Caminhos da água

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Da origem à cidade e ao campo, entre abundância e crise, a água revela-se simultaneamente recurso, poder e ética. Num planeta profundamente desigual, o futuro dependerá cada vez mais da inteligência local para garantir justiça hídrica e regeneração. Vivemos um tempo em que a água, elemento fundador da vida, se torna, cada vez mais, paradoxalmente escassa. As alterações climáticas intensificam secas e eventos extremos, enquanto a pressão humana — urbana, agrícola e industrial — agrava a degradação dos sistemas hídricos. A questão já não é apenas técnica: é civilizacional. Como gerir a água conciliando necessidades humanas, equilíbrio dos ecossistemas e a especificidade dos territórios?

A primeira evidência é simples e frequentemente ignorada: a água é só uma, por isso “água que une” é um excelente nome/conceito. O ciclo hidrológico liga, biosfera, atmosfera, oceanos, rios, solos e aquíferos num sistema contínuo. A separação administrativa entre águas superficiais e subterrâneas, entre bacias hidrográficas, é uma ficção funcional, não uma realidade ecológica. A invisibilidade da água subterrânea contribuiu para a sua sobre-exploração e desvalorização, quando na verdade constitui o principal regulador natural das secas e dos sistemas hidrológicos, sobretudo onde ela é escassa.

A água deve ser entendida na sua tripla dimensão: recurso, ecossistema e meio recetor. É recurso quando abastece populações e sustenta a economia; é ecossistema como sustento da vida e quando estrutura rios, zonas húmidas e aquíferos que suportam biodiversidade; é meio recetor quando recebe cargas poluentes de tudo o que fazemos. O conflito emerge precisamente desta multifuncionalidade. Explorar sem comprometer, usar sem degradar — eis o desafio. Mas a água é também geografia, os territórios condicionam capacidades, aptidões, funções e destinos.

Em Portugal, o contraste entre o Minho húmido e o Alentejo seco não é apenas climático — é estrutural. Modela práticas agrícolas, densidade populacional e vulnerabilidade. Ignorar a diversidade de realidades, às vezes muito finas, é abrir caminho ao erro. Em muitas regiões do mundo, a água já deixou de ser um recurso renovável. Rios onde já não corre água e aquíferos sobre-explorados são realidades, provavelmente, para sempre. A sua depleção implica riscos económicos, sociais e ambientais profundos. Onde havia rios hoje há seca, deserto e fome.

O sul da Europa, norte de África e vastas zonas da América do norte, são exemplos claros desta tensão crescente, entre muitos outros. Os aquíferos desempenham um papel crítico na regulação do ciclo hidrológico, amortecendo extremos de seca e cheia. No entanto, a sua recarga é cada vez mais insuficiente e a poluição, muitas vezes irreversível. A gestão da água exige, por isso, uma abordagem integrada, tendo a bacia hidrográfica como unidade funcional.

As grandes infraestruturas, como barragens, desempenharam e continuam a desempenhar um papel relevante. Permitem armazenamento, rega, produção de energia e controlo de cheias. Mas têm limites evidentes: perdas por evaporação, impactos ecológicos e dependência de regimes de precipitação cada vez mais incertos. O debate entre soluções “cinzentas” e “verdes” — engenharia versus restauro ecológico — está no centro das políticas contemporâneas.

O Alqueva é o exemplo paradigmático em Portugal. Um empreendimento de fins múltiplos que transformou o Alentejo, garantindo água para agricultura, povoações e energia. Mas também trouxe novos desafios: intensificação agrícola, monoculturas e maior vulnerabilidade a secas prolongadas. Neste contexto, ganha particular relevância a estratégia Água que Une, agora em desenvolvimento.

Macário Correia, recém-nomeado presidente da empresa (AQUA S.A.) que vai implementar e gerir “Água que Une” é claro, em entrevista ao Público: “não podemos fazer mais barragens sem resolver o desperdício de água”. A prioridade está na eficiência — reduzir perdas nas redes urbanas, melhorar a gestão e apostar na reutilização. Segundo o próprio, reduzir as perdas é como construir dezenas de barragens, sublinhando que a poupança pode equivaler a novos recursos sem impacte territorial adicional. A entrevista evidencia ainda um problema estrutural: a ausência, nas últimas décadas, de uma verdadeira escola de planeamento hidráulico, monitorização, licenciamento, regime económico-financeiro, regulação, etc., em Portugal. A resposta passa por reforçar capacidade técnica, melhorar governança e integrar diferentes fontes de financiamento e conhecimento. Mais do que obras, exige-se estratégia.

Perante a escassez, os caminhos da água são claros, embora exigentes: integrar a gestão das águas superficiais e subterrâneas, promover a eficiência no uso em todos os setores, reconciliar a sociedade com os ecossistemas através da valorização e do restauro ecológico, e construir políticas públicas duradouras, para além da lógica curta dos ciclos eleitorais. No fundo, trata-se de uma escolha: continuar um modelo extrativo, que esgota recursos, ou construir um modelo regenerativo, que respeita os ciclos naturais. Todavia, o respeito pelos ciclos naturais leva a uma mudança radical de paradigma: ajustar os consumos às disponibilidades. A água não é apenas um recurso. É o limite. E é no modo como lidamos com esse limite que se joga o futuro.

O autor escreve segundo o acordo ortográfico de 1990

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