Nos últimos anos, tornou-se frequente a revisitação pública de figuras e acontecimentos históricos que marcaram profundamente a vida coletiva dos portugueses. O problema não reside no debate em si, mas antes na forma como esse debate é, por vezes, conduzido, através de simplificações, comparações anacrónicas e juízos perentórios que pouco contribuem para a compreensão histórica.
Quem, como eu, viveu mais de dez anos sob o regime do Estado Novo e foi mobilizado para a Guerra Colonial, não pode deixar de encarar com alguma perplexidade certas leituras excessivamente lineares desse período. A experiência pessoal não substitui a investigação histórica nem confere o monopólio da verdade. Todavia, também não deve ser descartada como irrelevante. A memória dos que viveram os acontecimentos constitui um testemunho que merece ser escutado, sobretudo quando o debate tende a ser dominado por interpretações desprovidas de contextualização.
O Estado Novo foi um regime autoritário que limitou as liberdades fundamentais, institucionalizou a censura e reprimiu a dissidência política. Negá-lo seria uma forma de desonestidade intelectual. Conheci esse regime por dentro. Vi os constrangimentos que impôs à vida de tantos e tantos portugueses e fui, eu próprio, confrontado com algumas das suas consequências, nomeadamente através da interrupção forçada do meu percurso académico e da mobilização compulsiva para a Guerra Colonial. Essa experiência reforçou em mim, já então, a convicção de que a democracia, com todas as suas imperfeições, seria, e continua a ser, o espaço indispensável para a defesa da dignidade humana, da liberdade de pensamento e do pluralismo.
Todavia, a condenação inequívoca da natureza autoritária do Estado Novo não dispensa a exigência do rigor histórico. Compreender as circunstâncias em que o regime surgiu e perdurou, analisar criticamente as opções políticas tomadas ao longo desse período ou reconhecer a complexidade dos contextos nacionais e internacionais em que se desenrolaram determinados acontecimentos não significa relativizar a ausência de liberdade nem reabilitar politicamente o regime. Significa apenas recusar uma leitura simplificadora do passado. A maturidade democrática mede-se, também, pela capacidade de olhar criticamente para a História, sem a reduzir a um mero exercício de condenação sumária nem, muito menos, a uma construção nostálgica. Entre a complacência e o anátema existe um espaço de reflexão que é o da honestidade intelectual.
Particularmente sensível, para além dos constrangimentos próprios de uma ditadura, é a questão da Guerra Colonial. Muitos dos que nela participaram não o fizeram voluntariamente, mas porque foram chamados a cumprir o serviço militar obrigatório. Eu fui um deles. No caso de Angola, posso testemunhar a enorme distância que frequentemente existe entre a complexidade dos acontecimentos vividos e algumas narrativas simplificadoras construídas décadas mais tarde. As experiências foram diversas, os dilemas humanos profundos e as consequências dramáticas para todos os envolvidos. Reduzir essa realidade a interpretações unidimensionais é desrespeitar a memória daqueles que a viveram.
A compreensão do passado exige cautela perante a tentação de o avaliar exclusivamente à luz dos valores e sensibilidades do presente. Isso não significa renunciar ao juízo crítico. Significa, antes, reconhecer que os fenómenos históricos são produto do seu tempo e das circunstâncias concretas em que ocorreram. Comparações apressadas entre contextos distintos tendem a obscurecer mais do que a esclarecer. O conhecimento histórico exige rigor metodológico, prudência interpretativa e abertura à complexidade.
Num tempo marcado pela rapidez da opinião e pela crescente polarização do espaço público, talvez seja importante recuperar uma certa ética do debate. Discordar é legítimo. Simplificar excessivamente o passado é intelectualmente empobrecedor. A História de Portugal, como a de qualquer nação, é feita de grandezas e contradições, de conquistas e erros, de escolhas acertadas e decisões profundamente contestáveis. Compreendê-la implica resistir à tentação das narrativas fáceis e aceitar que a verdade histórica raramente se acomoda aos extremos.
Aqueles que viveram esses tempos têm o dever de testemunhar. Os que os estudam têm a responsabilidade de o fazer com rigor e honestidade. E todos nós, enquanto cidadãos, temos a obrigação de promover um debate público mais informado, mais exigente e menos refém das conveniências ideológicas do momento. Uma democracia segura de si mesma não teme a complexidade do seu passado. Teme, isso sim, a substituição do conhecimento pelos preconceitos e das perguntas difíceis pelas certezas fáceis.
O autor escreve segundo o acordo ortográfico de 1990
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