A transformação na cousa amada

0
8

A popularidade do pelicano como símbolo surgiu dum livro grego, o Physiologus, provavelmente escrito por volta do ano 200, em Alexandria. Consistia numa compilação de histórias de animais – incluindo o pelicano – que tinha o objectivo moralizador de mostrar como o comportamento desses animais podia inspirar uma boa conduta. O Dicionário dos símbolos de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant (livro que costumava frequentar amiúde) descreve o mito, possivelmente grafado – mas não criado – pelo autor anónimo do Physiologus, do seguinte modo: «Outrora fez-se do pelicano […] um símbolo do amor paternal, sob o falso pretexto de que ele alimentava as suas crias com a sua própria carne e com o seu próprio sangue. Por esta razão, a iconografia cristã fez dele um símbolo de Cristo».

Num mundo em que a competição, em vez da cooperação, parece ser o primado, cita-se muitas vezes Darwin – que tem as costas larguíssimas – de forma mais ou menos grosseira, alegando um certo egoísmo inato, tentando com isso mostrar que a generosidade e o altruísmo são distorções da evolução e não fazem parte dela. Fala-se muitas vezes em «mais forte» em vez de «mais apto», mas mesmo esta formulação é duvidosa. Num dos últimos livros de Darwin, lemos o seguinte: «Não se deve esquecer que, embora um elevado padrão de moralidade confira pouca ou nenhuma vantagem a cada homem individual e aos seus filhos sobre os outros homens da mesma tribo, o aumento do número de homens bem dotados e a elevação do padrão de moralidade darão, certamente, uma imensa vantagem a uma tribo sobre outra. Uma tribo que inclua muitos membros que, possuindo em alto grau o espírito de patriotismo, fidelidade, obediência, coragem e simpatia, estejam sempre prontos a ajudar-se mutuamente e a sacrificarem-se pelo bem comum, seria vitoriosa sobre a maioria das outras tribos; e isto seria selecção natural. Em todos os tempos, por todo o mundo, tribos têm suplantado outras tribos; e, como a moralidade é um elemento importante no seu sucesso, o padrão de moralidade e o número de homens bem dotados tenderão, assim, por toda a parte a elevar-se e a aumentar.» Com a crescente complexidade social, este mutualismo acabou por, também ele, emergir em estruturas sociais que reflectem os desafios contemporâneos. Em momentos como aquele que vivemos, a existência de alicerces sociais sólidos serão a única coisa que pode impedir o colapso global.

A ideia de retirar algo de si para dar vida ao outro é o nosso quotidiano quando pensamos nos nossos filhos, amigos, familiares: somos pelicanos. A própria ideia de sociedade e de cultura são formas ou estruturas capazes de nutrir. O ser humano e os pilares sociais podem facilmente ser identificados com o simbolismo do pelicano. Uma rede é, pois, absolutamente necessária ao crescimento, à educação e a todos os valores a eles associados, que necessitam para florir de uma base de sustentação social que evite ou reduza a precariedade, manifestando-se na responsabilidade, no amparo e na solidariedade. A vocação, de carácter mutualista, da primeira caixa económica portuguesa, hoje Banco Montepio, é um exemplo desses. Não será por isso coincidência que esta entidade tenha adoptado a figura do pelicano como símbolo de solidariedade, reflectindo o espírito que motivou o seu aparecimento em 1844.

O símbolo do pelicano surge, assim, em inúmeros contextos: na folha de rosto das primeiras edições dos Lusíadas, deparamos com esta ave, que parece reforçar a dimensão alegórica e moral da obra. Os Lusíadas celebram não só as conquistas portuguesas, mas também, na perspectiva do autor, os seus valores espirituais e humanos (independentemente da leitura contemporânea de tudo isto). O pelicano serviria como uma metáfora visual para o esforço, sacrifício e fé dos portugueses, ou do rei ou do autor, segundo as teorias vigentes. Inclinar-me-ia, sobretudo para a última hipótese, mas acrescentarei uma outra, que me parece perfeitamente plausível. O verso «transforma-se o amador na cousa amada» pode ser iluminador. O gesto em direcção ao outro, alimenta-o, nutre-o, torna-se a sua carne, configurando uma verdadeira transubstanciação do amador na cousa amada. Coloco então a seguinte hipótese: talvez Camões pretendesse com isso dizer algo como: transformo a minha vida, o meu coração, o meu sangue em poesia (essa cousa que ele com certeza amava), e essa poesia, como as crias da mãe pelicano, será a minha ressurreição cada vez que for lida.

Disclaimer : This story is auto aggregated by a computer programme and has not been created or edited by DOWNTHENEWS. Publisher: feeds.feedburner.com