A primavera espantada

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Não convém confundir um mês quente com uma sentença. O calor deste maio não prova, por si, que cruzámos limiar nenhum — a barreira de que os cientistas falam mede-se em médias de 30 anos, não na leitura de um termómetro numa tarde. Mas também não convinha que nos refugiássemos nessa prudência estatística para não sentir nada. Mais calor é, literalmente, mais energia presa na atmosfera, e essa energia traduz-se em ondas de calor mais frequentes e imprevisíveis. O Met Office britânico calcula que uma onda de calor de maio como esta, até há pouco, era um acontecimento de um em cem anos; é hoje um em 33. A Europa aquece ao dobro da velocidade do resto do planeta: a temperatura média do continente está 2,3 graus Celsius acima da era pré-industrial, quando o limite global era de 1,5. O que arrepia não é só o número, é a velocidade: estamos a fazer em décadas o que à geologia levava milénios. Já vivemos no mundo que prometemos evitar. Este maio é uma amostra grátis do que aí vem.

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