Bairro Alto continua de copo na mão após limitação à venda de álcool na rua

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Burburinho, música e luzes coloridas reflectem a noite no Bairro Alto, em Lisboa, onde muitos circulam pela calçada de copo na mão mesmo após a proibição de venda de bebidas alcoólicas para fora dos estabelecimentos.

Pelas ruas estreitas desta zona histórica e entre prédios antigos com roupa estendida à janela, restaurantes e bares continuam a assegurar a vida nocturna do Bairro Alto. A boémia vivida nos séculos XIX e XX é adaptada aos dias de hoje, em que o turismo se apresenta como um dos principais motores da actividade económica da capital, bem como do país.

Na noite de quinta para sexta-feira, a partir das 23h00, hora em que se inicia a proibição de venda de bebidas alcoólicas para consumo na rua, a agência Lusa esteve no Bairro Alto, falou com moradores e comerciantes e ambos coincidem que “não se nota grandes diferenças” ou “nada mudou”, após três meses da aplicação desta medida, porque “as pessoas continuam a beber na rua”.

Para combater o ruído e salvaguardar o direito ao descanso dos moradores, a Câmara de Lisboa, sob governação de PSD/CDS-PP/IL, proibiu a venda de álcool para consumo no exterior dos estabelecimentos durante a madrugada, em toda a cidade, concretamente a partir das 23h00 de domingo a quinta-feira e desde as 00h à sexta-feira, sábado e véspera de feriado, com excepção do período das Festas de Lisboa, em Junho. O incumprimento constitui contra-ordenação, punível com coima entre 150 e 3000 euros.

Francisco Gonçalves, de 69 anos, morador do Bairro Alto e proprietário de um bar onde se pode ouvir fado vadio, a Tasca do Chico
Lusa/ Manuel de Almeida

Da Associação de Moradores da Freguesia da Misericórdia, que abrange o Bairro Alto, Luís Paisana conta que o impacto “é muito reduzido, ainda não se notam grandes diferenças”, e afirma que a limitação da venda, por si só, não resolve o problema, defendendo que a solução passa por proibir o consumo de bebidas alcoólicas na rua, apelando à “coragem e vontade política” do executivo municipal.

“Quanto mais álcool, mais barulho, mais ruído e, portanto, os moradores não dormem, e esse é o principal problema e que, de facto, tem causado o despovoamento da freguesia”, realça, criticando a venda ambulante ilegal e o fenómeno do “botellón“.

Luís Paisana destaca a necessidade de “um equilíbrio” entre o direito ao descanso e a diversão nocturna, considerando que os estabelecimentos têm de funcionar de porta fechada e, também, ter “alguma qualidade”, para que os moradores “não sintam os problemas deste turismo alcoólico”.

Cerca das 23h30, na Rua da Atalaia, uma das mais movimentadas do Bairro Alto, promotores de bares procuram atrair clientela, fantasiados de extraterrestres ou de piratas a rufar tambores. O menu de bebidas está visivelmente publicitado, inclusive há shots e imperiais a um euro.

De copo na mão junto à entrada de um bar, a brindar com uma amiga, o jovem lisboeta João Costa manifesta-se a favor da proibição de venda de álcool para a rua: “Acho que isto vai de certa forma diminuir, não a 100%, obviamente, mas acho que vai diminuir algum ruído.”

Na Rua do Diário de Notícias, enfeitada com bandeiras de diferentes países, dezenas de pessoas estão de pé e de copo na mão à porta de bares e restaurantes, mesmo perante os avisos afixados quanto à venda de álcool.

Rodeado de turistas, Francisco Gonçalves, de 69 anos, morador do Bairro Alto e proprietário de um bar onde se pode ouvir “fado vadio”, a Tasca do Chico, sublinha que faz parte da essência desta zona boémia as pessoas estarem na rua, “não gostam de estar presas”, ressalvando, porém, que é preciso limites.

Discordando da limitação à venda de álcool, o lisboeta desafia a Câmara a tabelar as bebidas, “tudo ao mesmo preço“, e pôr fim à “oferta de shots aos miúdos”, para que as pessoas possam continuar a beber na rua, e alerta para a venda ilegal de cerveja em garrafa, em que, por isso, após o fecho dos bares (até às 2h ou até às 3h à sexta-feira, sábado e véspera de feriado), “ficam grupinhos a beber e a fazer barulho até de manhã”, além do lixo que deixam.

Francisco Gonçalves reconhece que, “infelizmente”, o Bairro Alto perdeu muita população. “Há ruas que não têm um morador, têm hostels, têm hotéis e não há mais nada”, adianta, acrescentando que não é consequência do ruído, mas sim do aumento das rendas de 300/400 euros para 2000 euros.

“Os bares é que dão vida a isto, os bares, os restaurantes e tudo, é que dão vida ao Bairro Alto. […] Eu vivo aqui desde 1972, e vivi um bairro de prostituição, um bairro um bocado degradado, que era, e agora acho que as pessoas querem voltar ao mesmo, eu não percebo”, contesta, reforçando que a actividade económica traz segurança a “um bairro escuro”, porque “há luz e há movimento”.

Já depois da meia-noite, entre travessas mais silenciosas, onde não há negócios abertos, o presidente da Associação Portuguesa de Bares e Discotecas, Ricardo Tavares, adianta que o balanço da limitação à venda de álcool “é negativo, porque nada mudou” quanto ao beber na rua, em que lojas de conveniência, supermercados e grandes superfícies vendem bebidas e as pessoas fazem “botellón“.

“A única coisa que mudou foi que os bares reduziram a facturação em cerca de 80% aos fins-de-semana e durante a semana também [registam] uma descida de facturação muito acentuada”, revela, considerando a medida “inconstitucional”, porque os bares não têm como impedir as pessoas de saírem com bebidas para a rua, apenas podem alertar, discordando também da proposta de proibir o consumo na rua.

Rejeitando que haja “turismo alcoólico” em Lisboa, o representante dos bares adianta que há locais na Europa onde não se pode beber na rua, mas “estão abertos até às 6h”, e refere que os horários na capital portuguesa estão cada vez mais restritivos: “Não podemos acabar com a noite, porque a saúde mental dos portugueses e dos jovens também depende da saída à noite para beber um copo e para espairecer.”

Ricardo Tavares afirma ainda que a venda e consumo de álcool “é um falso problema” no Bairro Alto, criado para servir a especulação imobiliária, inclusive a construção de três hotéis de cinco estrelas, porque, além de haver “muito poucos moradores”, a maioria deles trata-se de proprietários de bares e restaurantes e os seus funcionários.

“O Bairro Alto sempre teve ruído. Não estamos a falar de um condomínio fechado onde só se ouviam os passarinhos”, frisa, recordando que esta zona, antigamente, era sede de jornais, com máquinas “muito ruidosas”, e tinha casas de prostituição, tabernas e marinheiros que as frequentavam.

Vinda de Madrid, Milagros Zafra, de 62 anos, acompanhada de duas amigas, conta que estão alojadas num apartamento na Rua do Diário de Notícias. Chegaram na quarta-feira à noite e depararam-se com esta zona “abarrotada de jovens a beber copos”. Apesar do burburinho, conseguiram dormir descansadas, porque o ruído foi insonorizado pelas janelas, e quando acordaram foram espreitar e a rua estava “super limpa”.

Com um mojito na mão, a turista espanhola destaca Lisboa como uma cidade “preciosa”, com “uma vida espectacular” e um ambiente “muito amigável”, realçando o sentimento de segurança, além de que o preço “é bastante mais barato do que em outras cidades”.

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