O conceito de “Roda dos Alimentos” tem como objetivo estabelecer prioridades alimentares em termos relativos. Este é interessante porque ultrapassa a dimensão técnica sobre se certos alimentos são bons ou não, e considera que o segredo (como em quase tudo) está na dose e na adaptação às preferências e necessidades de cada pessoa.
Enquanto fisioterapeuta, este conceito é particularmente útil numa série de dimensões.
Uma das narrativas mais comuns trazidas pelos pacientes — e do qual os profissionais de saúde também têm responsabilidade, porque é algo que perpetuam — é a de que a sua dor está associada à sua postura. Não só temos dados que indicam que isto é mais complexo do que parece à primeira vista, como é relativamente simples desconstruir esta ideia. Perguntas como “há quanto tempo tem essa postura e quando é que a dor apareceu?”, “a dor não varia ao longo do tempo, sendo que a sua postura se mantém?” ou “imagine que passava o mesmo tempo que passou nessa postura, noutra postura qualquer, acha que não iria ter dores?”, permitem que o paciente reconceptualize os motivos associados à sua dor. Mas se o problema não passa então por mudar a postura, de que se trata?
Sabemos hoje que não só a diminuição de atividade física está associada a dor lombar, como o comportamento sedentário (principalmente em contexto laboral) está relacionado com o aumento de dores. E o mais curioso é que mesmo em clínica, no follow-up das questões elencadas acima, as respostas costumam ser, respetivamente: “[a dor] só aparece quando estou muito tempo em certa posição”, “alivia quando me mexo, ou tenho de alongar para me aliviar”, “sim, provavelmente [a dor] apareceria na mesma, mesmo que eventualmente demorasse mais tempo”, o que salienta o papel de se mudar de posição — e, portanto, introduzir movimento — de forma a evitar estas queixas.
Daqui percebemos que na nossa Roda dos Movimentos deve haver espaço para atividade física ao longo do dia. Isso pode acontecer através de estratégias formais, como o ginásio ou a corrida, mas também — e talvez de forma mais importante — através das tarefas do quotidiano: subir escadas, passear os animais durante mais alguns minutos ou brincar com as crianças.
Regra geral, os portugueses são bastante sedentários: dados de 2018 indicam que quase dois terços dos portugueses adultos não cumprem normas de atividade física. A recomendação parece simples: mexer-se mais. O problema é que esta mensagem, por si só, raramente produz mudanças duradouras e nem sempre responde às necessidades de cada pessoa.
Independentemente da ponta do espectro em que a intensidade da atividade física do seu trabalho estiver, a recomendação pode passar por introduzir pequenas pausas periodicamente, a que eu costumo chamar “snacks de movimento” (termo popularizado pelo fisioterapeuta britânico Ben Cormack). Para aqueles que não têm atividade física nenhuma, poderá passar pela introdução de movimento generalizado, como caminhar 5 minutos, ou exercícios mais ou menos estruturados para diversas regiões corporais; para aqueles que têm atividade física em excesso, poderá passar por escolher pequenos exercícios ou alongamentos para os músculos que aliviem as estruturas a serem utilizadas, e mobilizem as que não o estão a ser. Discuta com o seu fisioterapeuta as estratégias, e quais as janelas temporais que lhe são mais convenientes integrar no seu quotidiano.
“Mas sinto-me tão cansado ao final do dia” ou “o meu trabalho não me permite esses tempos para movimento” são argumentos legítimos e barreiras importantes à adoção de hábitos de movimento saudáveis. Neste caso, apesar do que por vezes se lê ou ouve, estar sentado não é o novo fumar.
Ter paciência e introduzir alterações na atividade física e comportamento sedentário ao longo do tempo, é altamente benéfico e abre a porta a manter esses comportamentos, sabendo que a solução para as suas dores (e a sua saúde) passará muito mais por aqui do que por outras sugestões mais comercialmente apelativas.
Disclaimer : This story is auto aggregated by a computer programme and has not been created or edited by DOWNTHENEWS. Publisher: feeds.feedburner.com






