Devo começar por uma confissão: não sou imparcial. Apoiei António José Seguro desde a primeira hora e tenho a forte convicção de que exercerá a Presidência de forma humana e próxima. É precisamente por isso que escrevo este artigo. Não como crítica, mas como interpelação de quem acredita – e, por isso, exige mais.
No discurso mais solene do ano, o Presidente da República disse que “somos iguais e livres”. Que a liberdade é “a dignidade de cada pessoa reconhecida e protegida”. Palavras bonitas. Palavras verdadeiras.
Mas em nenhum momento da sua intervenção na sessão solene do 52.º aniversário do 25 de Abril foram mencionados os imigrantes.
Portugal tem hoje mais de 1,5 milhões de imigrantes – cerca de 15% da população. É a Joana que acorda às cinco da manhã para limpar o aeroporto. É o Abdoulaye que colhe a fruta no Alentejo sob o sol de agosto. É a Natália que cuida do pai de um de nós no lar enquanto trabalhamos. São pessoas que vivem, trabalham, pagam impostos, constroem casas, cuidam de doentes e criam filhos entre nós – e que, no discurso mais solene do ano, simplesmente não existiram.
O silêncio não é neutro. É uma escolha. E não foi a primeira vez. Já no discurso de tomada de posse, os imigrantes estiveram ausentes. O que no início podia parecer uma omissão pontual revela-se agora um padrão. E um padrão tem um significado que um silêncio isolado não tem.
O mesmo discurso do 25 de Abril falou de saúde mental, de habitação, de alterações climáticas, de inteligência artificial, de corrupção. Todos temas legítimos e urgentes. Mas há uma parte da sociedade portuguesa que vive entre nós e que, naquele momento, simplesmente não existiu. Não foi nomeada. Não foi reconhecida. Não foi convidada para a mesa do jantar da família portuguesa.
Há quem responda que não é necessário nomear ninguém em particular – porque “somos todos iguais”. É um argumento inspirador. E é uma armadilha. Dizer que somos todos iguais conforta a maioria que já tem os seus direitos garantidos, e pode até ser usado como escudo: se somos todos iguais, destacar uma minoria seria, paradoxalmente, ferir essa mesma igualdade. É uma lógica elegante. Mas a igualdade formal não apaga a desigualdade real. E ignorar quem está mais vulnerável em nome de um princípio universal não é igualdade – é indiferença com boa consciência.
A complexidade do tema exige precisamente o contrário dessa indiferença. O aumento do racismo e do discurso de ódio na sociedade portuguesa, a normalização de uma política cada vez mais descartável da mão de obra migrante – que se pode resumir numa frase brutal: queremos trabalhadores, mas não queremos cidadãos – tornam este tema urgente e incontornável. Os números falam por si: em 2025, o Governo notificou mais de 23 mil imigrantes para abandonarem voluntariamente o país, um aumento de 5080% face ao ano anterior. Não pode ficar entregue à agenda mediática, que o convoca quando há escândalo e o abandona quando há outro assunto. A agenda mediática condiciona, de forma por vezes perversa, a agenda política. E é precisamente por isso que cabe aos líderes políticos – e, em particular, ao Presidente da República – a coragem de o colocar no primeiro plano, independentemente do ciclo noticioso.
E aqui está o nó do problema. Quando não somos imigrantes, quando não convivemos com imigrantes, quando não temos amigos, colegas ou vizinhos que o sejam, dificilmente conseguimos envolver-nos com o tema de forma verdadeira. Fica tudo numa dimensão teórica da moralidade – sabemos que é importante, concordamos em abstrato, mas não sentimos. E o que não se sente, não move. Não muda discursos. Não entra em salas de sessões.
É por isso que a dimensão simbólica importa tanto. Nas lutas por dignidade e igualdade, ser nomeado é ser reconhecido. Ser reconhecido é existir. E quando um Presidente fala no dia mais simbólico do ano e não te menciona, a mensagem chega – mesmo que não tenha sido essa a intenção. O símbolo cria o envolvimento emocional que a teoria moral, sozinha, nunca consegue criar.
Este silêncio não é um acidente português – é um sintoma europeu que outros países já perceberam que não podem ignorar.
O contraste com o que se passa na Europa vizinha é revelador. Em Espanha, o Governo de Pedro Sánchez aprovou em abril um decreto extraordinário para regularizar quase meio milhão de imigrantes, descrevendo a medida como “um ato de justiça e uma necessidade” de um país que envelhece e que, sem novas pessoas a trabalhar e a descontar para a segurança social, verá “a prosperidade travada”. Até a Itália de Giorgia Meloni – conhecida pela retórica anti-imigração – se viu obrigada pela realidade económica a abrir portas: aprovou cerca de 500 mil vistos de trabalho para cidadãos de fora da UE entre 2026 e 2028. O populismo, como se diz, tem um problema: um dia choca de frente com a realidade.
Portugal, que financeiramente é dos países menos atrativos da Europa para quem quer imigrar, compensava essa fragilidade com algo raro e valioso: um consenso social e político em torno da integração, uma cultura de acolhimento que tornava o país uma escolha com sentido para quem queria construir uma vida nova. Esse consenso está a ser erodido. E a fatura não se paga apenas em vidas humanas desperdiçadas – paga-se também em democracia. Porque a exclusão e o ressentimento são a autoestrada que a extrema-direita precisa para chegar ao poder. E essa autoestrada está a ser construída, tijolo a tijolo, pela indiferença de quem governa e pelo silêncio de quem devia falar.
E, se os líderes portugueses evitam o tema, o contraste com dois visitantes recentes é revelador. O Presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, esteve em Portugal há poucos dias, ciente dos problemas enfrentados pelos imigrantes brasileiros – xenofobia, racismo, dificuldades com a AIMA. Ouviu os relatos. E optou pela diplomacia redonda: a viagem “foi boa, foi maravilhosa“. O Presidente de Cabo Verde, José Maria Neves, em visita a Portugal esta semana, foi mais longe: disse sem rodeios que as restrições à imigração portuguesa o preocupam “profundamente” e que a “discriminação às comunidades imigradas” afeta enormemente o seu país.
É precisamente este o caminho. Os países que enviam os seus cidadãos para Portugal não podem ficar neutros perante a forma como eles são tratados. Defender os seus nacionais não é ingerência – é responsabilidade. E quanto mais vozes se juntarem a esta interpelação, dentro e fora de Portugal, mais difícil será continuar a olhar para o lado.
Presidente Seguro: a próxima vez que falar ao país, convide-nos para a mesa. Portugal inteiro ficará mais rico por isso.
Uma liberdade que não abraça todos os que partilham o mesmo chão não é liberdade inteira. É liberdade pela metade.
Abril merece mais.
O autor escreve segundo o acordo ortográfico de 1990
Disclaimer : This story is auto aggregated by a computer programme and has not been created or edited by DOWNTHENEWS. Publisher: feeds.feedburner.com





