As conferências não nos vão salvar

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Terminou no dia de 29 abril a Conferência de Santa Marta para o Abandono dos Combustíveis Fósseis, co-organizada pelos governos da Colômbia e dos Países Baixos. Apesar de ser um esforço importante por parte da Colômbia no diálogo com a sociedade civil e no avanço de uma agenda contra os combustíveis fósseis, e com alguns avanços no que toca principalmente ao estabelecimento de mecanismos de apoio académicos e científicos ao desenho de roteiros (roadmaps) para eliminar os combustíveis fósseis, ainda assim os resultados ficam aquém das necessidades.

Num mundo a arder, em que as guerras, os genocídios e as agressões dos impérios escalam sem precedentes, o grande resultado que saiu da conferência foi… uma nova conferência.

Porque é que não devemos depositar as nossas esperanças de saída dos combustíveis fósseis e do travar do inferno climático em espaços liderados por estes governos?

Aquando da sua convocatória, no final da COP30, em Belém, a conferência tinha causado algum entusiasmo. É de facto interessante e importante o esforço por parte do governo da Colômbia de colocar os combustíveis fósseis como o foco principal da agenda, uma vez que, contra todas as diligências das empresas fósseis, sabemos que é o cerne da crise climática. No entanto, rapidamente ficou claro que não deveríamos depositar todas as nossas esperanças em Santa Marta.

Em primeiro lugar, a ambição era baixa desde o início: a conferência foi apresentada como um espaço não alternativo às negociações à ONU, mas sim complementar — não desafiando, portanto, de nenhuma forma a inércia da estrutura da COP, cúmplice dos maiores criminosos climáticos do mundo. Além disso, seria apenas para preparar terreno para eventualmente se negociar um Tratado de Não Proliferação de Combustíveis Fósseis no arquipélago de Tuvalu em 2027. No entanto, a referência a este tratado não apareceu nas declarações finais oficiais, pelo que fica em aberto quais os objetivos concretos da segunda conferência e como é que nos vai colocar um passo à frente na transição energética justa.

Outro ponto importante é que foram anunciados mecanismos de apoio à criação de roadmaps (voluntários) para a transição de cada país, mas não constam nos documentos nenhuma referência a quando é que cada país tem de eliminar os combustíveis fósseis, pelo que vários planos de neutralidade carbónica ficaram sem ser desafiados.

Além disso, apesar de excluir os Estados Unidos, a conferência envolveu países cujos governos actuam ativamente contra a transição e cujos interesses são dúbios, desde já a co-organização com os Países Baixos mas também a presença dos governos do Reino Unido ou a Alemanha. Países como estes estão ativamente a defender políticas que procuram explorar ainda mais combustíveis fósseis. O Reino Unido quer abrir novas licenças para exploração no Mar do Norte; e o plano climático da Alemanha, um dos países mais responsáveis historicamente pela crise climática, é a neutralidade até 2045, quando deveria ser até 2030 para contribuir de forma adequada para a meta de 1,5°C.

Do mesmo modo, alguns destes governos são atores ativos na perpetuação de guerras por petróleo no Médio Oriente sob a máscara da democracia, assim como na implementação de políticas desumanas e sanguinárias em relação aos milhares de migrantes que tentam chegar à Europa na busca por uma vida melhor — já para não falar do apoio incondicional a Israel e ao genocídio na Palestina.

Como poderiam então estar sentados à mesa de uma conferência que, supostamente, buscaria planear o fim dos combustíveis fósseis de forma justa e com respeito aos povos do mundo, rumo a um mundo melhor de buen vivir?

Tomemos um momento para digerir estas informações: em pleno 2026, depois de 2025 ter sido o ano mais quente desde que há registo, depois de milhões de pessoas terem perdido as suas casas e morrido devido à crise climática — e Portugal não sendo exceção — o plano para acabar com os combustíveis fósseis é adiar o plano? Um ano não é abstrato. Cada minuto que perdemos e em que não fechamos a torneira aos combustíveis fósseis são milhares de migrantes que se afogam no Mediterrâneo, milhares que perdem as suas casas em cheias e tempestades, milhares que passam fome devido à seca.

Um processo de transição vem de baixo — da sociedade civil, dos sindicatos, dos estudantes, das comunidades e bairros afetados pela crise climática, das pessoas comuns — num exercício de estratégia e solidariedade global articulado pelos povos, excluindo os governos e as empresas que lucram com as guerras contra a vida. É aqui que devemos depositar as nossas esperanças, na força dos movimentos (muitos deles presentes em Santa Marta) para tudo mudar.

No Norte Global — Portugal incluído —, isto significa lutarmos pelo Fim ao Fóssil até 2030 e por reparações históricas para o Sul Global, de forma a conseguirmos cortar emissões com respeito aos parâmetros de justiça climática global. Devemos também apoiar as lutas e agendas dos movimentos colombianos, que exigem uma transição energética justa, soberana e popular, defendendo as empresas energéticas públicas colombianas.

Não é hora de entrar em luto pelo futuro, mas sim de lutarmos em conjunto. O futuro ainda não está escrito na pedra. Seremos nós a decidir se vamos deixar que os governos e as empresas continuem a sua guerra contra a Humanidade, ou se iremos puxar o travão de emergência e construir uma vida melhor para todos.

A autora escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990

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