A mulher de bege — da domesticação social do corpo

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Estive num retiro literário e, ao partilharmos uma com a outra as dificuldades do nosso primeiro ano de imigração, a autora que conversava comigo disse-me que eu não parecia alguém que tivesse ficado deslocada. Ao contrário, parecia até muito bem adaptada. Na ocasião, eu estava com uma maquiagem neutra, um corte de cabelo clássico e vestia blusa bege de manga curta, calça off-white com corte de alfaiataria e um par de tênis caramelo. Trazia um par de brincos de pérola bem discretos e as unhas pintadas de bege.

Ao ouvi-la, repousei as mãos sobre o colo e, ao sentir o toque do tecido da roupa, veio-me à memória como eu era antes de imigrar. A pele era bronzeada e os cabelos, repicados, queimados de sol. Usava as unhas vermelho-sangue, brincos grandes e vestidos descapotados. Os anos em Portugal foram algo entre a força e a temperança. Regressei dessa deriva e disse-lhe que aprendi os códigos para estar aqui, para saber transitar. E ser respeitada.

Quando cheguei, não era assim. A adaptação não foi espontânea, foi aprendida. E, quando eu cheguei, ainda julgava os brasileiros que traziam na fala as palavras e, às vezes, até o sotaque português. Achava uma incoerência e disse a mim mesma que não me dobraria, até que as fricções da imigração fizeram o seu trabalho.

A mulher que eu fui ao chegar julgaria a mulher que me tornei, mas, falando a partir de quem hoje veste essa pele, não ter buscado a temperança entre quem se é e quem o entorno pede que sejamos teria sido uma experiência demasiado bruta para uma mulher que imigra só. Não consigo nomear esse luto identitário de outra forma, senão como uma renúncia estratégica. As fricções sempre oscilam entre impor-se, assimilar para sobreviver e evitar ser completamente anulado.

Os vestidos estampados saíram da mala desde que cheguei à Espanha, mas ainda ocupam as ruas aos poucos. Logo que cheguei, nas primeiras semanas, ia aos compromissos formais com a expressão séria e vestida em tons neutros. Mencionavam o nome da minha universidade e assumiam que eu era portuguesa.

Quando me senti mais à vontade, vesti o estampado, botei uma cor nos lábios e voltei a sorrir para estranhos. Começaram a me perguntar: você é brasileira!? Logo desenvolvíamos uma conversa, como se os sinais de uma possível brasilidade fossem a porta aberta para a cortesia. A despeito dos estereótipos, não nego que gostei. Parece que foi só cruzar uma fronteira que ser brasileira deixou de ser um estigma e virou um bônus social.

Cruzar o Atlântico não me fez trocar o Cone Sul pelo hemisfério Norte, sigo mulher brasileira e latina com muito orgulho. Já dizem que sou ibero-americana. Portugal me trouxe amizades para toda uma vida, e me conectou com iniciativas de escrita e leitura que mudaram o meu rumo. Reconheço que Portugal foi o país que me levou à escrita, à publicação do meu primeiro livro e a uma relação mais harmônica com a nossa língua. Nunca tive tanto orgulho de falar o nosso idioma. Portugal também me despertou um olhar para a CPLP (Comunidade dos Países da Língua Portuguesa), e para as tensões ainda vivas das guerras coloniais e dos retornados, o que me trouxe uma visão de mundo mais abrangente.

Por estar por cá, também tive mais contato com a literatura produzida nos países da comunidade, bem como a oportunidade de vir a conhecer pessoalmente alguns de seus autores. A CPLP completa três décadas no presente ano e, inclusive, vir de um país pertencente à CPLP me facilitou o acesso à minha universidade, já que os custos praticados são distintos. Essa apreciação ressignifica o luto identitário ao colocar em perspectiva o que vai e o que fica, apesar das dores envolvidas no processo.

Estigma contra brasileiras

Certo dia, estava no centro do Porto, num jantar com amigos brasileiros, e toquei no tema das renúncias estratégicas. Disse-lhes igualmente que foi difícil a adaptação ao chegar a Portugal, já que ainda é muito forte o estigma das mulheres brasileiras por aqui, com frequência tratadas como putas. Os dois me responderam em uníssono: “você não é o tipo de brasileira que é confundida com puta”. Fechei a expressão, cruzei as mãos sobre a mesa, encarei-os nos olhos e disse-lhes: “não agora”.

O estigma atribuído às mulheres brasileiras, como “putas”, não se refere necessariamente a uma associação ou desrespeito a mulheres que trabalham com o sexo pago, e que também devem ser respeitadas dentro das suas escolhas, mas refere-se ao que é clandestino ou promíscuo. Certa vez, li o seguinte comentário numa rede social: “As brasileiras são para nos divertirmos, já com as portuguesas, casamos, porque são leais”.

O episódio das mães de Bragança, ocorrido em 2003, gerou uma repercussão nacional que até hoje reforça esse estigma. Na época, envolveu a mobilização de esposas portuguesas diante do poder público com o intuito de expulsar cerca de 300 mulheres brasileiras que trabalhavam, na altura, com serviço de sexo pago em casas de alterne (fora da rua).

Como ilustra a peça de teatro Viemos Roubar Vossos Maridos, de Maria Giulia Pinheiro, pouco a pouco, “as brasileiras de Bragança” passaram a ser apenas “as brasileiras”. Esse contexto ainda atribui à figura da mulher brasileira a promiscuidade, a objetificação e a hipersexualização. Isso nos põe em risco, sobretudo quando estamos sozinhas e em precarização econômica. A vulnerabilidade de ser imigrante ganha uma outra camada quando há interseccionalidade, não só de gênero, mas também de raça e de classe.

A mulher que outrora vestia encarnado, veste-se de bege, não por rejeitar o que pulsa, mas para não ser confundida com outras encarnações. O bege protege o encarnado e, sempre que posso, visto branco às sextas-feiras. Sou filha de Oxaguiam e sinto-me como ele, o Oxalá jovem, inquieto e, às vezes, inconsequente, principalmente quando me dizem que fui corajosa ao imigrar sozinha, sem família, marido ou amigos, sem ninguém.

Dizem que o Oxaguiam é o Oxalá guerreiro porque tem a influência de Ogum, que é a própria coragem. Como Oxaguiam, acho que, no meu caso, o que me trouxe ao outro lado do Atlântico foi a errância com uma certa inconsequência. Não é à toa que esse é o único orixá que nasceu sem cabeça, age antes e pensa depois.

Se, na altura, eu fosse menos ingênua sobre o que me esperava ao imigrar, teria tido mais “tenência”, como dizia a minha avó à minha mãe. Quando percebi o quanto essa escolha me exigiria na prática, já não dava para voltar à vida anterior sem grandes perdas e faltava-me até documento que permitisse, ao mesmo tempo, voltar atrás e manter as portas abertas. Migrar é negociar.

Dizem que o Oxalá veste-se de branco para esconder o sangue que traz por baixo depois da guerra, pois embora tenha toda a paciência e o perdão do mundo, quando se zanga, pode ser o pior dos orixás. Como Oxalá, que traja o seu branco por fora, tornei-me essa mulher que às vezes prefere ser bege, que é para ninguém importunar. Que traja o bege como armadura social. O encarnado eu guardo para os poucos. Poucos e bons. Porque, quando Oxalá te vira as costas, esquece. Ninguém mais te olha de frente.

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