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O empreendedor brasileiro conhece bem a dificuldade de bater na parede mesmo tendo tudo para entrar pela porta da frente: tem produto, tem um mercado interno de mais de 200 milhões de pessoas, tem ambição de crescer para fora, mas, na hora de vender ao exterior, esbarra no idioma que não domina, nas regras que desconhece e na distância de mercados que ficam do outro lado do Atlântico. Durante anos, o tamanho de casa foi resposta suficiente: dava para crescer sem precisar sair, mas esse cálculo mudou.
Numa economia cada vez mais global, vender para fora deixou de ser ousadia para virar estratégia de crescimento — e, para um número crescente de empreendedores brasileiros, o primeiro degrau dessa escada tem endereço: Portugal. Mesmo idioma, proximidade cultural e, sobretudo, um caminho aberto para os 27 países da União Europeia, que partilham de um mercado comum com poder aquisitivo, uma população de mais de 500 milhões de pessoas e um Produto Interno Bruto (PIB) que ultrapassa os 19 trilhões de euros.
É essa engrenagem que a KPMG diz enxergar com clareza. Para o chairman da consultoria em Portugal, Nasser Sattar, o Brasil deixou de ser apenas um grande mercado distante para se tornar parceiro estratégico. Durante o evento NovaNEXT, realizado em Aveiro, na quarta-feira, 17 de junho, ele deu um recado direto sobre o relacionamento de Portugal com os brasileiros: o país tem deixado de olhar apenas para dentro. “Temos tido exemplos de várias empresas internacionais, e não só europeias, mas também do Brasil, que querem utilizar Portugal como a sua ponte para o resto da Europa”, afirmou, movimento potencializado pelo acordo entre o Mercosul e a União Europeia.
A leitura de Sattar, que tem mais de três décadas de experiência e atuação centrada em serviços financeiros, parte de um Portugal que, segundo ele, “tem demonstrado uma resiliência e, em termos econômicos, tem apresentado uma performance melhor do que vários de seus pares europeus”. Para o executivo, é essa estabilidade, somada a incentivos ao investimento num cenário geopolítico difícil, que credencia o país como porta de entrada. O movimento, disse, é de mão dupla: “As correlações vão aumentando, de forma que o relacionamento empresarial e inovador se junta para podermos ter uma relação bilateral que beneficia ambas as economias”.
Brasil na rota da inovação
O timing, na visão do presidente da KPMG, é da própria tecnologia. “O empreendedorismo é o motor da criação de novas empresas, utilizando novas tecnologias, a inteligência artificial, que vai fomentar o crescimento econômico”, sustenta ele, ao defender que Portugal vive “uma situação ímpar” para apoiar esse ecossistema. E o Brasil entra com escala: o país “tem um número muito significativo de startups” que, antes voltadas ao mercado doméstico, passaram a ver na internacionalização parte da estratégia de crescimento. “Nada melhor, por razões óbvias, linguísticas, culturais, do que iniciar este processo em Portugal”, resumiu Sattar, lembrando que o próprio Web Summit fez o caminho de Lisboa ao Brasil.
A aposta do chairman não soa abstrata quando se olha para o NovaNEXT, evento de tecnologia e investimento que reuniu cerca de 500 fundadores, investidores e empresas nesta quarta-feira, em Aveiro, com foco em inteligência artificial, inovação e startups. Mais do que tema de uma intervenção no palco, o Brasil esteve no evento como presença forte, através de investidores, parceiros institucionais e criadores que cruzaram o Atlântico para promover transformações “de Aveiro a São Paulo, Luanda, Maputo e além”, nas palavras da própria organização.
O argumento de Sattar é de que esse fluxo encontrou o seu momento técnico. Ele credita à Hypernova e ao NovaNEXT o esforço de “criar este ecossistema que permite acelerar”, e situa Portugal numa posição privilegiada para abrigá-lo, num encontro que reuniu fundadores, investidores, corporações e agências públicas em torno de aplicações reais de inteligência artificial (IA) — da saúde aos serviços financeiros, da indústria à mobilidade.
Cálculo Estratégico
O ponto que mais interessa ao empreendedor brasileiro, porém, é de cálculo estratégico. Historicamente voltadas para o gigantesco mercado interno, as empresas do país passaram a tratar a internacionalização como etapa de crescimento, e não como luxo — e Portugal surge como a primeira escala natural, pela proximidade linguística e cultural. Não é tese inédita: o Web Summit ergueu em Lisboa, ao longo de uma década, o maior palco tecnológico da Europa antes de desembarcar no Brasil. É essa correlação, defende Sattar, que vai estreitando uma relação que “beneficia ambas as economias”.
Os brasileiros são a maior comunidade estrangeira de Portugal — quase 500 mil com residência legal no fim de 2024, um terço de todos os imigrantes do país, segundo a Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA). Só o município de Aveiro reúne perto de 14 mil residentes estrangeiros, dos quais os brasileiros representam cerca 30%. Para essa população, a ponte de que fala Sattar não é só para grandes empresas e fundos de investimento: ela passa por profissionais de tecnologia, por pequenos negócios e por uma geração que fez de Portugal a sua base para alcançar a Europa.
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