Hoje em dia, encara-se com leveza a bestialidade, proferindo-se explicações bestiais que são mais atrozes do que as próprias bestialidades.
Joseph Roth, Cartas (1911-1939)
Situações absurdas e paradoxais, dentro e fora do país, todas implicando a crueldade, têm vindo de tal modo a suceder-se que digeri-las se torna tarefa quase impossível. Assemelha-se a uma doença digestiva, difícil de controlar, em que os sintomas são a sensação de contínuo enfartamento e acentuado mal-estar, a que se juntam a agonia e uma forte náusea diárias.
Escolher entre as várias situações é deveras custoso porque se sucedem vertiginosamente, mas realçarei, a nível nacional, a iniciativa tortuosa de Maria do Rosário Ramalho. Formatado na mais despudorada e inusitada exploração, o seu pacote laboral, depois de falhadas as negociações, durante largos meses, encontra-se agora na Assembleia da República, mantendo as propostas recusadas pelas centrais sindicais, e repudiadas igualmente por qualquer pessoa de bem.
Enquanto a Mentira e a Perversidade se mantiverem hasteadas, ostensiva e sobranceiramente, repetir-se-ão, bem ou mal escritas, palavras como as da mnistra do Trabalho: “O Governo confia que a UGT saberá honrar a sua tradição de diálogo, compromisso e empenho em que os trabalhadores tenham melhores condições e ganhem mais do que ganham hoje.” Perguntar-se-á, à maneira de Cícero (63 a.C.), até quando abusarão da nossa paciência os vários Catilina instalados no poder?
Relativamente à situação a nível internacional, mencionarei Gaza, que sobressai porquanto se tornou uma opção política não atenuar a barbárie cometida pelos israelitas sobre os civis palestinianos, muitos dos quais, sobretudo crianças, morreram de fome e de sede, havendo bem perto de si o que os saciasse e dessedentasse, mas tendo a bestialidade como único obstáculo. Nessa altura, a Europa defendeu os seus “direitos humanos”, enfartando-nos de silêncio ou de palavras vãs e nauseantes que, aliás, se mantêm. Incentivado e agradecido por essa ostensiva e despudorada letargia e hipocrisia, Netanyahu tentará uma forçada migração dos palestinianos, para finalmente poder concretizar, com Trump, a “Riviera do Médio Oriente”.
Parece cada vez mais uma miragem um Estado Palestiniano. Pudéssemos acreditar no “improvável”!…, recordando o filósofo Edgar Morin que igualmente lamentou “o silêncio do mundo” perante as atrocidades em Gaza.
É imaginável que se presencie passivamente quem vive numa faixa de território onde não existe quase um único edifício de pé, nem água, nem luz, nem alimento, nem cuidados médicos, no mais horroroso vazio e caos simultâneo? Perdemos a compaixão e o sentido de humanidade? Na verdade, a civilização ocidental extinguiu-se em Gaza.
A Europa tem lágrimas para as crianças europeias e denuncia também “a matança na Ucrânia”; o Chega espalha anúncios pagos pelos munícipes de Oeiras Valley (sic) para comemorar o “Dia da Mãe”. Tudo se passa envolto num fervoroso etnocentrismo branco que humilha quem é diferente e esquece que o sofrimento não tem cor nem cultura e que as mães de todo o mundo são iguais no seu amor pelos filhos e no seu desespero ao vê-los padecer e/ou morrer.
Resta-nos acreditar que, apesar de tudo, somos muitos e que a nossa Força pode concretizar ideais e objectivos. Entre esses muitos, devo mencionar o nome do jornalista José Manuel Rosendo, cujo blogue se pode acompanhar em meumundominhaaldeia.com. Retive o seu nome aquando da guerra do Iraque, outra mentira forjada entre os sorrisos cúmplices do quarteto dos Açores, formado por Bush, Durão Barroso, Aznar e Blair. No seu texto de 16 de Maio p.p., guardo como balsâmica a imagem de um israelita da Tag Meir (“a maior coligação de organizações judaicas que combatem os crimes de ódio e o racismo religioso”) a distribuir flores vermelhas aos muçulmanos, na cidade velha de Jerusalém.
E porque em guerra, ou em qualquer outra situação extrema, há sempre também quem se adiante, corajosa e solidariamente, para consolar e cuidar das vítimas, deixo o meu profundo agradecimento à organização Médicos Sem Fronteiras, pela sua acção, numa multiplicidade geográfica, que impõe a nossa ajuda através de doações.
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