A moda vai a jogo: Naomi Osaka entra em Roland Garros vestida de alta-costura

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Podia ser só mais um desfile de moda em Paris, mas era Naomi Osaka a entrar no campo do torneio de Roland Garros. A tenista japonesa surpreendeu pela indumentária: em vez do habitual uniforme de ténis, vestia uma saia comprida preta e um corpete bordado a missangas. Depois, revelou um maiô dourado coberto em lantejoulas, mostrando como a moda também é uma forma de expressão no desporto.

O objectivo era mesmo o entretenimento, confessou a tenista de 28 anos na conferência de imprensa após o jogo desta terça-feira, em que derrotou a alemã Laura Siegemund. “Às vezes, as pessoas dizem que os atletas fazem parte do mundo do espectáculo, que são artistas ou algo do género”, declarou Osaka. “Para mim, as entradas em campo nos torneios do Grand Slam são os únicos momentos em que sinto que sou um artista.”

Para o seu visual de “alta-costura”, como a própria definiu, convocou o suíço Kevin Germanier, que trabalha com upcycling, isto é, aproveitamento de materiais que, à partida, seriam desperdício. Neste caso, o criador revelou, numa publicação de Instagram, que tinha utilizado peças antigas da Nike, que já patrocina habitualmente os visuais Osaka. “Court-ure”, descreveu o designer, com humor, num trocadilho em inglês entre court (como se chama ao campo de ténis) e couture (o francês para alta-costura).

“Gosto muito de acompanhar o processo criativo dos designers, especialmente quando já existe uma base sobre a qual precisam de construir algo novo. Discutimos muito antes e trocámos ideias, e, para mim, essa é a parte mais interessante”, acrescentou Osaka, que, para a partida contra Siegemund, revelou um vestido de jogo da Nike coberto em lantejoulas douradas. “Sabem quando a Torre Eiffel à noite fica toda a brilhar? Acho que pareço um bocadinho isso”, comparou.

No entanto, confessou que teve receio de que as lantejoulas lhe trouxessem problemas para a competição e levou na mala dois vestidos de reserva. “Fiquei um pouco preocupada, porque quando o sol bate no vestido, reflecte imenso. Por isso tive algum receio de que o árbitro me mandasse sair do campo.”

Não foi preciso trocar de vestido, mas as lantejoulas revelaram-se polémicas nas redes sociais entre os mais puritanos do ténis. “Isto é um torneio de ténis, não é Cannes”, comentou um utilizador numa fotografia partilhada na página do X (antigo Twitter) de Roland Garros. E outro concordou: “Já não ganha torneios, por isso, para continuar a dar nas vistas, tem de recorrer a roupas engraçadas.”

No Open da Austrália com uma coordenado Robert Wun
JOEL CARRETT/EPA

Contudo, o interesse de Naomi Osaka em moda não é novidade e já este ano, no Open da Austrália, apareceu em campo com um vestido inspirado por uma medusa com um enorme chapéu de aba larga e um véu — uma criação do chinês Robert Wun, radicado em Londres. Já no Open dos EUA no ano passado, usou o cabelo decorado com rosas vermelhas e cristais, que combinavam com um casaco da Nike personalizado e um boneco Labubu pendurado no saco de treino. E, em 2024, envergou um fato com um tutu como os de ballet.

“Não falo muito, por isso, assim posso expressar-me através da minha roupa. Isso significa que posso ser tão exuberante quanto quiser nas cores, nos padrões ou nos tecidos… Mas acho que é essa a parte divertida”, lembrou noutra conferência de imprensa em Paris, no passado sábado, reforçando o poder da moda enquanto forma de expressão. “Sou um pouco dramática no que diz respeito ao meu sentido de estilo”, brincou a tenista, que é convidada habitual do Met Gala.

Naomi Osaka com um tutu no US Open de 2024
CJ GUNTHER/Reuters

Serena Williams abriu caminho

Apesar da divisão nas redes sociais em torno do visual de Naomi Osaka, certo é que a moda no court de ténis não é novidade, nem a japonesa é pioneira. Em 1985, a norte-americana Anne White foi repreendida pelo árbitro do torneio de Wimbledon, em Londres, que lhe pediu que vestisse algo “mais apropriado” quando esta usava um fato branco de licra justo, de mangas compridas e de corpo inteiro.

Mas é sobretudo a Serena Williams, que se reformou em 2022, que pode ser atribuída uma mudança de paradigma na moda feminina no campo de ténis. Em 2004, a norte-americana surpreendeu ao competir no US Open com uma saia de ganga. Anos mais tarde, em Roland Garros de 2018, usou fato elástico preto para ajudar a sua circulação sanguínea após o desenvolvimento de coágulos nos dias após o parto, mas a organização proibiu a indumentária.

Serena Williams em Roland Garros, em 2018
Reuters/Christian Hartmann

Como forma de protesto, em Flushing Meadows, nos EUA, nesse mesmo ano, apareceu com um fato da Nike inspirado por uma bailarina de ballet, desenhando por Virgil Abloh (1980-2021).

Desde então, a Associação de Ténis Feminino já aligeirou os códigos de vestuário para a modalidade e permite que as tenistas usem leggings ou calções de compressão até meio da coxa, apesar de a saia se manter a opção mais popular entre as atletas — Naomi Osaka incluída.

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