Água, ar, mar, terra: a guerra no Irão massacra o ambiente

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A chuva negra e ácida que caiu sobre Teerão, e os compostos tóxicos que contaminaram o ar na capital iraniana, em Março, após os ataques de Israel e dos Estados Unidos a vários depósitos de combustível, foi talvez o momento em que a dimensão ambiental desta guerra se tornou mais óbvia. “Foi no dia 7 de Março. As pessoas relataram-nos que imediatamente tiveram dificuldades em respirar, os olhos ficaram a arder. Todos os que podiam correram a comprar máscaras de protecção”, relatou a jornalista norte-americana Nilo Tabrizy, que conseguiu falar com cidadãos iranianos, apesar do bloqueio da Internet.

“Outra coisa que nos mostra a intersecção entre conflito e clima é que as pessoas nos contaram: Saí e não conseguia respirar. Tentei comprar um spray nasal e o custo do spray nasal tornou-se exorbitantemente caro e quase proibitivo’”, relatou Nilo Tabrizy, num seminário online organizado pelo Centro Stimson, um think tank norte-americano que se dedica a questões relacionadas com a paz global. “Isto aconteceu com tudo, desde os alimentos até aos medicamentos.”

O Irão é um regime fechado e ditatorial, e o controlo das comunicações e da Internet não é algo novo, mas foi reforçado após o início deste conflito, a 28 de Março, em que as principais figuras do regime foram mortas, mas permaneceu a estrutura dirigente. Por isso, não é fácil que as notícias saiam para fora do país. Mas sabe-se que problemas ambientais, sobretudo relacionados com a falta de água, têm estado na origem de vários protestos – e também no levantamento popular do início do ano, reprimido de forma sangrenta pelo regime.

Nilo Tabrizy, apesar disso, tem uma rede de fontes na enorme cidade de dez milhões de habitantes que é Teerão, e usou tecnologias de fonte aberta para tentar determinar onde foram filmados os poucos vídeos com chamas gigantescas e nuvens de fumo negro na origem do episódio agudo de poluição em Teerão, que deverão ter sido libertados compostos de enxofre e outros químicos tóxicos e que motivou até um alerta da Organização Mundial da Saúde. “Baseámo-nos na geolocalização por vídeo, nas imagens de satélite e na detecção remota”, explicou a jornalista.

Destruição no Líbano

“Já mais de 4000 pessoas foram mortas no Irão, no Líbano e em toda a região, incluindo Israel e países do Golfo (Bahrein, Kuwait, Omã, Qatar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos)”, salientou Merissa Khurma, natural da Jordânia e dirigente da consultora Amena Strategies. Algumas estatísticas falam mesmo em mais de seis mil mortos e 45 mil feridos.

No Irão, calcula-se que cerca de 3,2 milhões de pessoas tenham sido deslocadas internamente desde o início do conflito, e serão sobretudo fugas de zonas urbanas para áreas mais distantes das que têm sido alvo de ataques, explicou Reva Dhingra, directora adjunta do Comité Internacional de Resgate (IRC, na sigla em inglês), uma organização fundada em 1933 e começou por ajudar pessoas que fugiam da perseguição na Segunda Guerra Mundial.

Em alguns momentos, as ordens de evacuação e deslocação afectaram quase 14% do território libanês. “No Líbano, cerca de 20% da população foi forçada a abandonar as suas casas em apenas duas semanas, o que corresponde a aproximadamente 1,1 milhões de pessoas”, resume Reva Dhingra.

E 350 mil desses 1,1 milhões de pessoas são crianças. “Um estudo recente mostra que as crianças que são expostas a níveis realmente maciços de bombardeamentos sofrem traumas graves ou mostram medo relacionado com ruídos altos, problemas comportamentais. Populações já traumatizadas estão a ser ainda mais traumatizadas”, concluiu.

E estas pessoas não podem simplesmente regressar à sua vida de antes. A maioria das suas casas e infra-estruturas civis de água e electricidade, entre outras, foram completamente destruídas, sublinha Merissa Khurma, baseando-se em dados do Programa das Nações Unidas para o Ambiente.

“Este conflito teve grandes implicações de segurança ambiental e climática, e gerou impactos directos e indirectos para populações já vulneráveis”, salienta Reva Dhingra.

“Por exemplo, no Líbano, durante as últimas hostilidades, mais de 22% das terras agrícolas foram afectadas por causa da artilharia, das armas incendiárias, de munições não deflagradas e sistemas de água danificados. Segundo o Ministério da Agricultura, mais de três quartos dos agricultores do Sul do Líbano foram obrigados a suspender as suas actividades devido aos danos causados nas suas terras.

Motor de insegurança

O Irão e o Líbano, que estão a ser atacados, sofrem, sem dúvida. A dessalinizadora na ilha remota de Qeshm, no Irão, estará também sem funcionar desde meados de Março, relata a jornalista Nilo Tabrizy – um caso que ela está a tentar investigar.

Mas outros países vizinhos são incluídos também neste ciclo de dor, porque o Irão retalia. O Bahrein, por exemplo, acusa o Irão de ter causado estragos numa dessalinizadora com um ataque de drones. “Os ataques do Irão a outros países da região, para além de Israel, vão ter também impactos a longo prazo”, frisa Merissa Khurma. Por exemplo, contaminação da água potável, do solo e da agricultura com vários produtos químicos, combustíveis e metais pesados das munições usadas.

