O 10 de Junho não deveria ser apenas um dia de celebração. Deveria ser também um dia de perguntas: que país estamos a construir? Que futuro estamos a financiar e a planear? A data que celebra Camões e os valores da cultura portuguesa é tratada como solenidade. É necessário tratá-la como diagnóstico.
Portugal tem ativos. A recente eleição para membro não permanente do Conselho de Segurança da ONU confirma que o país tem crédito acumulado no plano internacional. O Presidente da República, no seu discurso da útima semana, enunciou com clareza o que falta: salários que reflitam as qualificações, políticas que fixem talento em vez de o exportar, menos burocracia, mais visão de longo prazo. O diagnóstico foi feito. Mas um diagnóstico enunciado numa cerimónia não é o mesmo que um país que o traduz em escolhas. A língua, a diáspora e a posição euro-atlântica só produzem influência sustentada se o país conseguir converter conhecimento em produtividade e talento em crescimento.
Portugal cresce de forma insuficiente, os salários continuam baixos (38% abaixo da média europeia, segundo o Eurostat), a dependência de setores de baixo valor acrescentado persiste e a dificuldade em transformar conhecimento em valor económico é estrutural. Estes problemas não são novos nem pertencem a nenhum governo em particular. Atravessam décadas e ciclos políticos de todas as cores, o que significa que a solução também não pode depender de nenhum, tem de ser mais profunda e mais duradoura do que qualquer mandato. A emigração de portugueses qualificados não é um fenómeno conjuntural. É uma consequência direta de um mercado de trabalho que não acompanha as qualificações que o próprio país financia. Não partem por falta de ligação ao país; partem porque as condições que encontram não correspondem ao que estudaram.
Nos próximos dias, dezenas de milhares de jovens portugueses enfrentam os exames nacionais do 12.º ano. Estão prestes a tomar decisões com impacto de longo prazo sobre as suas vidas. Muitos fazem-no sem informação clara sobre que áreas têm viabilidade económica, que formações têm correspondência no mercado de trabalho, que competências o país efetivamente precisa. O sistema de orientação é insuficiente, as escolhas reproduzem hierarquias de prestígio desatualizadas e a ligação entre formação e economia raramente é explicada com transparência. O que acontecer a estes jovens é o que acontecerá ao país.
Tratar ciência, segurança, economia, defesa e desenvolvimento como áreas independentes é um dos problemas centrais do modelo português. O custo dessa separação é concreto: investimento que não chega, talento que parte, infraestruturas críticas que ficam expostas. Um país onde os contratos são cumpridos, a justiça funciona com celeridade, a burocracia não bloqueia quem quer investir e as regras têm estabilidade consegue atrair capitais e fixar talento.
O ensino superior é parte desta equação, não como fim em si mesmo, mas como infraestrutura de desenvolvimento nacional. O Atlântico voltou ao centro da competição internacional, pelos cabos submarinos, pelos recursos oceânicos, pela segurança marítima. Portugal tem uma posição geopolítica que poucos países da Europa Ocidental têm e que está longe de ser aproveitada. É o conhecimento produzido no país que pode dar conteúdo real a essa vantagem. Esta é a pergunta que o 10 de Junho devia ter feito: como é que um país com esta história, esta língua e esta posição no mundo se torna, finalmente, à altura do que tem?
O autor escreve segundo o acordo ortográfico de 1990
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