Ao longo da costa norte da ilha de São Miguel, nos Açores, toneladas de cocaína deram à costa como se de um milagre de peixe se tratasse. Onde uns viram um desastre, outros viram uma oportunidade. Rabo de Peixe, a série, sublinho, faz-me pensar em como os projetos de vida se formam continuamente a partir de um conjunto de circunstâncias, experiências e perceções.
Como investigadora na área da migração, a formação das aspirações é a questão que intriga e ocupa diariamente a minha mente. Ora, numa conjuntura em que a pobreza se destaca e o sonho americano é um continuum intergeracional que trará riqueza e oportunidade às vidas de quem apenas leu o que poderá ser seu, aquando de um milagre que se sucede, justificações divinas dão lugar a um desejo que deixa de ter limites para se tornar alcançável.
O paradoxo da pobreza é uma realidade mais do que verificada pelos estudos migratórios, em que, apesar do desejo ou, se queremos ser teóricos, da aspiração a migrar ser amplamente e grandemente pretendida, as capacidades para concretizar tal aspiração são mínimas, o que resulta, na maioria das vezes, numa imobilidade involuntária. Ao invés do que se poderá propagar politicamente, a população mais empobrecida, apesar de deter o ínfimo desejo de migrar além das fronteiras, é a que menos poderá fazê-lo dada a falta de capacidades, maioritariamente materiais, para passar da aspiração à ação.
As aspirações são governadas e continuamente moldadas por um conjunto de características e experiências a que um indivíduo tem acesso. O mesmo se aplica às aspirações migratórias. Dois indivíduos numa mesma conjuntura podem aspirar a versões de vida diferentes.
Olhemos para a série. A droga dá à costa, Eduardo, interpretado por José Condessa, vê a oportunidade de chegar ao seu sonho americano, transforma-se num sujeito empreendedor aos seus olhos e utiliza a mesma como meio para o seu fim: rumar à América e ser grande, ser tudo o que o seu pai e a sua mãe não foram, por eles e para eles. Sílvia, interpretada por Helena Caldeira, vê-se perdida num limbo entre a pressão social dos seus pares próximos em querer mais e alcançar o American Dream, e o aspirar a querer mais na sua terra de origem, a querer uma família no local onde tem as suas raízes e ali permanecer, continuando a aspirar.
De facto, é possível observar que diferentes níveis influenciam a ambição de um indivíduo. Identificamos, assim, barreiras e influências ao nível formal e governamental, o querer ir e não ter um passaporte ou um visto aprovado por um outro Estado; a nível social o querer ir mas ter a responsabilidade de cuidar de um parente próximo ou o não querer ir por sentir uma afinidade ao território que o viu crescer ou até o querer ir porque assim é a vontade de Deus e, ao nível individual, o querer ir porque se perceciona como um sujeito mais livre se não estiver preso às suas raízes; o querer ir mas não conseguir por ser indesejado na terra que aspira.
O indivíduo aspira e a sua aspiração pode tanto refletir-se em mobilidade como em imobilidade e, ainda que se percecione, na sua maioria das vezes, a governação nas práticas e políticas da mobilidade, a invisibilidade da governança da imobilidade é algo a ter em conta no processo de análise das políticas e práticas referentes à migração.
A governança da imobilidade começa nas aspirações quando um indivíduo ambiciona migrar, mas as suas imaginações de futuro são limitadas por um conjunto de constrangimentos formais que se percecionam de diferentes formas e feitios no decorrer da vida de um indivíduo. Ou seja, além de as aspirações serem espacialmente e socialmente situadas, elas são também legalmente governadas se pensarmos na maneira como o direito nos guia e na forma como o vivemos, diariamente e continuamente.
O direito, a religião e as subjetividades íntimas são vertentes que exploram as nossas perceções ao longo das nossas trajetórias de vida e definem o que, muitas vezes, quereremos ou não queremos e, posteriormente, o que é, de facto, alcançável ou não. O conjunto destes regimes que governam o nosso quotidiano, seja um governar que vem de cima, entre pares ou de dentro, forma as nossas imaginações de futuro em torno do que é realmente concretizável e de como o desejável passa a ser acionável.
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