A morrer de amor

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Chega o mês dos Santos e de seguida as festas de Verão e, passadas três décadas, continuo a surpreender o meu marido com o meu reportório de música popular portuguesa. Há dias e por uma razão muito concreta, a morte da iraniana Marjane Satrapi, lembrei-me de um trabalho que poderíamos fazer no Ímpar mas que, por motivos superiores à nossa vontade, não conseguimos: é possível morrer de tristeza? Queria que a jornalista Inês Duarte de Freitas fosse ouvir especialistas que explicassem como o corpo e a mente vão desligando, mas, meteu-se o feriado, muita gente fez ponte e simplesmente não deu.

Depois, esta manhã, ainda a pensar em Marjane e nesse trabalho, acordei a cantar um refrão de José Cid, “A morrer de amor, é bem melhor do que viver a vida sem te ter/ A morrer de amor é bem melhor do que viver sem ti”. Eu sei, choca não só o meu marido, como chocará o leitor, mas é verídico. Lembro-me de em criança, cantar com todo o sofrimento e inexperiência possível, acompanhando Cid numa cassete enfiada num aparelho pequenito, portátil e a pilhas, que a empregada carregava pela casa, e eu atrás dela, naquela tristeza solidária. Um dia, a minha mãe apanhou-me naquela cantoria e disse: “Que disparate, ninguém morre por amor.” Meti a viola no saco, que é como quem diz, não contestei e continuei a murmurar aquela lengalenga, longe dos seus ouvidos.

Nem a minha mãe, nem a minha tia eram fãs das letras de José Cid, a minha tia achava ridícula a “historieta” de Vinte Anos, um par de crianças que se reencontra na vida adulta, concretizam o amor e são felizes para sempre, eventualmente, ele morre e ela fica a fazer renda o resto da vida. “Vem viver a vida, amor,/ que o tempo que passou, não volta não”, cantava o artista da Chamusca e eu. “Quando um homem morre, a vida acaba para uma mulher? Fica a fazer napperons até morrer?”, perguntava-me a minha tia, obrigando-me a pensar no ridículo da situação.

A Cabana Junto à Praia, onde ele ficava todos os Verões à espera que ela regressasse, também não era uma opção para nós, explicava a minha tia. As mulheres da minha família ensinaram-me que o amor pode ser prático e racional. Ninguém morre, pode ter uma desilusão, aprende com os erros (nossos e deles) e segue em frente, não fechando o coração. O “a morrer de amor” com que acordei esta manhã, remete-me também para um outro tema sobre o qual escrevemos esta semana. A jornalista Rita Caetano pegou num estudo realizado em França, com as mulheres da Geração Z, entre os 29 e os 15 anos, que aparentemente conseguem viver relações conjugais sem intimidade e foi ouvir especialistas. Vale tanto, mas tanto a pena lê-los para perceber o que se passa com as jovens e os jovens franceses e também porque as conclusões podem ser alargadas à nossa Gen Z.

Se há coisa que pode mudar o rumo é a educação. Na semana que passou assinalou-se o Dia da Criança e a Ordem dos Psicólogos Portugueses alertou para o impacto que as palavras dos adultos podem ter nas crianças, já a UNICEF Portugal sublinhou a importância de os pais brincarem com os filhos e como o brincar é importante para o desenvolvimento infantil. A professora Inês Ferraz fala da importância do “não”, como este é essencial na educação dos filhos. E Ana e Isabel Stilwell conversaram com Patrícia Teixeira de Abreu, a economista que criou o projecto Dislexia Day by Day, no seu podcast Birras de Mãe.

Por falar de Isabel Stilwell, esta semana que passou foi especial para a jornalista que é também autora de romances históricos. O seu primeiro título foi Filipa de Lencastre: A rainha que mudou Portugal e foi sobre esta e o seu marido, o português D. João I, que a escritora conversou com os duques de Edimburgo na Sé do Porto. O irmão mais novo do rei Carlos III e a mulher estiveram três dias em Portugal e a jornalista Inês Duarte de Freitas levantou o véu sobre quem é este casal e o que é o Tratado de Windsor, que ainda está em vigor; acompanhou-os no primeiro dia da visita, deu conta do segundo e do último

Este domingo, a revista Ímpar chega às bancas com o PÚBLICO e escrevemos sobre o poder do amor (lá está… mais uma razão para acordar a trautear José Cid!) e outras formas de poder. O editorial da Ímpar é uma ajuda para guiar o leitor pelos diferentes temas. A revista folheia-se num ápice, mas os temas são para ler com tempo.

E termino com a autora de Persépolis, conta o jornalista Mário Lopes que das coisas que Marjane tinha mais saudades era do sentido de humor iraniano. “As piadas que mais me fazem rir são as iranianas. O apocalipse pode acontecer no Irão que no dia a seguir há piadas acerca desse apocalipse. E as pessoas… têm uma generosidade que nunca, nunca vi em parte alguma do mundo.”​ Ao longo da vida, Marjane Satrapi foi-se despedindo de muitas coisas, da família, dos amigos, da sua casa, do seu estilo de vida no Irão, da esperança de voltar um dia a um país mais justo. A morte do marido foi a gota de água. Acredito realmente que podemos adoecer e morrer de tristeza, podemos morrer com um acumular de desilusões e despedidas. Mata-nos a falta de amor.

Boa semana.

P.S.: Para quem lê esta newsletter, em baixo estão outros temas Ímpar que destaco nesta semana; para quem nos lê no site, é só clicar aqui.

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