Canarinho e um golfinho: a praça de Paraty que se pinta em busca do “hexa” do Brasil

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Os anos 1958, 1962, 1970 estão pintados de um lado, 1994, 2002, 202? do outro, no meio encontra-se o troféu dourado ambicionado, o fundo está azul, tudo está pintado no chão, toda uma praça pintada em amarelo, verde e azul. No centro também está pintada a bandeira brasileira, ordem e progresso inscritos, baloiços do parque infantil, lancis dos passeios, tudo com as três cores da selecção que tenta conquistar o sexto campeonato mundial, ​“hexa” é a palavra, hexacampeonato, “rumo ao ‘hexa’” está escrito no chão também, porque o ponto de interrogação é para substituir por um seis.

A Praça Vanessa de Oliveira Porto, do outro lado da ponte que liga o Pontal ao centro histórico de Paraty, não costuma estar assim, foi a comunidade que promoveu a mudança nos últimos dias. Meninos do Pontal, assim se chama o bloco que dinamizou, também conhecido pelo Carnaval que promove na cidade das portas coloridas situada no estado do Rio de Janeiro, a meio caminho entre o Rio e São Paulo. O símbolo do bloco é um golfinho, ali também desenhado com a camisola amarela do Brasil, número 10, “rumo ao ‘hexa’” escrito ao lado.

Há ainda o Canarinho Pistola pintado, com o ar carrancudo da mascote em forma de pássaro da selecção do Brasil, também há bolas de futebol desenhadas, afinal é de futebol que se trata o Mundial de 2026 (Copa do Mundo no português brasileiro), em que o Brasil se estreou contra Marrocos neste sábado, 13 de Junho, dia em que aquelas pinturas, desenhadas na sua maioria por um miúdo de 12 anos, ficaram meio escondidas com as dezenas de pessoas que ali se juntaram para assistir ao jogo.

“Gosto de fazer desenhos, eles pediram, eu desenhei, e depois pintei”, explica o rapaz da cidade, Felipe de Mello, “com dois L”, avisa. É para o rapaz que os moradores apontam quando questionados sobre aquele espaço transformado, mas Felipe de Mello desdramatiza o tempo passado naquele trabalho, foram sete a dez minutos em cada desenho, depois o dobro do tempo para pintar, conta, tudo rápido.

Os postes estão pintados, até um jogo da macaca há, está colorido das várias cores da selecção que se intitula canarinha, só as árvores escaparam à pintura, mas têm panos coloridos à volta. Ouvem-se algumas vuvuzelas, tiram-se selfies, há bandeiras nas costas, as camisolas amarelas do Brasil são as mais vestidas, Romário, Neymar Jr, Ronaldo são nomes nas costas. É um pequeno estádio na zona de Pontal, em Paraty, distante do MetLife Stadium que recebe o jogo, em Nova Jersey, nos Estados Unidos da América – bem mais próximo está o restaurante American Burger num dos lados da praça, também com uma televisão lá dentro.

A interrupção no golo

Felipe de Mello é um dos que estão mais perto do ecrã colocado na praça, fica em pé durante o jogo, mas para ali foram levadas cadeiras de plástico, cadeiras de praia, porque os bancos da praça eram poucos para a afluência, há muita gente em pé, nem todos vieram prevenidos, o chão também é opção, a organização trouxe um grelhador e ali faz o churrasco, que está já a trabalhar desde antes do pontapé de saída neste mundial das pausas para hidratação. É coisa que não há pela praça porque garrafas, copos (a cachaça é forte por aqui) e latas estão nas mãos de quem ali se encontra.

Há famílias, casais (e há muitos aos beijos, afinal o dia dos namorados do Brasil acabou de passar, foi dia 12), também vieram uns cães passear, o ecrã é a união dos olhares, “a cada quatro anos está todo o mundo junto”, ouve-se o narrador do relato que este ano é feito através do Youtube. Minutos antes do jogo, ali bem perto, no festival da gastronomia que decorre em Paraty por estes dias, ouvia-se precisamente que era preciso união na comida do país, conhecer o que cada estado e região tem para oferecer, “trazer [a comida] para a luz e visão de todos”, segundo era transmitido no palco.

Mas, na praça mesmo ao lado do rio, não há visão para ver o golo do Brasil que igualou o marcador. A Internet falha pouco antes de Vinícius Júnior marcar. O círculo que roda quando não há rede ali está no ecrã, ouvem-se protestos, alguns meio brincalhões, de repente numa parte da praça ouve-se gritar que o Brasil marcou, alguém está a assistir pelo telemóvel, uns não acreditam, confusão naquelas dezenas de pessoas, mas tudo volta ao normal no ecrã e lá estão os jogadores do Brasil a festejar o golo, felicidade que sai do ecrã e enche a praça cujos ocupantes tinham, uns minutos antes, ficado entre o perplexo e o silenciado aquando do primeiro golo marroquino, por Saibari.

Uma cidade parada a assistir

Entusiasmo quando há ataques, sorrisos quando há defesas, palmas de vez em quando, algumas crianças continuam indiferentes nos baloiços durante o jogo, “porra” é uma palavra muito ouvida ao longo da partida a cada falhanço, uns palavrões mais duros também são muito proferidos, “ai”, “que é isso, cara?”, são outras expressões que se dizem na praça por onde passa o autocarro 10 — continua a circular, mas sem grandes pessoas. Como é tradição do país, a cidade brasileira que está virada para o mar, sempre com as montanhas preenchidas de verde ao fundo, está concentrada no jogo. “Fechamos pra copa, voltamos às 21h!” é um aviso que está num dos cafés do centro histórico.

As ruas de pedra colocada de forma irregular, habitualmente movimentadas do turismo, estão mais vazias, porque visitantes e moradores estão em sítios específicos em torno de um ecrã: além da praça pintada de azul, verde e amarelo, a arena do festival da gastronomia também está cheia a assistir ao jogo, e numa das ruas do centro histórico há um projector a apontar para a parede e as esplanadas estão viradas para a imagem.

Da parte de fora da rua percebe-se que a elegante Livraria das Marés não tem quem a procure durante os minutos do jogo, só os funcionários ali estão. Num dos vidros, debaixo do livro Remanescentes da Mata Atlântica ou do simplesmente intitulado Atlântica, está inscrito o significado do verbo intransitivo “festar”. “1. Fazer-se festa. 2. Participar, criar e viver a celebração em comum, onde quem celebra também sustenta e encarna o próprio festejo”.

O “hexa” ainda não está perdido nem ganho, para já “funk nostalgia 2017-2026” é a lista musical que se segue na praça, ainda ali ficam muitos a conviver, a festa continua a acontecer mesmo após o fim da partida do Brasil e Marrocos, 1-1 é o resultado final, há Haiti e Escócia para vencer nos próximos jogos se o objectivo da praça e do Brasil for para ser cumprido. Felipe de Mello, que ainda não sabe se quer ser artista quando for adulto, esperava a vitória brasileira por 3-2, mas não está muito convencido de que venha aí a taça, cuja conquista se joga a 19 de Julho. Há uma sexta estrela para acrescentar às cinco que já estão debaixo do troféu desenhado no chão da praça. “Não sei, não: ganhar a copa, acho que não, a Argentina joga muito bem”.

*O PÚBLICO viajou para o estado do Rio de Janeiro a convite da TAP e da Visit Rio

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