio, o que o escritor angolano (e aqui seria necessário dar feição conceptual ao que é um escritor angolano ou português; vejam-se os casos tão distintos de Agualusa, Pepetela ou Luandino, pela origem, pelo lugar da fala, pela produção estética e ideológica, pela intencionalidade) parece querer fomentar é o debate estéril sobre nada, ganhando mais em frases de impacto (soundbites) e controvérsia do que em efeitos práticos. Eis porque me sinto metido na ratoeira.

Era o que faltava ter algo contra Agualusa, a quem só posso reconhecer o mérito de um conjunto de obras literárias de imenso valor. Há na sua fórmula, é óbvio, uma intenção ideológica, e demagógica, de rejeição da carga histórica de que está investida a designação Português, pois, para onde quer que a língua fuja (Brasil, Angola, Moçambique, etc.), leva sempre solo pátrio lusitano: dir-se-á português europeu, português brasileiro, português angolano, e por aí adiante (o que é análogo na designação vertente brasileira do português, por exemplo). Imagina-se, pois, a urticária que isto não causará a quem usa a língua portuguesa e vive a milhares de quilómetros de Portugal. Mas essa mesma urticária cerca alguns falantes portugueses, se confrontados com o adjectivo europeu, para quem o termo Português seria suficiente. Em resumo: a conversa da designação do idioma está inundada de preconceito e ressentimento.

Para começar, há que contrariar o ímpeto de Aline Hall de Beuvink, que escreveu no Diário de Notícias sobre este caso, referindo que o Português se formou apenas em Portugal: não, ele formou-se na região da Galécia, destacando-se por via da constituição do Condado Portucalense, e separou-se da sua matriz, o Galego, que é o mesmo que dizer que o Português não decorre directamente do Latim, mas do galaico-português, num processo lentíssimo.

A vertente brasileira do Português, por outro lado, sobretudo em termos fonéticos, e no caso das construções de conjugação perifrástica, corresponde parcialmente a uma fase do Português mais antiga (de que certas regiões portuguesas mais conservadoras, como o Alentejo, são modelo), o que quer dizer que em Portugal o idioma evoluiu em maior grau do que no Brasil, mas precisamente para a redução vocálica da língua, a sua extinção eufónica. O Português de Portugal tende a ser um idioma consonântico, fenómeno que poderá eventualmente vir a ser bloqueado por razões demográficas: Portugal tem acolhido vagas significativas de falantes vindos do Brasil, Angola, Cabo Verde. Contudo, Aline Hall de Beuvink, no seu artigo, é muito oportuna e perspicaz.

Entretanto, Elísio Macamo escreveu aqui no PÚBLICO um artigo a robustecer a chicana em ares de graçola de Agualusa. Acredito que José Eduardo Agualusa tenha querido agradar aos seus leitores (e não só) brasileiros, “os apóstolos da unidade da língua”, como lhes chamou Fernando Venâncio. Fica bem e mantém vendas. Fê-lo nesse tom conciliatório que reúne consensos fáceis: “Esta língua que todos os dias reinventamos, nós, angolanos, brasileiros, portugueses…” Pura mistificação – nós, angolanos, brasileiros… Convém não esquecer que Agualusa foi co-fundador da editora Língua Geral, no Brasil. Nada é inocente.

J.M. Coetzee e Mariana Dimópulos [1] debruçaram-se sobre o fenómeno dicotómico da esfera privada da língua menor, em muitos casos a materna, e a esfera pública da língua maior. Fizeram-no sem sombra de preconceito. Sabemos que há (houve) línguas imperiais (o Português, o Espanhol, o Inglês, outras) e que isso é dependente de qualquer processo histórico que implique dominação e subjugação culturais, além de nacionalismos e unidades identitárias. Também se percebe que haja indivíduos contrafeitos por representarem o mundo numa língua que, não sendo a materna, lhes seja estranha a um nível de profundidade afectiva. E também sabemos que as vertentes americana e africanas do Português estão aptas a criar modelos sintácticos e semânticos que em Portugal não existem, como provou Elísio Macamo – fazem-no, contudo, dentro dos limites das regras linguísticas que uma gramática de Português, por ser elástica, lhes consente. Mas isso não é motivo para aldrabar os factos e prosseguir para o despautério.

Língua Geral é uma fórmula que não quer dizer nada e pode ser aplicável a um continente, a vários ou a todo o planeta. Parece mesmo um conceito interplanetário. E é um conceito como o Esperanto, que macaqueia a história vivíssima dos idiomas e a memória. Mas se for essa a intenção…

[1] Speaking in tongues (O Dom das Línguas, D. Quixote)

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