“Estamos a ver o fumo a pairar sobre as águas do Golfo, e os riscos para os ecossistemas marinhos. E isto não acontece apenas no Golfo Pérsico e no Irão, estamos a ver também danos e contaminação no Sul do Líbano”, devido aos ataques de Israel, salienta no mesmo seminário online, Nazanine Moshiri, conselheira para Clima e Paz na Fundação Berghof (Berlim, Alemanha).

Imagem de satélite mostra o que parece ser um derrame de petróleo no mar em torno da ilha de Kharg, no Irão
EUROPEAN UNION/COPERNICUS SENTINEL-2

“Os danos ambientais geram problemas de saúde pública, deslocações de pessoas, a insegurança alimentar. Como estes sistemas são partilhados, os impactos repercutem-se para além das fronteiras”, frisou Nazanine Moshiri. “O que está em causa não é apenas a degradação ambiental. Isto é uma espécie de motor da insegurança a longo prazo”, nota Nazanine Moshiri.

Falência hídrica

A seca e a escassez de água não são, de todo, um problema novo no Médio Oriente nem no Irão. “Se bem se lembram, no ano passado, o Presidente do Irão avisou os habitantes de Teerão que poderiam ter de evacuar a cidade devido a problemas de água”, recorda Nazanine Moshiri.

O Irão é o 14.º país com mais stress hídrico no mundo, segundo o think tank World Resources Institute (WRI). Até 2080, a água disponível no país deve diminuir em 11%, enquanto o consumo deve aumentar em 30% até 2050. E, nesse ano, a totalidade da população deve já estar exposta a níveis muito elevados de stress hídrico, salientou a especialista em água do WRI Liz Saccoccia (que não participou no seminário online a que o Azul assistiu).

Este desencontro entre oferta e procura dos recursos naturais está a conduzir o Irão aquilo que os especialistas da área chamam “falência hídrica”.

Os sinais dessa bancarrota já se vinham a sentir de forma muito aguda nos últimos cinco anos consecutivos de seca, e a falta de água foi um dos motivos dos protestos populares em Janeiro: em algumas províncias mais afectadas, os agricultores concentraram-se nas ruas para protestar contra a má gestão deste recurso fundamental, diz Liz Sacccoccia, numa análise do WRI. E não foram os primeiros protestos deste género, já há anos que se repetem.

Este seria sempre um problema grave, em qualquer país: mas o Irão produz a maior parte dos produtos agrícolas que consome, porque as sanções económicas internacionais a que está sujeito dificultam as importações. A culpa não é só das alterações climáticas, que como sempre não explicam tudo: más decisões tomadas durante o século XX, promovendo uma agricultura intensiva em água e a expansão industrial, sem levar em conta as limitações hidrológicas do território, estão na origem dos actuais problemas.

“Anos de subinvestimento, alguma corrupção e má gestão dos recursos hídrico” ajudam a explicar o problema, e a guerra agrava as fragilidades já existentes, salienta Nazanine Moshiri. “A guerra actual tornou as coisas dez vezes piores, mas os problemas têm origens em questões de governação a longo prazo, extracção excessiva, falta de solidez das instituições”, afirmou. “A água, a saúde pública, a protecção do ambiente, são preocupações de que os iranianos falam há anos, se não há décadas”, diz Nazanine Moshiri, que é britânica e iraniana.

“O pressuposto de que quando se abre uma torneira, vai sair água, não é a realidade para as pessoas que vivem na nossa região”, comenta o israelita Gidon Bromberg, director do braço israelita da organização não-governamental EcoPeace, que junta ainda ambientalistas jordanos e palestinianos.

“A crise climática gera uma verdadeira animosidade. No conflito israelo-árabe, a água é, infelizmente, uma questão de ódio. Em vários políticos vemos ignorância básica e falta de informação que levam a transformar a questão da água num jogo de culpas que não tem a realidade por trás”, afirmou Bromberg, também no seminário online.

Ecocídio, uma palavra nova

Anteriormente, Moshiri foi jornalista e cobriu o início da guerra na Ucrânia, em 2014, o início da invasão russa dos territórios no Leste, e os primeiros problemas ambientais graves causados por esse conflito. “Nessa altura, ninguém falava dos impactos ambientais. Julgo que foi no conflito mais recente, a partir de 2022, que começámos a analisar os custos ambientais da guerra na Ucrânia, porque são muito mais visíveis, porque estamos a utilizar a detecção remota e satélites para documentar o que se passa”, sublinhou.

A informação mudou, e as palavras para descrever os efeitos da guerra também. “Estão a ser usados termos como ecocídio. A ministra libanesa do Ambiente publicou recentemente um relatório que acusa os militares israelitas de terem cometido um acto de ecocídio durante a invasão de 2023 a 2024. “É um relatório substancial, de mais de 100 páginas que descreve como o Sul do Líbano sofreu uma perturbação ecológica profunda e a perda de serviços essenciais do ecossistema”, explica Nazanine Moshiri.

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