Após cirurgia bariátrica, brasileira em Portugal afirma: “Nasci de novo”

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Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que cerca de 3,7 milhões de pessoas morrem todos os anos em decorrência da obesidade – aproximadamente 10 mil por dia. Considerada uma doença crônica, sem cura, mas com tratamento, a patologia ganha mais holofotes neste sábado, 23 de maio, quando é celebrado em Portugal o Dia Nacional de Luta Contra a Obesidade. A história de Larisa Janusci Ribeiro, de 35 anos, ilustra os impactos físicos e emocionais da doença e os efeitos da mudança de vida após a cirurgia bariátrica. Há quase dois anos, ela passou pelo procedimento e já perdeu mais de 50 quilos. “Eu senti que renasci”, celebra.

A obesidade é apontada pela OMS como o acúmulo excessivo ou anormal de gordura corporal. A pessoa é considerada obesa quando seu Índice de Massa Corporal (IMC) é igual ou superior a 30kg/m2. O IMC é a divisão do peso, em quilos, pela altura, em metros ao quadrado. No caso de Larisa, filha de mãe brasileira e pai sérvio criado na Suíça, ela nasceu em território suíço, mas viveu a maior parte da vida no interior da Bahia, na cidade de Santo Antônio de Jesus. Nos últimos meses antes de se mudar para Portugal, em 2018, morou em Salvador, cidade natal do marido. Em Portugal, viveu inicialmente em Póvoa de Varzim e, em 2024, mudou-se para o concelho da Trofa, ambos no distrito do Porto.

Formada em Nutrição no Brasil, ela conta que a escolha pela graduação teve relação direta com o histórico de obesidade. Apesar disso, não chegou a atuar muito na área. Depois, passou a se interessar por gastronomia, especialmente pela pastelaria e confeitaria, setor que a trouxe inicialmente para Portugal. Atualmente, após uma reviravolta profissional, trabalha em uma empresa de logística, onde atua como supervisora da área alfandegária.

Larisa relata que convive com o sobrepeso “desde que se entende por gente”. Durante a adolescência cresceu em altura, mas aos 18 anos ganhou peso de forma significativa. Ao longo dos anos, tentou diversos métodos para emagrecer, com acompanhamento profissional, dietas e atividade física. Em muitos momentos conseguia perder peso, mas acabava recuperando os quilos perdidos. “Eu sempre dizia que a cirurgia bariátrica seria minha última opção. Eu tinha uma opinião muito contrária a este procedimento”, conta.

Ela lembra que chegou a desencorajar uma amiga que decidiu fazer a cirurgia. “Que bom que ela não me escutou”, lembra. Durante a faculdade de Nutrição, acreditava que estudar sobre o assunto poderia ajudá-la a lidar com a própria obesidade, mas afirma que a experiência teve impacto emocional negativo. “Psicologicamente não foi um bom negócio, pois eu me sentia culpada por ser obesa”, afirma.

Mesmo após ver a mãe realizar a cirurgia bariátrica na Suíça, em 2017, e a melhor amiga passar pelo mesmo procedimento alguns anos depois, Larisa continuava resistente à ideia. Ela buscava alternativas em consultas com nutricionistas, endocrinologistas e personal trainers, mas o peso sempre voltava, segundo conta.

Quase 150 quilos

Em 2023, Larisa chegou ao maior peso da sua vida: 146,6 quilos para 1,69 metros de altura. Os exames já apontavam sinais de alerta, como alterações na glicemia. Procurou atendimento endocrinológico e iniciou tratamento com medicamento para ansiedade e controle de peso. O resultado inicial foi positivo, mas temporário. Posteriormente, ao consultar um psiquiatra para avaliar a continuidade da medicação, ouviu algo que mudaria sua percepção sobre a cirurgia bariátrica.

“Esse médico abriu meus olhos na direção de que a cirurgia bariátrica não deveria ser a última opção. Eu saí de lá com a missão de pesquisar sobre essa cirurgia e, já no início de 2024, pensei que já havia tentado tantas coisas, por tantos anos, e sentia um atraso na minha vida no sentido de que deixei de fazer muitas coisas, viagens que deixei de realizar, por pensar a forma como a obesidade me atrapalhava. À medida que o tempo que passava, eu sentia que aquilo me atrapalhava mais ainda”, destaca.

O médico Gil Faria, especialista em cirurgia geral, bariátrica e metabólica e professor da Universidade do Porto: responsável pela cirurgia que ajudou a mudar a vida de Larisa
Arquivo Pessoal

Por meio de um hospital em Trofa, ela voltou ao acompanhamento endocrinológico e iniciou um tratamento com canetas de emagrecimento. Segundo Larisa, a própria médica explicou que, a longo prazo, a cirurgia bariátrica poderia ser mais vantajosa, inclusive financeiramente.

Na primeira consulta com o cirurgião Gil Faria, em maio de 2024, ela procurou entender detalhadamente o funcionamento da intervenção, a rotina pós-operatória e a equipe multidisciplinar envolvida no tratamento. Saiu do consultório com uma lista de exames e a responsabilidade de tomar a decisão final. “Um dia, depois de pesquisar muito, virei uma chave e decidi fazer a cirurgia bariátrica. Uns dois meses depois dessa consulta enviei uma mensagem ao dr. Gil: ‘ok, vamos fazer’”.

