E se um bar queer nos acolher a todos?

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Nos tempos conturbados que vivemos, talvez a esperança não se encontre na luz, mas em espaços complexos, caracterizados pela coexistência de contrários. A alvorada é um desses momentos: em lugar da linearidade dos opostos noite e dia, trata-se de um instante fugaz no qual o que resta da noite se funde com o início do dia, quando a madrugada se desfaz.

Pode causar alguma estranheza, a este propósito, escrever sobre uma exposição performativa que é assumidamente uma reflexão sobre as margens — e ver nela um significado que se expande para além do cultural. Mas Dawn, a mais recente exposição da dupla João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira, tem várias virtudes e apresenta um significado político, para muitos inesperado: mais vasto, sobre os nossos tempos, mas também sobre os desafios para a política cultural portuguesa, invariavelmente animada por micropolémicas, por definição improdutivas.

O título que dá mote ao percurso visitável na Galeria Cristina Guerra, em Lisboa, explora precisamente a dicotomia artificial entre noite e dia e tem uma primeira camada de leitura: um desafio provocador à heteronormatividade e um desejo de dar voz à realidade da vida queer. Numa marca distintiva do percurso artístico da dupla Vale + Ferreira, tudo sem filtros — tornando público o que é privado e, para muitos, incógnito. Por si só, esta capacidade de representação tem implicações e corresponde a um compromisso: torna visíveis realidades que encerram outras vidas, frequentemente censuradas por protocolos excludentes, promotores de uma ideia de pureza que é castradora.

Por se tratar de uma exposição performativa, deve ser visitada num dos momentos em que o conjunto de bares-esculturas que ocupam o espaço é ativado por bartenders que interpelam quem circula, interpretando textos profundos que merecem ser acompanhados com atenção. O significado discursivo é óbvio: os bares foram sempre para a comunidade queer lugares de encontro e espaços de segurança para a afirmação da alteridade. Lugares que correspondem, por definição, a redutos de integração e refúgio dos que estão fora do espectro do sexualmente aceite — mas também de ativismo e de exclusão da heteronormatividade, excecionalmente deixada à porta.

No discurso expositivo, estes lugares onde prazer e crítica são inseparáveis servem para esbater a distinção entre privado e público e têm como objetivo formar comunidade, interpelando quem vem de fora e, com isso, procurando integrar e desfazer a margem. A articulação entre a visceralidade dos discursos e a precariedade das situações corresponde, na verdade, a uma representação realista das vidas vividas, que recusa simplificações.

Contudo, o fundamental desta exposição não está nem na representação, nem no efeito de revelação. Está numa outra certeza: de cada vez que o mundo se fecha e se torna um lugar negro, estes lugares de liberdade revelar-se-ão essenciais. São eles que zelarão por nós, dando-nos uma possibilidade de acolhimento e de proteção de que todos podemos vir a necessitar.

Tudo isto revela coragem: a dos artistas que se expõem e a da galeria que assume o risco, com poucas expectativas realistas de retorno. É também por isso fundamental que os museus mostrem projetos desta natureza — como acontece com o novo museu do grupo DST, em Braga — e que as coleções institucionais incorporem peças com este significado. Como fez de forma oportuna a coleção do Estado ao adquirir este ano uma peça notável que era a chave de leitura da retrospetiva da dupla Vale + Ferreira, apresentada em Serralves no ano passado.

O autor é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990

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