A amizade como um ato político

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No final de março, aconteceu mais um evento do Self-Uncensored, o Talks on Choice, com curadoria de Tânia Guerreiro, com a proposição de olharmos para a autocensura e os mecanismos das escolhas em tempos democráticos. A ideia do encontro é promover debates entre a classe artística, em diálogo com pessoas de áreas diversas. Achei curioso e emblemático que algo que também é sobre linguagem — afinal, somos artistas e nosso debate é sempre, no fundo, sobre linguagem — levasse a conversa, em um dado momento, ao assunto da amizade. Não sei se linguagem e amizade são temas diferentes.

Amizade não é consentimento absoluto. Não é esperar que o outro aceite incondicionalmente o que fazemos, mas que nos acompanhe no processo de transformação que, ufa, muitas vezes contém erros. Como é bom errar até algo voltar a fazer sentido novamente. E como é bom acompanhar o processo de transformação de alguém, vê-lo crescer, vê-lo buscar. Um pouco como escrever, como criar, como viver junto.

Digo que não é “aceitar” porque, sem o espelho que diz quando erramos, a procura não acontece. Achar que encontramos algo antes de realmente encontrarmos é matar o processo logo no começo. Nada menos amigo do que desonestas palminhas nas costas ou, pelo contrário, críticas destrutivas. Ambas são chaves da mesma porta.

São os amigos — aqueles de verdade — que não nos deixam enganar, achar que encontramos algo no meio do caminho e podemos parar ali, nem nos destruir, achando que precisamos jogar tudo fora. Os amigos não estão nos extremos, mas no humor e na generosidade. No entre. A amizade concebe o outro débil, frágil, vulnerável, e não abandona. Não bate palma antes da hora, nem vaia antes do final. Não acha que o processo do outro é sobre si. Sabe separar o eu e o outro porque sabe ver o outro.

A amizade também não se ilude com o sucesso — comemora junto, mas não se ilude —, porque o sucesso não é fim em si mesmo: é busca por algo. De perto, sucesso não significa tanto. De perto, é tão contraditório quanto o fracasso. O amigo sabe admirar e, ao mesmo tempo, manter aceso o fogo da transformação.

Amizade também sabe que amizade acaba, como todos os amores. Recentemente, um amigo virou ex-amigo, sem que o sentimento de amizade acabasse da minha parte. A amizade concebe, às vezes, a necessidade de afastamento para crescimento mútuo. Há vínculos que continuam mesmo quando deixam de existir como convivência, se eles não forem só baseados na conveniência e no interesse.

Mas talvez a dimensão mais política da amizade apareça quando ela se torna encontro para um fim comum. A amizade, por exemplo, é o que pode acabar com o Hotel na Graça, transformando-o em um espaço público para mais vida comunitária. A amizade ao redor das assembleias do movimento “Parar o Hotel no Quartel” é nítida. Na região, a cada dia, mais janelas expõem a bandeira “menos turismo, mais bairro”. Ouso dizer que só não há mais pelo medo de locatários ofenderem seus senhorios. Algumas amizades são impossíveis.

As assembleias andam cheias. As pessoas chegam ansiosas pela confraternização, pelo tempo do encontro. Não é à toa que Salazar impedia reuniões que não fossem organizadas ou autorizadas pelo regime. Há um poder enorme em abandonar a solidão e confabular. A amizade, quando se torna presença coletiva, reorganiza o espaço político. A artesania do encontro ainda é revolucionária e talvez cada vez mais.

Estrutura de poder

Inclusive, talvez um dos grandes inimigos da amizade seja o excesso de comunicação constante, junto da ilusão de que a transparência nos une. As redes sociais muitas vezes operam contra a amizade. Esses nossos “eus” que só querem ser vistos não são amigos de ninguém. A exposição de nós enquanto produtos sempre disponíveis enfraquece o desejo pelo outro. A amizade precisa de tempo a sós consigo próprio. Precisa de tempo de ausência para contemplar o outro.

Mas a amizade também mantém estruturas de poder. Os grupos dominantes permanecem no poder, entre outras coisas, porque sabem proteger-se mutuamente. Criam redes de confiança, defesa e legitimação. Há uma política da amizade que exclui, protege e perpetua. Talvez, então, a questão não seja apenas valorizar a amizade, mas perguntar: que amizade estamos construindo?

Talvez a amizade também possa movimentar a Janela de Overton, o espectro de ideias consideradas aceitáveis em um determinado momento. A amizade pode impedir que frases perversas circulem sem resistência. Mas também pode normalizá-las, quando o vínculo protege o discurso em vez de confrontá-lo.

Lembro a citação de LTI — A Linguagem do Terceiro Reich, de Victor Klemperer: “o nazismo se embrenhou na carne e no sangue das massas por meio de palavras, expressões e frases impostas pela repetição, milhares de vezes, e aceitas inconsciente e mecanicamente”. A linguagem não se transforma sozinha; ela se transforma nas relações.

Talvez a doçura e a inteireza de uma amizade, aquela que critica sem abandonar, que acompanha sem dominar, que sustenta o erro sem celebrá-lo, possa começar a desmantelar a crise de linguagem que vivemos. Porque a amizade, quando não é apenas intimidade, mas prática de escuta e transformação mútua, também é uma forma de reorganizar o mundo.

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