Vento do buraco negro supermaciço da Via Láctea é finalmente descoberto

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Após cinco décadas de tentativas, os astrónomos descobriram finalmente o vento que emana do buraco negro supermaciço no centro da Via Láctea, embora se trate mais de uma brisa suave do que de um furacão.

Utilizando dados do telescópio ALMA, sediado no Chile, e do Observatório de Raios X Chandra, da NASA, os investigadores observaram a vizinhança cósmica em torno do buraco negro chamado Sagitário A* (ou Sgr A*).

Detectaram uma vasta cavidade cónica cheia de gás quente e electricamente carregado, adjacente ao Sagitário A*, que concluíram ter sido esculpida pelo vento soprado pelo buraco negro que varreu ou aqueceu o gás frio que tinha ocupado a região. A energia necessária para criar tal cavidade só poderia ser gerada por um buraco negro supermaciço.

Os buracos negros são objectos extraordinariamente densos, com uma gravidade tão forte que nem a luz consegue escapar. As galáxias têm tipicamente um buraco negro supermaciço no seu centro, que puxa o gás e outros materiais que se encontram à sua volta.

Há décadas, os cientistas postulavam que qualquer buraco negro supermaciço activo, devido à sua física, expeliria algum gás e outros materiais para o espaço – ​quer como um vento que se propaga para o exterior, quer como um jacto concentrado.

Posteriormente, identificaram esse comportamento em numerosos buracos negros supermaciços noutras galáxias, mas até agora não tinham conseguido demonstrar que o Sagitário A* também o fazia.

“Esta descoberta resolve um mistério com meio século, disse Lena Murchikova, professora de física e astronomia na Universidade Northwestern (no Illinois, Estados Unidos), e co-líder do estudo publicado esta semana na revista Astrophysical Journal Letters.

Sagitário A* possui cerca de quatro milhões de vezes a massa do nosso Sol e está localizado a cerca de 26.000 anos-luz da Terra. Um ano-luz é a distância que a luz percorre num ano (cerca de 9,5 biliões de quilómetros).

Não é um buraco negro tão maciço como alguns dos seus homólogos noutras galáxias e determinou-se que se encontra numa fase relativamente tranquila.

A ponta da cavidade em forma de cone surge da vizinhança imediata do Sagitário A* e expande-se para fora. Embora os investigadores não tenham a certeza da escala da cavidade, porque esta ultrapassa o campo de visão das suas observações, Lena Murchikova disse que poderia estender-se até cerca de 6,5 anos-luz de comprimento.

Buraco negro num estado dócil

Devido ao actual estado dócil do Sagitário A*, o vento que está a gerar não é tão intenso como o observado noutros buracos negros supermaciços.

Mark Gorski, astrónomo da Universidade Northwestern e co-líder do estudo, faz uma analogia entre os seus ventos e o clima da Terra. “É uma brisa suave que vem do nosso buraco negro supermaciço. Não parece ser suficientemente forte para reestruturar drasticamente o centro galáctico”, disse. “Os buracos negros supermaciços passam a maior parte do tempo neste estado calmo e suave. No entanto, por vezes sofrem explosões que vão desde as trovoadas até ao mais violento dos furacões. Os seus ventos ou jactos mais intensos podem perturbar completamente as suas galáxias hospedeiras e regiões muito para além delas”, acrescentou o astrónomo.

À medida que o gás e outros materiais entram em espiral em direcção a um buraco negro, atingem uma velocidade próxima da da luz, criando energia e pressão suficientes para lançar alguns desses materiais e gás para o exterior.

“Enquanto uma parte do gás continua a cair, outro gás é ejectado. De facto, mais gás é ejectado do que cai no buraco negro. Este gás ejectado é o vento de que estamos a falar”, explicou Lena Murchikova. “Quando olhamos para galáxias distantes e longínquas, é muito mais fácil ver fenómenos violentos. Vemos jactos enormes e poderosos a rasgar a galáxia e tudo o mais no seu caminho. Vemos ventos violentos a ejectar quase todo o gás das suas galáxias.”

A diferença entre um jacto e um vento é puramente geométrica. “Os jactos são estreitos e não se expandem muito à medida que deixam a sua fonte, produzindo frequentemente um feixe de matéria. Os ventos, no entanto, são mais largos e expandem-se à medida que deixam a sua fonte. É quase como a diferença entre um ponteiro laser e uma lanterna”, rematou Mark Gorski.

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