
Na política contemporânea ainda há lugar para surpresas que nos convidam a discutir temas em desuso. Como o desprendimento, o empenho no interesse nacional, o serviço público ou o respeito pelas regras da democracia nos partidos.
Keir Starmer, o primeiro-ministro do Reino Unido, demitiu-se ontem e no seu discurso, do qual ouvimos uma pequena parte, estão elencadas muitas destas questões. No essencial, porém, o que ele disse aos seus concidadãos e ao mundo é que deixara de ser a pessoa indicada para dirigir o Partido Trabalhista nas suas próximas batalhas. Que era incapaz de se manter em funções. E disse também que chegara a essa conclusão depois de medir o grau de aprovação dos seus deputados ao seu mandato como líder partidário e como primeiro-ministro.
É cada vez mais raro haver gestos destes na política. Starmer teve 718 dias de mandato em Downing Street. Falta ainda muito tempo para acabar a legislatura. Mas esse muito tempo ia obriga-lo a um combate político com os seus deputados e líderes partidários que não seria bom para ninguém – até para ele, que se arriscava a perder essa batalha. Como muitos analistas observaram, Keir Starmer não foi um bom primeiro ministro: falhou muitas das suas metas e revelou-se como um líder sem clareza de propósitos e com falta de uma visão e propostas assumidas para o seu país.
Depois da derrota das autárquicas em Maio, sabia que jamais seria capaz de restaurar a sua autoridade no partido ou a sua liderança no país. Tratou por isso de esperar que um dos seus rivais declarados, o ex-presidente da Câmara de Manchester, Kenny Burnham, fosse eleito para o parlamento, o que aconteceu na passada quinta-feira, para entregar os destinos do parlamento e do governo aos membros do seu partido. Em Setembro, os trabalhistas e o Reino Unido terão um novo homem no leme.
Faz pouco sentido avaliar se Starmer fez o que pôde, ou se podia fazer mais. Mais importante é notar que o Reino Unido consumiu o seu sexto primeiro-ministro em dez anos. Que, depois de resistir às vagas do extremismo europeu dos anos de 1920, o país está ameaçado pela extrema-direita de Farage. Ou que os custos do Brexit, cujo referendo aconteceu faz hoje dez anos, são cada vez mais assombrosos. O que se passa no Reino Unido?
Tema para uma conversa com o jornalista António Saraiva Lima. O António é jornalista da equipa do internacional do PÚBLICO e acompanha com particular proximidade o noticiário do Reino Unido.
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