Os artigos da equipa do PÚBLICO Brasil são escritos na variante da língua portuguesa usada no Brasil.
Acesso gratuito: descarregue a aplicação PÚBLICO Brasil em Android ou iOS.
No Rio de Janeiro, uma adolescente de 17 anos denunciou ter sido vítima de estupro coletivo perpetrado por cinco indivíduos, quatro adultos e um menor de idade, no dia 31 de janeiro deste ano, no famoso bairro de Copacabana. Ao longo do início de março, os quatro adultos foram presos e o menor, apreendido. O caso gerou forte repercussão pública, levou à abertura de procedimentos disciplinares em instituições vinculadas a alguns investigados.
O tradicional Colégio Pedro II abriu procedimento disciplinar para o desligamento de estudantes associados ao caso e o pai de um dos indiciados foi exonerado do cargo público que ocupava. O ocorrido motivou a apuração de novas denúncias relacionadas ao mesmo grupo. Além, é claro, de muita repercussão nas mídias sociais.
Mais recentemente, em abril, noticia-se que em Loures, distrito de Lisboa, quatro jovens, com idades entre 18 e 21 anos, estão sendo acusados de violar uma adolescente de 16 anos e de partilhar vídeos do episódio nas redes sociais. O caso começou a ser julgado em 13 de abril.
Segundo ao menos um dos arguidos, tudo teria sido consensual, o que é desmentido pela adolescente, que afirma ter sido coagida e abusada. Assim, o núcleo factual confirmado é a existência do processo, da acusação e do julgamento; o desfecho ainda depende de decisão judicial.
Os dois casos apresentam uma semelhança central: a violência sexual praticada em grupo contra vítimas jovens. Os dois casos se aproximam pela gravidade e pela estrutura coletiva da violência e pela forte repercussão midiática, mas se diferenciam no grau de informação pública consolidada e no estágio em que aparecem narrados pela imprensa.
Aproximam-se também pelos muitos sinais de que a culpabilização da vítima é um horizonte cultural presente. Isso aparece pelo modo como os textos jornalísticos e institucionais tratam o tema. Emerge nos comentários nas redes sociais. Aparece no que se diz e no que não se diz, mesmo que não tenhamos a intenção de o dizer ou de o calar.
Miguel Manso
Nesse sentido, foi memorável o caso ocorrido com a apresentadora Cristina Ferreira, do programa “Dois às 10”, em 14 de abril de 2026. A conhecida apresentadora formulou a questão do consentimento nestes termos: “Mesmo que ela tenha dito para parar quando são quatro e estão naquela de estar a fazer sexo com uma rapariga, alguém ouve (é claro que tem que ouvir) alguém entende aquele ‘não quero mais’?”.
O problema aí, como apontaram as críticas, é que o foco escorrega da responsabilidade de quem agride para a suposta dificuldade de se perceber o “não” da vítima. A fala foi lida por movimentos e especialistas como uma formulação que introduz ambiguidade sobre o consentimento, relativiza a recusa verbal e pode favorecer culpabilização da vítima e desresponsabilização do agressor. E isso mesmo semeando as trocas de fala no programa com intercalados “não querendo justificar nada”.
Peso das palavras
As palavras, mal saem da boca ou caem no papel, começam a deixar de ser nossas. Ganham mundo, memórias, ecos inesperados. Quando eu era pequeno, já sabia que “tudo vale a pena quando a alma não é pequena” muito antes de saber que aquilo vinha de Fernando Pessoa. O verso vivia por si.
Talvez seja sempre assim: entre o que dizemos e o que queríamos realmente dizer abre-se, tantas vezes, uma distância árida e difícil de atravessar. Dentro de nós, tudo parecia nítido; dito em voz alta, porém, o sentido se embaralha, chega torto ao outro, e aquilo que era claro por dentro torna-se quase irreconhecível por fora.
Os enunciados não permanecem sob domínio pleno de seus autores, pois os sentidos circulam historicamente e se reconstroem em diferentes contextos de recepção. Dizer que não se quer justificar nada, não garante que não se esteja a, exatamente, justificar o que se diz não querer. Até porque se previa o risco, senão teria dominado o silêncio.
A linguagem não opera como instrumento transparente entre intenção e compreensão: há um desnível constitutivo entre o querer dizer, o dizer e o ser entendido. Assim, a incompreensão não deve ser vista apenas como acidente da comunicação, mas como efeito da própria natureza polissêmica, histórica e social da linguagem.
Mais força tem este pensamento quanto mais repercussão tiver aquilo que dissermos e onde o dizemos. A emissora afirma que as palavras de Cristina foram descontextualizadas, o que não parece corresponder aos fatos do próprio programa. Outros dizem algo do tipo “muito barulho por nada”.
Nós somos seres cindidos, fragmentados e contraditórios. Já São Paulo falava sobre isso em suas epístolas. Essa fragmentação que nos escondemos sob o manto — por vezes, inocente — da ideia de que “nossa personalidade” e “somos assim”, tem reflexos tanto individuais como sociais.
Ou seja, não sou somente eu que me apanho por vezes correndo o risco de me contradizer, de trair-me a mim mesmo naquilo que penso e digo. Na sociedade ocorre o mesmo fenômeno. Dessa cisão emergem pontos de vista conflitantes sobre o que é ser homem e ser mulher e que convivem juntos no mesmo caldo cultural.
Machismo fala alto
A masculinidade hegemônica atribui ao homem o direito ao domínio, a virilidade como espaço para o poder e a dificuldade de reconhecer limites. A violência é não apenas naturalizada, como erotizada. É algo visível em qualquer cenário tanto em Copacabana quanto em Loures.
A essa visão de ser homem, opõe-se a masculinidade ética, relacional e responsável. O homem é visto como sujeito capaz de autocontrole, escuta, reconhecimento do outro, respeito ao consentimento. Essa percepção recusa a lógica de grupo que transforma sexo em demonstração de poder.
Querendo ou não, a fala de Cristina Ferreira evidencia e fortalece o discurso da masculinidade hegemônica porque, ao perguntar se, naquela “adrenalina”, alguém “entende” o “não quero mais”, o discurso desloca o problema. Em vez de afirmar que o homem tem de ouvir e parar, a formulação passa a quase discutir a dificuldade masculina de perceber o limite, fortalecendo a ideia de que é natural não parar.
A fala, em qualquer contexto, sem dizer que a vítima seja culpada, protege simbolicamente um modelo de masculinidade que se imagina impulsiva demais para responder eticamente ao consentimento. E que, indo além, grava vídeos e os coloca nas redes sociais.
Minha avozinha dizia que, de sua sabedoria construída nas aldeias que “temos de pensar duas vezes antes de falar” e acrescentava “e, olha que às vezes temos de pensar é três ou quatro vezes”. Sábia mulher de outros tempos, que tecia muitas peças de crochê e tricô.
Ela sabia que um ponto mal dado, estraga todo o trabalho. Por isso, sim, temos de pensar no que dizemos com a mesma veemência como nos colocamos contra o que destrói a ética da nossa sociedade, seja no Brasil ou em Portugal.
Disclaimer : This story is auto aggregated by a computer programme and has not been created or edited by DOWNTHENEWS. Publisher: feeds.feedburner.com






