Os artigos da equipa do PÚBLICO Brasil são escritos na variante da língua portuguesa usada no Brasil.
Acesso gratuito: descarregue a aplicação PÚBLICO Brasil em Android ou iOS.
Para uma geração de brasileiros, a paixão pelos motores não nasceu nos estádios, mas nas manhãs de domingo, diante da televisão, no tempo em que Ayrton Senna transformava cada Grande Prêmio em acontecimento nacional. Neste fim de semana, enquanto a Seleção comandada por Carlo Ancelotti estreava na Copa do Mundo contra o Marrocos, essa outra paixão — o automobilismo — ganhou as ruas do Norte de Portugal e também atraiu brasileiros que procuravam viver o melhor dos dois mundos ou ter mais uma opção de programação em família.
Em Portugal, os brasileiros são a maior comunidade estrangeira — cerca de 500 mil no fim de 2024, quase um terço de todos os imigrantes, segundo a Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA). A maioria vive na região de Lisboa, mas o Norte é um dos polos onde essa presença mais se faz sentir: a área metropolitana do Porto está entre as sub-regiões com maior prevalência de brasileiros no país, de acordo com a Pordata. Penafiel, no distrito do Porto, fica a cerca de 40 minutos de carro da cidade.
O Penafiel Racing Fest, que teve sua primeira edição em 2017, chega à 8.ª edição como o maior festival de esporte a motor do país, reunindo mais de 500 pilotos de diferentes nacionalidades em ralis, drag racing, trial 4×4 e motos clássicas — e cerca de 150 mil pessoas.
Entre as seis modalidades, o Drag Racing foi um dos que mais chamou a atenção. Na Variante do Cavalum, os carros disputavam a aceleração em duelos diretos, dois a dois, numa reta de pura potência. No melhor estilo de Velozes e Furiosos, o espetáculo ganhava ainda mais dramatismo com jatos de fogo irrompendo no meio da pista, completando o show visual para o público.
Promessa brasileira
A presença internacional, tendo oito nacionalidades já sido representadas entre os competidores, ainda não inclui o Brasil. No entanto, essa ausência está com os dias contados. O piloto baiano Adroaldo Weisheimer — bicampeão brasileiro de rali cross-country, campeão do Rally dos Sertões e presença habitual em provas portuguesas, como o Rally Raid Portugal — anunciou a intenção de disputar a edição de 2027 e de trazer consigo um grupo de pilotos brasileiros. O plano foi divulgado por meio de sua agência parceira, iMF Press Global.
Na edição atual, a presença do Brasil na competição limitou-se ao público presente. Não era difícil encontrar pelas ruas pessoas vestidas com camisas da Seleção Brasileira de futebol e ouvir sotaques de diversas regiões do país.
Mais do que alta velocidade, ronco dos motores e adrenalina, o evento revela outro lado: a força econômica do Vale do Sousa, no Tâmega e Sousa, que o próprio evento ajuda a dinamizar. “O impacto é gigante. A cidade transforma-se num circuito urbano multimodal”, diz Óscar Coelho, um dos diretores e idealizador do Penafiel Racing Fest.
Hebert Neri
Coelho cita o efeito imediato sobre hotéis e restaurantes, que esgotam durante o fim de semana. Mas, para a organização, o coração da história está no motor que move a economia local. “Esta região é amplamente conhecida em nível europeu pela qualidade das suas empresas, preparadores, equipes e mão de obra especializada nas áreas de engenharia mecânica, eletrônica, de estruturas e metalomecânica”, afirma Coelho.
Segundo ele, o festival funciona como vitrine desse polo industrial do Vale do Sousa — um setor pouco visível para o público leigo, mas que mantém e desenvolve veículos para a alta competição europeia e mundial. “Projeta também a capacidade de Penafiel de organizar e receber eventos desta magnitude e complexidade.”
Foco nas pessoas e inclusão
Levar provas exigentes para o centro da cidade, porém, cobra seu preço. “A segurança do público e dos participantes é o maior desafio e a principal prioridade da organização”, afirma Coelho. O apoio das federações de cada modalidade, com observadores de segurança de nível internacional, é apontado como decisivo para as competições em ambiente urbano.
A prova-símbolo continua sendo o Rally da Taça Joaquim Santos, tributo ao piloto local tetracampeão nacional, morto em 2024. “Manter viva a memória de Joaquim Santos é como um statement da região de que somos feitos de uma fibra diferente”, diz Coelho. Para ele, a trajetória do piloto — “um jovem de família humilde, de uma pequena comunidade”, que chegou a estar entre os maiores nomes do automobilismo mundial — alimenta a ambição local. Penafiel é, nas palavras do organizador, o concelho com o maior número de campeões de esporte motorizado da Europa.
O festival ao longo dos anos deixou de falar só para aficionados, e as máquinas de alta octanagem se tornaram pano de fundo para algo maior: a inclusão das pessoas. “Percebemos que o público quer ver os carros e as motos, claro, mas quer sobretudo sentir o ambiente, ver pessoas, rir, conversar. Levar as corridas até as pessoas, e não esperar que as pessoas vão às corridas”, afirma Coelho.
Desde a primeira edição, a organização aposta em atividades para famílias, como o Rally Kids e o rádio modelismo, às quais se somaram, no pós-pandemia, o street basket 3×3 e o Racing4All, voltado à inclusão de pessoas com mobilidade reduzida. A elas se juntam uma zona de exposições e uma praça de alimentação, além de um palco com bandas e DJs para os cerca de 2.200 credenciados e o público em geral.
Torcida verde-amarela
Muitos brasileiros presentes no Racing Fest, vestidos com as cores verde e amarela, após acompanharem um dia inteiro de atividades automobilísticas, puderam encontrar nos bares e cafés do entorno, o lugar ideal para acompanhar o jogo da Seleção contra o Marrocos, que terminou em empate de 1 a 1. “Tivemos grande procura e mesas reservadas para a ocasião do jogo do Brasil contra o Marrocos”, contou Mário Taffarel, português filho de pais brasileiros, que trabalha como garçon no Monja.
Entre o público brasileiro presente na edição deste ano estava o cantor Rafael Alcântara, que foi ao festival pela primeira vez. Ele diz ter se surpreendido com a organização, a diversidade de modalidades e o envolvimento da população local, que “vive apaixonadamente o Racing Fest”.
“Como brasileiro, me senti acolhido, bem recebido e facilmente integrado com os locais, sem preconceitos de nacionalidade ou origem”, conta. Para ele, foi “incrível poder ver de perto pilotos internacionais campeões do mundo em suas modalidades e viver a emoção da alta velocidade gratuitamente”.
Disclaimer : This story is auto aggregated by a computer programme and has not been created or edited by DOWNTHENEWS. Publisher: feeds.feedburner.com





