O cérebro humano é formatado com experiências musicais que começam no feto, amadurecem à nascença, desenvolvendo-se ao longo da vida. A forma de construção é, ainda, pouco conhecida, nomeadamente a exposição à diversidade de instrumentos e à conceção que os sons musicais provocam nos diferentes cantos do mundo.
O processamento neuronal da música envolve áreas cerebrais corticais e subcorticais, integrando emoções, sensações motoras, cognições e diferentes percepções auditivas, traduzidas em prazer, atenção e memória.
À nascença, o córtex temporal do hemisfério direito é o mais estimulado pela música, sobretudo a tonalidade e o timbre dos sons musicais. O ritmo e a voz humana propagam a estimulação do hemisfério esquerdo, sendo o córtex oculo-frontal o local de exposição das emoções
Estudos dos movimentos fetais e do ritmo cardíaco mostram que o sistema auditivo do feto permite obter respostas aos sons musicais por volta das 25 semanas de gravidez, primeiro aos sons de baixa frequência, mais tarde, pelas 29 semanas, a sons de alta frequência. As respostas fetais traduzem-se na aceleração do ritmo cardíaco com os sons de alta intensidade, baixando o ritmo cardíaco nos sons com intensidade baixa. A utilização do eco-doppler na artéria cerebral média do feto confirma o aumento, ou diminuição, do ritmo cardíaco e a alteração das curvas sistólicas e diastólicas de acordo com a intensidade e frequência dos sons.
Um conjunto de experiências de comportamento suporta a capacidade dos recém-nascidos de processar a música. Crianças de termo, ou pré-termo, reagem à música sincronizando com ela a sucção, os movimentos da língua, a respiração e até a vocalização de acordo com os diferentes contornos da música.
Um dos aspetos distintivos da música de Mozart, a mais usada em diferentes estudos científicos, por estimular os trajetos neuronais do cérebro, melhorando a comunicação entre os hemisférios direito e esquerdo, é a repetição frequente da linha melódica, sustentando uma musicalidade altamente organizada, presumivelmente casando bem com a organização do córtex cerebral.
Estudos científicos com diferentes tecnologias, incluindo a ressonância magnética, mostram a utilidade da reação aos sons cardíacos em crianças com desenvolvimento neuronal problemático. São vários os estudos publicados, sobretudo em crianças pré-termo, que mostram os efeitos da intervenção musical em unidades de cuidados intensivos neonatais. Nestas crianças, para além dos parâmetros mais conhecidos, como são a determinação das frequências cardíacas e respiratórias, também são elaborados parâmetros de desenvolvimento e crescimento da criança em função da alimentação.
Assim, podemos concluir que ouvir música é bastante mais do que uma experiência auditiva, sendo importante para o desenvolvimento cognitivo e emocional da criança. Vários estudos de imagem do cérebro humano mostram atividade neuronal associada à audição de música, envolvendo um amplo espectro cerebral, tendo em conta a estimulação multissensorial de uma extensa rede do córtex frontal, temporal e parietal, também de áreas subcorticais relacionadas com a atenção, funções motoras, memória e emoções.
Sendo apaixonante a aquisição de conhecimentos do efeito da música no feto e no recém-nascido, muito é ainda desconhecida a importância da música no desenvolvimento do ser humano ao longo da vida. A criança, à nascença, está pronta para uma invenção cultural humana, sendo a musicalidade inata a origem de várias culturas musicais. Se, no Ocidente, a música clássica é a mais utilizada em musicoterapia para diferentes idades, noutras partes do mundo, outra música e outros instrumentos, como o tambor, rico em timbre, tonalidade e ritmo, são utilizados como complemento de tratamentos médicos.
O autor escreve segundo o acordo ortográfico de 1990
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