Cabo Verde: estamos a fintar o destino

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A bola era minha.

Não era o mais talentoso — longe disso. Em bom crioulo, era “kabali” no futebol. Mas havia uma coisa que me igualava a todos: a bola. A minha mãe tinha-a comprado na loja da dona Celina, no Plateau, o centro da cidade da Praia.

O campo de coco era o nosso estádio. Com camisola e sem camisola, a equipa formava-se. O Charroco, o Bedjo, o Django, o Joãozinho, o Lenine — esses eram talentosos. Eu escolhia-os para o meu lado. Tinha esse direito silencioso. Alguma reclamação — e a bola ia comigo.

Nunca fui o melhor a jogar. Mas era o dono da bola. E na infância, isso chegava.

Na segunda-feira, enquanto assistia à extraordinária estreia de Cabo Verde, em Atlanta, percebi que nunca me esqueci desse sentimento.

Porque Cabo Verde não é, no papel, o país que devia estar num Mundial. Não temos dimensão. Não temos recursos. Não temos a tradição das grandes potências do futebol. Somos menos de 600 mil pessoas espalhadas por dez ilhas e por meio mundo. Há cinquenta anos, quando nos tornámos independentes, disseram que não aguentaríamos seis meses.

Mas contra a Espanha a bola era nossa.

E durante 90 minutos, no Mercedes-Benz Stadium, os Tubarões Azuis seguraram a campeã europeia sem ceder um golo. Vozinha — quarenta anos, guarda-redes histórico, o homem que mais tempo carregou este sonho — parou a Espanha com as mãos. A cada defesa, Atlanta cantava o seu nome.

Zero a zero. Um ponto. Um empate com sabor a vitória.

Há uma coisa que aprendi naquele campo de coco do Plateau, que só percebi bem na segunda-feira: a bola não te torna talentoso. Dá-te, isso sim, o direito de entrar no jogo. E Cabo Verde tinha esse direito. O resto — o talento, o esforço, a identidade — fez-se em campo. É exatamente isso que esta seleção representa.

Muitos destes jogadores cresceram fora de Cabo Verde, em ligas de Portugal e da Europa, porque o país ainda não conseguia oferecer-lhes o que precisavam. A emigração foi, para eles como para tantos da nossa geração, o caminho natural para encontrar oportunidade. Saíram e foram-se tornando jogadores a jogar contra os melhores. Jogo a jogo, fora de casa, foram construindo algo.

E no dia do jogo devolveram tudo isso ao país de uma só vez.

É por isso que este momento vai além do futebol. O trabalho e o mérito mostraram-se, aqui como em tantos outros domínios da vida cabo-verdiana, o verdadeiro antídoto para as nossas limitações. Não há atalho. Não há sorte que chegue. Há um guarda-redes de quarenta anos que treinou a vida inteira para uma noite destas. Há uma geração dispersa que se uniu em torno de uma camisola.

E há ainda uma lição simples nisso: quando damos tudo o que temos, o resultado acaba por aparecer. Esses noventa minutos contra a poderosa Espanha significaram exatamente essa capacidade de entrega. Porque quando entregamos com amor, complicamos mesmo a vida aos nossos adversários.

Há ainda uma outra lição, a da inspiração. Uma das nossas maiores riquezas é o nosso povo — como acontece, também, com tantos outros países. Mas Cabo Verde tem a particularidade de não dispor dos recursos tradicionais que potenciam o desenvolvimento. Por isso, quando um miúdo da Ribeira Bote, em São Vicente, vê o Vozinha parar a Espanha, percebe que também ele pode chegar lá.

Se conseguimos isto, não há razão para não conseguirmos noutros campos — na economia, na educação, na inovação, no nosso lugar no Atlântico. A atitude que ganhou um ponto à Espanha é a mesma de que precisamos para acelerar o nosso desenvolvimento. Um povo pequeno, quando se une em torno de um propósito, tem uma força inigualável.

Há quase um século, Jorge Barbosa escreveu sobre o mar que nos cerca e nos prende — o convite permanente à evasão, a terra-longe a que tantos foram obrigados. Era o mar da seca, do isolamento, da emigração como condenação.

Hoje esse mar é outra coisa. Já não nos cerca — mede-nos a esperança.

E quando o hino soou em Atlanta, a emoção tomou conta de nós — na Praia, no Mindelo, em Lisboa, em Boston, em Roterdão, em Paris, nos Açores. Porque ouvimos a nossa história a ser cantada no maior palco do mundo.

Cabo Verde que não devia estar aqui, e está.

Arrisco dizer que cada cabo-verdiano, de nascimento e de coração, está hoje com o amor à flor da pele por estes dez grãozinhos de terra que Deus espalhou no meio do mar, como canta a nossa Cize.

Que orgulho em ser cabo-verdiano.

O autor escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990

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