As mães preferem sofrer pelos filhos

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Não escrevo sobre a notícia aterradora, viral nos últimos dias, das duas crianças encontradas no meio do mato, alegadamente vendadas pela mãe, que viajou milhares de quilómetros para as abandonar nas nossas estradas, é uma atrocidade demasiado contra natura.

A antítese de ser mãe.

Paralelamente, vivencio hoje o lado de lá da minha profissão, pediatra, cuidadora dos filhos de outras mães, conselheira, tranquilizadora dos corações aflitos, dentro das minhas possibilidades, nos momentos de doença.

Com três filhos já crescidos, sempre compreendi muito bem a dor de mãe, que é muito pior do que a dos filhos porque preferíamos ser nós a sofrer.

Ultrapassei os momentos que foram surgindo, como qualquer mãe, com a aparente facilidade acrescida por perceber de doenças infantis a passar-me rasteiras, a gerar ‘e ses’, em várias alturas que os mediquei sozinha, segura do que fazia racionalmente, mas com o coração de mãe emocionalmente inseguro.

Uma mãe é capaz de tudo pelo seu filho, e ganha forças que desconhece ter, nos momentos em que ele mais precisa. (Abandona-os, cruel, sem comer e sem beber, entregues à sua sorte, como ouço nas notícias? Não pode ser.)

Hoje, depois de uma noite passada num cadeirão de hospital, ao lado do meu filho mais novo, aprendi mais uma lição sobre a nossa capacidade infinita de sermos mães: gerir a ansiedade que não se explica, de respirar e estar consciente enquanto o nosso filho passa horas que parecem não passar, inconsciente numa mesa de cirurgia.

Na véspera, de sorriso sempre presente por fora e a lágrima presa por dentro, a responder com tranquilidade e assertivamente, mesmo sem saber as respostas, e a mentir, porque ninguém tem certezas absolutas se uma cirurgia vai correr bem, só Deus.

No dia da cirurgia, com tudo já organizado, desmoronar por dentro com o telefonema logo cedo, o bloco cheio de cirurgias de traumas de doentes internados, provavelmente a do meu filho a ser adiada, mas pode não ser.

Com o meu filho ainda sem saber e a dormir, relembrei mais uma lição de chorar rapidamente para ele não ver (nessa já sou doutorada, porque são três filhos). À hora de acordar para a suposta cirurgia, consegui dizer-lhe serenamente (por dentro a ferver) que podia não ser feita, mas para termos calma (O que é isso? E que tipo de calma se sente ao abandonar um filho no meio do nada?).

Uma mãe é capaz de esperar, mesmo se a impaciência é o seu nome do meio.

Com o joelho “avariado” pelo futebol e a um mês dos exames nacionais do secundário, atrasar mais esta artroscopia complicada ia dificultar muito o ano escolar e a ida para a faculdade, porque a recuperação é penosa.

Queria ser eu com dores, com exames, mas é o meu filho. Dói-me muito e não posso estudar por ele, e não posso trocar com ele a capacidade de correr e de aproveitar os meses de Verão “ao máximo” como ele tinha planeado.

Uma mãe não é capaz de trocar a vez de sofrer pela do seu filho. Não é capaz de mudar marcações de cirurgias. Mas é capaz de rezar, acreditar sempre e nunca desistir.

Felizmente, com a ajuda de Deus e com alguma sorte, a cirurgia aconteceu no final do dia.

Aprendi a esperar que os médicos me viessem dizer como correu. Ou antes: vivi o momento.

Esse, e o de esperar enquanto um filho é operado, percebi que não se aprende nunca, porque ninguém aprende a respirar sem respirar, numa apneia em que os nossos sinais vitais funcionam mas não parece.

Mas fui capaz, e isso, acreditem, uma mãe é capaz de fazer. E de estar a dormir acordada no cadeirão ao lado dele, naquele estado de alerta dormente que se vive quando o filho é recém-nascido…

Atenta totalmente às suas necessidades, quase como se as nossas não existissem, um filho internado é de novo um recém-nascido, é o que sinto agora, depois de uma noite quase branca, o meu menino quase homem já acordou e sorriu, o caminho é longo mas ele vai ser capaz porque eu vou apoiá-lo, sempre.

Vou sair da enfermaria agradecida às boas almas que cruzaram o meu caminho nesta incursão hospitalar; sim, existem boas pessoas, que souberam lidar com o meu filho, auxiliares, enfermeiras, colegas, existe humanidade no SNS.

Incrédula perante a notícia que passava ininterruptamente nos ecrãs da sala de espera do bloco, crianças rejeitadas por alguém supostamente “mãe”, prefiro não acompanhar mais o sucedido, e dedicar-me o melhor que puder nos próximos tempos a ajudar o meu rapaz a recuperar da lesão do futebol, uma das coisas que mais prazer lhe dá, desde que aprendeu a chutar uma bola, e que daqui a uns meses vai voltar a fazer, porque Deus vai querer.

E escrevi estas linhas ainda no internamento, para deixar uma mensagem de esperança às mães que, neste momento, estão em vésperas da cirurgia: uma mãe é capaz de tudo pelo seu filho.

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