“Alguém viu o meu irmão?” Uma noite a tratar vítimas em larga escala num hospital no Líbano

0
1

Estava no Hospital Universitário Rafik Hariri, em Beirute, quando o bombardeamento começou.

Era um momento normal – até deixar de o ser. De repente, fumo branco e poeira envolveram o espaço. Durante alguns minutos, ninguém percebeu o que estava a acontecer. Depois começaram a chegar as ambulâncias.

E não pararam.

Os primeiros pacientes chegaram com traumatismos cranianos graves, com fragmentos de vidro, metal e detritos cravados no corpo. Muitos estavam inconscientes. Alguns morreram pouco depois de dar entrada. Não havia tempo para processar – apenas para agir, responder, tentar salvar-lhes a vida.

Rapidamente, a sala de urgências encheu-se de pessoas à procura de familiares. Pais feridos chamavam pelos filhos feridos. Famílias chegavam com fotografias de crianças, perguntando se alguém as tinha visto – talvez ainda debaixo dos escombros, talvez levadas para outro lugar.

Eu tentava estancar a hemorragia de um homem que tinha chegado com um traumatismo craniano grave e estilhaços no abdómen, quando um jovem se aproximou de mim com um telemóvel na mão, mostrando-me a fotografia do irmão. Perguntou se eu me tinha deparado com ele. Não tinha resposta, mas tentei procurá-lo em várias salas e vários rostos, enquanto o nosso médico de urgência ajudava a ligar feridas e a estabilizar o meu paciente.

Passaram-se horas, mas pareceram anos. Os casos continuavam a chegar – tantos, e tantos em estado crítico. A certa altura, quase quatro horas depois de os bombardeamentos terem começado, cerca de 20 ambulâncias chegaram ao mesmo tempo. Cinquenta pessoas lá dentro, todas já sem vida.

Houve um jovem que nunca conseguirei esquecer. Tinha perdido ambas as pernas e tinha um pedaço de detrito alojado no abdómen. Ainda consigo ouvir os gritos do irmão. Fizemos tudo o que podíamos para o estabilizar, controlar a hemorragia, suturar. Mas perdemo-lo.

A sala de urgências estava completamente sobrecarregada. Dei por mim a correr ao lado da equipa do hospital – exausta, mas determinada – de um paciente para outro, de um corredor para outro, tentando acompanhar a dimensão avassaladora das necessidades com recursos limitados.

Apesar de tudo, começaram a chegar cada vez mais médicos. A Ordem dos Médicos lançara um apelo de apoio a todos os hospitais, e especialistas chegaram em vagas prontos para ajudar, num gesto de solidariedade impressionante. Mas, nas urgências, os materiais disponíveis esgotavam-se rapidamente, as macas estavam ocupadas e demasiados pacientes chegavam em estado crítico ou já mortos.

O que vimos naquele dia não foi apenas uma emergência médica. Foi o impacto directo de ataques sobre civis: sobre áreas residenciais, sobre famílias, sobre crianças, sobre pessoas que, apenas horas antes, viviam uma vida normal.

A equipa hospitalar fez tudo o que podia, aqui e em todo o Líbano, enquanto outros hospitais enfrentavam influxos maciços semelhantes. Vi uma dedicação extraordinária no Hospital Rafik Hariri: pessoas a irem além da exaustão para cuidar dos outros. Mas dedicação, por si só, não é suficiente numa situação com múltiplas vítimas.

Enquanto Médicos Sem Fronteiras, estamos a apoiar hospitais e a responder onde podemos, mas o que este dia nos mostrou de forma clara é a urgência absoluta de proteger os civis.

Disclaimer : This story is auto aggregated by a computer programme and has not been created or edited by DOWNTHENEWS. Publisher: feeds.feedburner.com