Um divisor de águas

A cirurgia foi realizada em setembro de 2024. Antes do procedimento, com auxílio da medicação, ela reduziu o peso para 138,2 quilos. Hoje está com 85 quilos e afirma que ainda pretende emagrecer mais, mas considera a mudança já transformadora. “Não tenho como descrever a melhora na qualidade de vida: sinto que a alegria de viver voltou. Oportunidades perdidas, coisas que eu deixava de fazer, o atraso que eu sentia, tudo isso acabou. Havia os danos físicos para a saúde mas também os psicológicos. Eu senti que renasci. Não foi fácil, é preciso muita dedicação e de todo um acompanhamento. Não é porque fez a cirurgia que surge uma garantia de que vai melhorar a sua vida. É um compromisso e a decisão que tomei foi um divisor de águas”, detalha.

Ela afirma que pequenas situações do cotidiano passaram a ter outro significado após a perda de mais de 50 quilos. “Além do número da balança ser menor, são pequenas vitórias que tenho tido: a roupa que compro e que cabe em mim, subir e descer escadas sem me cansar, poder amarrar os sapatos sem ajuda de ninguém, ir a restaurantes e não me preocupar com as cadeiras em que iria sentar. Moro em uma casa de dois andares e evitava de subir a todo custo. Hoje em dia, subo e desço o tempo todo. Meu ânimo e disposição estão muito melhores, meu sono, enfim tudo mudou para melhor”.

Depois da cirurgia, ela também iniciou acompanhamento psicológico, que mantém até hoje. Segundo Larisa, o tratamento exige disciplina contínua, apoio familiar e acompanhamento médico permanente. Ela destaca o suporte recebido da mãe, do marido e da equipe de saúde durante todo o processo.

Obesidade não é falha moral, diz especialista

O médico Gil Faria, especialista em cirurgia geral, bariátrica e metabólica e professor da Universidade do Porto foi o responsável pela cirurgia que ajudou a mudar a vida de Larisa. Ele afirma que o caso dela é semelhante ao de muitos pacientes diagnosticados com obesidade grave. Segundo o médico, a ciência já demonstrou que a obesidade não pode ser tratada como falha moral ou falta de disciplina.

“Hoje em dia a ciência já nos mostrou que não existe cura mas, felizmente, existe tratamento que é para ser mantido ao longo da vida. É um tratamento vai que vai alterar o funcionamento dos hormônios do organismo, produzidos em nível intestinal, que vão regular a fome, o apetite e o equilíbrio de energia. E isso vai permitir reprogramar o metabolismo”, diz Faria, que faz 30 dessas cirurgias por mês. Ele conta que o empenho de Larisa no tratamento, o cumprimento da dieta e do plano de exercícios físicos, e nesse caso, a cirurgia, estão contribuindo para que ela tenha uma vida mais saudável.

E ressalta que fatores genéticos têm forte influência sobre o desenvolvimento da doença. Segundo o especialista, cerca de 80% do peso corporal possui relação genética. Há ainda fatores ligados ao sedentarismo, à alimentação inadequada e ao consumo frequente de alimentos ultraprocessados. Faria também alerta para o aumento dos casos entre jovens e crianças. Atualmente, segundo ele, entre 15% e 16% dos jovens já apresentam obesidade, em Portugal.

De acordo com estudo publicado na revista Nature, nos países mais desenvolvidos, o número de pessoas obesas vem sendo controlado e mesmo diminuído, enquanto em nações mais pobres há mais pessoas com diagnóstico de obesidade. Quanto a isso, Faria aponta que nos países mais desenvolvidos a obesidade é uma doença com maior incidência nas pessoas com menos recursos financeiros, por terem menos condições de comprar alimentos frescos, menos tempo para preparar estes alimentos, e estarem mais suscetíveis a comprar alimentos ultraprocessados, que são baratos.

Impacto na qualidade de vida

Essas pessoas, diz ainda, também têm menos tempo para atividades físicas. Nos estratos mais altos da sociedade, por outro lado, as pessoas já têm mais consciência de que é necessário alterar o estilo de vida para um perfil mais saudável e maior disponibilidade também muitas vezes para alterar o estilo de vida alimentar. E o mesmo, ele reforça, pode-se dizer dos países em vias de desenvolvimento, que rapidamente passaram de um quadro de falta de alimentos – a subnutrição – para o extremo oposto que é a obesidade, pois os alimentos mais calóricos, diz ele, são os mais baratos.

“Por estes motivos as populações com maiores carências sócio-econômicas acabam por ter taxas de obesidade mais elevadas”, observa o médico. E complementa: “a exemplo de algumas ilhas do Pacífico, do México, dos Emirados Árabes Unidos, que por muitos anos foram pobres, a maior parte da população tinha carência alimentar e desenvolveu mecanismos de compensação para conseguir sobreviver com pouca comida”.

Além do impacto na qualidade de vida, a obesidade está associada a doenças cardiovasculares, respiratórias, diabetes, acidentes vasculares cerebrais, problemas ortopédicos, transtornos psiquiátricos e mais de 12 tipos de câncer, conforme afirma o especialista.

“É sempre muito importante comemorarmos o Dia da Luta Contra a Obesidade por ele servir de alerta. A obesidade é uma doença e, infelizmente, ainda há muito estigma social e preconceito de que é apenas mau comportamento nas escolhas de vida. É importante que nesse dia consigamos passar esta mensagem, de que a obesidade merece tratamento. Esse tratamento não passa só por dieta e fazer exercícios físicos e, hoje em dia, para tratá-la, há medicamentos e cirurgia para os casos mais graves”, enfatiza o especialista.

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