A Alemanha entrou com estrondo no Mundial. É para levar a sério?

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Para a Alemanha, não há zonas cinzentas. Ganhar o Mundial é um sucesso, não ganhar o Mundial é um fracasso. Como já foi quatro vezes campeã do mundo, a Alemanha não trabalha com vitórias morais, mas sente o fracasso como mais nenhuma outra selecção do planeta, especialmente se forem fracassos tão pronunciados como os que aconteceram em 2018 (não passou da fase de grupos, com derrotas frente a México e Coreia do Sul) e 2022 (também ficou pelos grupos, após perder com o Japão e empatar com a Espanha). A “Mannschaft” entrou muito bem no Mundial 2026, ao vencer o pequeno estreante Curaçau por 7-1, em que o mais surpreendente foi mesmo o golo da equipa caribenha. Se é um bom sinal? Sem dúvida? Se esta Alemanha é de confiança? Veremos quando o nível dos adversários aumentar.

Esse nível sobe já neste sábado, em Toronto, frente à Costa do Marfim (21h), uma selecção que também ganhou na primeira jornada do Grupo E (1-0 ao Equador). Não tendo uma “estrela” de dimensão planetária como era Didier Drogba, esta selecção africana tem muito talento, sobretudo ofensivo, entre a experiência de Nicolas Pépé (que fez uma boa época no Villarreal) e a juventude de Amad Diallo (intermitente no Manchester United, autor do golo da vitória na primeira jornada) e de Yan Diomande (uma revelação no RB Leipzig com os “tubarões” já a andarem a perguntar o preço) – e aproveitamos para reforçar a conexão portuguesa a esta Costa do Marfim, com Konan, jogador do Gil Vicente que será o lateral-esquerdo titular, e Diomande, central do Sporting que ainda não teve minutos no Mundial, sendo que o ex-FC Porto Fofana foi titular no primeiro jogo.

Pelos nomes citados, há razões para que a Alemanha se preocupe mais com a Costa do Marfim do que com Curaçau – nesse jogo com os caribenhos, os germânicos marcaram primeiro, relaxaram, sofreram o empate e só depois da “pausa para a hidratação” é que avançaram para a goleada. Ou seja, já se percebeu que esta versão da “Mannschaft” (e não é a única a quem isto acontece) também se deixa acomodar quando está em vantagem e, quando isso acontece, ficam mais expostas as suas vulnerabilidades. Philipp Lahm, antigo capitão da selecção alemã, acha que a equipa orientada por Julian Nagelsmann não defende especialmente bem.

“Colectivamente, não é muito forte na defesa. Acho que, como equipa, não defende muito bem. A prioridade de Nagelsmann tem de ser jogar de uma forma compacta para que os ataques adversários não se transformem em situações de um para um dos defesas com avançados fortes”, escrevia o antigo lateral/médio, há poucos dias no The Athletic, antes do jogo com Curaçau. Foi um pouco o que aconteceu no golo dos caribenhos – ataque rápido, defesa descoordenada e espaço para rematar. E houve outras jogadas parecidas.

Onde a Alemanha tem o seu talento concentrado é na frente de ataque. Jamal Musiala, Florian Wirtz e Kai Havertz formam um trio muito rotativo e perigoso, sem dúvida capaz de marcar muitos golos ao longo deste torneio. Voltando a Lahm, o campeão mundial em 2014 diz que “são os três muito bons”. “Havertz, em particular, tem o instinto para procurar o momento na área para fazer golos. Ele vai ser a chave”, reforça. No jogo com Curaçau, o ataque alemão foi bastante democrático – Havertz foi o único a bisar, os outros golos foram de Nmecha, Schlotterbeck, Musiala, Brown e Undav.

E, depois, há a questão do guarda-redes. Retirado dos deveres da “Mannschaft” desde 2024, Manuel Neuer deixou-se convencer por Nagelsmann a mais uma “dança” no Mundial e, aos 40 anos, aqui está ele para dar aquele toque de liderança à selecção – Oliver Baumann, guarda-redes do Hoffenheim e titular durante a qualificação, é que não deve ter gostado muito de ver Neuer a assumir a baliza.

Mas a intenção de Nagelsmann em dar a baliza a alguém mais velho que ele (mais dois anos) é que o homem do Bayern Munique seja a voz da experiência para um sector defensivo que abana e contar histórias de como foi ser campeão do mundo em 2014. E quantos mais do Bayern na equipa (foram cinco titulares dos seis convocados, e não estão lá os lesionados Karl e Gnabry), melhor – poucas equipas ganham tanto no futebol mundial como o gigante bávaro.

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