Crescer em Lisboa fez de mim uma estacionadora criativa. Porque Lisboa produz pessoas capazes de estacionar diagonalmente e em ângulos que desafiam a geometria euclidiana. Não sou boa a estacionar, nunca fui. Tenho dificuldade em perceber distâncias, ângulos e limites físicos. Estaciono sempre à base de fé, transpiração e alguma violência psicológica. Não sei decifrar as tabuletas, a leitura dos sinais de estacionamento é para mim uma forma avançada de hermenêutica urbana. Uma mistura de direito administrativo, simbologia medieval e adivinhação. Muito é o tempo que dedico à interpretação da sinalética. Passo minutos à frente de placas metálicas, inclinando ligeiramente a cabeça, como um arqueólogo perante inscrições sumérias: “Excepto cargas e descargas entre as 8h e as 11h, residentes com dístico tipo B, veículos eléctricos em rotação máxima de 20 minutos, excepto sábados após feriados municipais.”
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