No artigo “IndieLisboa, um ano depois do cancelamento: brincando aos deuses” (PÚBLICO, 29 de Abril), Vasco Câmara regressa ao caso Ico Costa para repetir uma ideia que já atravessava o seu texto de 2025, “O email que encostou o IndieLisboa à parede”: o festival teria cedido ao justicialismo, desvalorizado a presunção de inocência e confundido uma denúncia com sentença. O problema é que esta leitura, apresentada como prudência democrática, reproduz algumas das violências discursivas que tornam tão difícil falar de violência contra mulheres.
Segundo Vasco Câmara, há hoje indícios de que o email inicial terá sido escrito por um homem sob identidade falsa. É legítimo dar peso a esse dado. Mas a conclusão não pode ser que a escuta de denúncias é perigosa, ou que o gesto do IndieLisboa foi delírio moral. A pergunta deveria ser outra: que cultura permite que um homem se aproprie da linguagem das vítimas para atingir outro homem? E porque é que, perante esta possibilidade, o foco volta a recair sobre o festival e, em particular, sobre a mulher que o dirigia?
Há aqui uma operação conhecida: quando surge uma denúncia de violência de género, discute-se menos a violência e mais a reacção à violência. A denúncia é tratada como ruído, o acusado como vítima principal, a instituição que reage como tribunal ilegítimo. A presunção de inocência, princípio fundamental no campo jurídico, é deslocada para o campo cultural como se impedisse qualquer decisão ética ou curatorial. Diz-se que “a vocação do festival só pode ser o cinema”. Mas um festival não é uma máquina neutra de projecção: programa, exclui, consagra, enquadra. Faz escolhas. O incómodo parece começar quando uma dessas escolhas tenta romper com a normalização da impunidade.
Chamar “sentença” à retirada temporária de dois filmes é uma hipérbole. O IndieLisboa não prendeu ninguém, não proibiu os filmes, não apagou uma carreira. Aliás, o próprio artigo desmonta a fantasia da morte civil: Balane 3 chegou às salas, Narciso, co-produção da Oublaum, foi premiado em Berlim, onde “o cancelamento em Lisboa não foi ouvido”. Exactamente. Não houve exílio cultural. Houve uma decisão localizada, discutível, talvez imperfeita.
O mais preocupante é que, ao insistir em nomes como Polanski, Woody Allen, Hitchcock, Garrel ou Jacquot para defender a separação entre obra e autor, o artigo parece esquecer o que esses nomes também representam: uma história longa de mulheres silenciadas em nome da genialidade masculina. Não se trata de queimar filmes. Trata-se de recusar que a cultura continue a funcionar como biombo da impunidade.
O silêncio produzido um ano depois também não prova que nada existia. Muitas vezes, o silêncio é efeito da vergonha, do medo, da ameaça judicial, da exaustão institucional. Como mostrou a investigação feminista, as instituições silenciam tornando a queixa difícil, solitária e custosa. Transformar o silêncio em absolvição moral é, no mínimo, precipitado.
Trata-se de distinguir o que tantas vezes é confundido: escutar não é condenar, pausar não é proibir, responsabilizar não é linchar. O Indie pode ter falhado na forma. Poderia ter criado espaço para debate em vez do recuo. Mas o gesto dizia algo que continua urgente: a violência de género não é exterior ao cinema. Faz parte das suas hierarquias, dos seus silêncios, das suas dependências.
O problema não foi alguém brincar aos deuses. Foi, por instantes, alguém ter recusado continuar a brincar aos homens.
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